
(Daliana Medeiros Cavalcanti - 28/05/2026)
Ontem, eu maternei minha mãe.
Enquanto somos ”jovens”, nós não compreendemos isso direito. Por vezes, me perguntei “como é que pode? Ela mesma me ensinou a mastigar de boca fechada, que é feio falar de boca cheia e agora, está fazendo isso?” Demora um tempo para a ficha cair e compreendermos que faz parte do ciclo da vida e nada, nem ninguém neste mundo, nos prepara para este momento, em que nos tornamos “pais dos nossos próprios pais”.
Por vezes, com pouco ou nenhum apoio ao meu redor, perdi a paciência com ela… Briguei com ela várias vezes e ela só me olhava, com aqueles olhos grandes, negros e desconfiados, tal como uma criança… Muitas vezes, pedi desculpas por ter reagido de forma grosseira e ela sempre me desculpou e dizia que “estava tudo bem”.
Cuidar de crianças é difícil, mas de uma idosa, ainda mais, com esquizofrenia e demência, mais ainda!
Definitivamente, eu precisava de umas férias… Mas quem ficaria em meu lugar? Quem assumiria o meu papel de “mãe da minha mãe”?
Eu sonhava em fazer mestrado e doutorado fora do país e até fiz fracas tentativas… Com pouco afinco e dedicação, pois não tive coragem de deixar uma idosa sozinha, com uma doença que não tem a menor perspectiva de melhora (só piora). Quem faria comida para ela? Quem entraria em contato com diaristas, para fazer a faxina da casa? Quem iria dormir em casa, com ela, para que ela não se sentisse só e insegura? E estando sozinha, se levasse uma queda ou adoecesse, quem a levaria ao hospital? Quem marcaria as consultas de rotina e a levaria para tomar vacinas?
Essas perguntas nortearam a minha cabeça durante anos e eu, realmente, não tive coragem de ir embora, deixando minha mãe sozinha, sem olhar para trás… Me consideraram encostada, preguiçosa, isso e aquilo, achando que eu não tocava a vida para frente porque “era desleixada e confiava no dinheiro da minha mãe”, mas nunca se tratou disso. Que falem e julguem à vontade. A minha verdade, só eu e as pessoas mais próximas, que conviveram comigo e me escutam, de fato, sabem.
Ouvia de uma amiga querida “Dali, você deixou de viver a sua vida para viver a da sua mãe” e sempre achei isso um exagero, até me dar conta que… Foi exatamente isso o que aconteceu nos últimos anos - ver minha mãe tão apática (um dos sintomas da esquizofrenia) e, cada vez mais dependente… Cada vez fazendo menos coisas por si, por não conseguir mesmo e eu, gradativamente, assumindo mais e mais responsabilidades… Com poucas perspectivas e muitas decepções e frustrações no meu meio profissional… Sendo julgada por tudo e por todos… Fora as frustrações no campo amoroso e nas amizades… Tudo isso fez com que eu desencadeasse um belíssimo quadro misto de depressão e ansiedade.
Mas, enquanto escrevo, vou refletindo… E nossa - minha mãe fez a mesmíssima coisa por mim! - quando engravidou do meu pai, ela, que trabalhava como secretária e era técnica de contabilidade, numa mina lá em Currais Novos (minha terra-natal), acabou abandonando toda a sua vida profissional para cuidar da casa, do casamento e das filhas…
Quando somos crianças, nós não fazemos ideia do quanto o trabalho doméstico e de cuidados é importante: o que seria de nós, se mainha não cuidasse da nossa saúde e educação? O que seria de nós, se ela, com todo o seu capricho, não mantivesse a casa limpa, roupa lavada e comidinha na mesa? Será que se ela não tivesse se doado tanto quanto ela se doou, por mim, meu pai e minhas irmãs, nós nos tornaríamos os estudiosos que somos hoje, educados(as), unicamente, para estudar e trabalhar?
E eu mesma respondo que não, pois esses serviços demandam muito tempo e esforço e julgar é sempre muito fácil. É cômodo e simples pensar que “fulano não trabalha e/ou estuda porque é preguiçoso e não quer saber de nada”.
Esse é o discurso que aprendi e que hoje, olho por outra perspectiva - quando assumi o serviço de orientadora de TCCs, na área de direitos humanos, pelo ENDICA, entre 2024/2025, participei da banca de uma colega, também orientadora, e ao corrigir os TCCs, vi uns muito bons, outros nem tanto.
E quando foi no dia da defesa, ao ver os orientandos defendendo os seus trabalhos, tive outra percepção: me dei conta de que os melhores TCCs foram escrito por homens, não porque “são superiores às mulheres”, mas, como o trabalho doméstico ainda recai sobre as costas femininas, eles “não perdem seu tempo com isso” e têm o luxo de se dedicar apenas aos estudos e trabalho.
Inclusive, uma das mulheres que defendeu o TCC estava com uma criança pequena e, ainda por cima, estava gestando outra criança. Minha colega orientadora falou que, muitas vezes, mãe e filha pequena assistiam à orientação, que era toda online, pois a mãe não tinha com quem deixá-la.
Então, nesse processo de maternagem, em que, de alguma forma, devolvi todo o amor e carinho que minha mãe me deu (ou tentei, pelo menos), abrindo mão de sua vida para cuidar de mim, que eu vi o quanto o trabalho doméstico é exaustivo e o quanto ninguém, absolutamente ninguém reconhece isso. Ah, mainha do céu e que está no céu… O quanto eu te entendo agora…
Mainha, como você mesma disse, quando fui fazer seu aniversário temático do Mickey e da Minnie, junto com Valéria (cuidadora e irmã que a vida me deu), vi o trabalhão que deu, comentei o quanto estava cansada e perguntei como ela aguentou fazer tudo aquilo: “mas valeu a pena”. E não falo isso “romantizando” o trabalho que é cuidar de alguém e maternar, pois é árduo e extremamente difícil. Comento lembrando do lindo sorriso dela, ao dizer que amou a sua festinha temática.
Pedi perdão a ela, ainda em vida, pelas vezes em que perdi a paciência e dei o meu melhor, especialmente, no diagnóstico de câncer com metástase, quando soube que ela não iria mais viver muito tempo… Dei todo o carinho possível, fazendo brincadeiras bobas para ela rir e se divertir, nunca mais perdi a calma com ela e, quanto a isso, nas palavras da linda música de Edith Piaf “Je ne regrette rien” (eu não me arrependo de nada).
Ontem, eu maternei minha mãe.
Não "ontem", no sentido literal da palavra, mas há dias anteriores, que duraram anos: primeiro, nos momentos em que a vi “sair de si”, em surto, falando coisas que não tinham sentido (princípio da esquizofrenia). Depois, a esquizofrenia despertou a demência e, em seguida, soube do diagnóstico de câncer no pulmão, já com metástase, quando ninguém desconfiava disso.
Foram anos vendo o processo contrário: quando somos mães, vemos a criança aprender a andar… A falar as primeiras palavras… Quando ela aprende coisas e conta para você, toda feliz… Quando os erros dela são fofos e engraçadinhos, porque são as primeiras experiências dela e ela está aprendendo tudo…
O curso desse rio é o oposto: vemos nossos pais mastigando de boca aberta… Não se comunicando direito porque eles sequer estão processando, direito, o que acontece na mente deles… Eles tropeçam porque os músculos e ossos estão perdendo o vigor (e qualquer queda, para um idoso, pode ser fatal)… Assistimos, de perto, os nossos pais em processo de desaprendizagem, e isso é muito difícil.
Foram anos vendo o processo contrário: quando somos mães, vemos a criança aprender a andar… A falar as primeiras palavras… Quando ela aprende coisas e conta para você, toda feliz… Quando os erros dela são fofos e engraçadinhos, porque são as primeiras experiências dela e ela está aprendendo tudo…
O curso desse rio é o oposto: vemos nossos pais mastigando de boca aberta… Não se comunicando direito porque eles sequer estão processando, direito, o que acontece na mente deles… Eles tropeçam porque os músculos e ossos estão perdendo o vigor (e qualquer queda, para um idoso, pode ser fatal)… Assistimos, de perto, os nossos pais em processo de desaprendizagem, e isso é muito difícil.
Enquanto somos ”jovens”, nós não compreendemos isso direito. Por vezes, me perguntei “como é que pode? Ela mesma me ensinou a mastigar de boca fechada, que é feio falar de boca cheia e agora, está fazendo isso?” Demora um tempo para a ficha cair e compreendermos que faz parte do ciclo da vida e nada, nem ninguém neste mundo, nos prepara para este momento, em que nos tornamos “pais dos nossos próprios pais”.
Por vezes, com pouco ou nenhum apoio ao meu redor, perdi a paciência com ela… Briguei com ela várias vezes e ela só me olhava, com aqueles olhos grandes, negros e desconfiados, tal como uma criança… Muitas vezes, pedi desculpas por ter reagido de forma grosseira e ela sempre me desculpou e dizia que “estava tudo bem”.
Cuidar de crianças é difícil, mas de uma idosa, ainda mais, com esquizofrenia e demência, mais ainda!
Definitivamente, eu precisava de umas férias… Mas quem ficaria em meu lugar? Quem assumiria o meu papel de “mãe da minha mãe”?
Eu sonhava em fazer mestrado e doutorado fora do país e até fiz fracas tentativas… Com pouco afinco e dedicação, pois não tive coragem de deixar uma idosa sozinha, com uma doença que não tem a menor perspectiva de melhora (só piora). Quem faria comida para ela? Quem entraria em contato com diaristas, para fazer a faxina da casa? Quem iria dormir em casa, com ela, para que ela não se sentisse só e insegura? E estando sozinha, se levasse uma queda ou adoecesse, quem a levaria ao hospital? Quem marcaria as consultas de rotina e a levaria para tomar vacinas?
Essas perguntas nortearam a minha cabeça durante anos e eu, realmente, não tive coragem de ir embora, deixando minha mãe sozinha, sem olhar para trás… Me consideraram encostada, preguiçosa, isso e aquilo, achando que eu não tocava a vida para frente porque “era desleixada e confiava no dinheiro da minha mãe”, mas nunca se tratou disso. Que falem e julguem à vontade. A minha verdade, só eu e as pessoas mais próximas, que conviveram comigo e me escutam, de fato, sabem.
Ouvia de uma amiga querida “Dali, você deixou de viver a sua vida para viver a da sua mãe” e sempre achei isso um exagero, até me dar conta que… Foi exatamente isso o que aconteceu nos últimos anos - ver minha mãe tão apática (um dos sintomas da esquizofrenia) e, cada vez mais dependente… Cada vez fazendo menos coisas por si, por não conseguir mesmo e eu, gradativamente, assumindo mais e mais responsabilidades… Com poucas perspectivas e muitas decepções e frustrações no meu meio profissional… Sendo julgada por tudo e por todos… Fora as frustrações no campo amoroso e nas amizades… Tudo isso fez com que eu desencadeasse um belíssimo quadro misto de depressão e ansiedade.
Mas, enquanto escrevo, vou refletindo… E nossa - minha mãe fez a mesmíssima coisa por mim! - quando engravidou do meu pai, ela, que trabalhava como secretária e era técnica de contabilidade, numa mina lá em Currais Novos (minha terra-natal), acabou abandonando toda a sua vida profissional para cuidar da casa, do casamento e das filhas…
Quando somos crianças, nós não fazemos ideia do quanto o trabalho doméstico e de cuidados é importante: o que seria de nós, se mainha não cuidasse da nossa saúde e educação? O que seria de nós, se ela, com todo o seu capricho, não mantivesse a casa limpa, roupa lavada e comidinha na mesa? Será que se ela não tivesse se doado tanto quanto ela se doou, por mim, meu pai e minhas irmãs, nós nos tornaríamos os estudiosos que somos hoje, educados(as), unicamente, para estudar e trabalhar?
E eu mesma respondo que não, pois esses serviços demandam muito tempo e esforço e julgar é sempre muito fácil. É cômodo e simples pensar que “fulano não trabalha e/ou estuda porque é preguiçoso e não quer saber de nada”.
Esse é o discurso que aprendi e que hoje, olho por outra perspectiva - quando assumi o serviço de orientadora de TCCs, na área de direitos humanos, pelo ENDICA, entre 2024/2025, participei da banca de uma colega, também orientadora, e ao corrigir os TCCs, vi uns muito bons, outros nem tanto.
E quando foi no dia da defesa, ao ver os orientandos defendendo os seus trabalhos, tive outra percepção: me dei conta de que os melhores TCCs foram escrito por homens, não porque “são superiores às mulheres”, mas, como o trabalho doméstico ainda recai sobre as costas femininas, eles “não perdem seu tempo com isso” e têm o luxo de se dedicar apenas aos estudos e trabalho.
Inclusive, uma das mulheres que defendeu o TCC estava com uma criança pequena e, ainda por cima, estava gestando outra criança. Minha colega orientadora falou que, muitas vezes, mãe e filha pequena assistiam à orientação, que era toda online, pois a mãe não tinha com quem deixá-la.
Então, nesse processo de maternagem, em que, de alguma forma, devolvi todo o amor e carinho que minha mãe me deu (ou tentei, pelo menos), abrindo mão de sua vida para cuidar de mim, que eu vi o quanto o trabalho doméstico é exaustivo e o quanto ninguém, absolutamente ninguém reconhece isso. Ah, mainha do céu e que está no céu… O quanto eu te entendo agora…
Mainha, como você mesma disse, quando fui fazer seu aniversário temático do Mickey e da Minnie, junto com Valéria (cuidadora e irmã que a vida me deu), vi o trabalhão que deu, comentei o quanto estava cansada e perguntei como ela aguentou fazer tudo aquilo: “mas valeu a pena”. E não falo isso “romantizando” o trabalho que é cuidar de alguém e maternar, pois é árduo e extremamente difícil. Comento lembrando do lindo sorriso dela, ao dizer que amou a sua festinha temática.
Pedi perdão a ela, ainda em vida, pelas vezes em que perdi a paciência e dei o meu melhor, especialmente, no diagnóstico de câncer com metástase, quando soube que ela não iria mais viver muito tempo… Dei todo o carinho possível, fazendo brincadeiras bobas para ela rir e se divertir, nunca mais perdi a calma com ela e, quanto a isso, nas palavras da linda música de Edith Piaf “Je ne regrette rien” (eu não me arrependo de nada).
Enfim… Esta é uma das séries de crônicas que pretendo começar, escrevendo as memórias que tive com minha mãe, ao mesmo tempo em que vivo e tento compreender esse momento de luto, desabafar um pouco no papel, como de costume, e trabalhar todos esses sentimentos mistos de tristeza, saudade, confusão, reconhecimento e reconexão comigo mesma e com o mundo ao redor, mas também de paz, por saber que ela não sofre mais, orgulho e missão cumprida.
Ontem, eu maternei minha mãe e poucas pessoas têm esse luxo, seja por não terem condições financeiras ou emocionais/psicológicas mesmo, de lidar com tamanho privilégio, que é cuidar e amar quem gestou, cuidou e amou a gente.
Beijão!
Ontem, eu maternei minha mãe e poucas pessoas têm esse luxo, seja por não terem condições financeiras ou emocionais/psicológicas mesmo, de lidar com tamanho privilégio, que é cuidar e amar quem gestou, cuidou e amou a gente.
Beijão!
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