Apesar de carregar “Maria” em seu nome, mainha não tinha nada a ver com a versão estereotipada da mãe de Jesus - aquela mãe carinhosa e amável, que estava sempre distribuindo beijinhos e abraços para seus filhos… Ela era fria, séria, detestava bagunça e sujeira e gostava de dar ordens; aliás, acho que eu e minhas irmãs só somos educadas, como somos, graças à disciplina dela.
Quando descia do carro, porque tinha acabado de chegar na escola, observava as outras crianças recebendo beijos e abraços das suas mães. Algumas recebiam até selinhos (coisa que, na época, achava esquisito) e, enquanto isso, mainha nos perguntava: “estão levando todo o material? Caderno, livros, caneta, agenda? Estão levando a lancheira? Depois, não quero saber de anotação na agenda, dos professores dizendo que vocês não trouxeram o material e não quero saber de vocês reclamando de fome, porque eu ajeitei tudo direitinho, viu? Boa aula.”
Ao observar essa total diferença da relação de pais e mães com outras crianças e a minha relação e a das minhas irmãs com nossos pais, em especial, minha mãe, eu me questionava “por que mainha não é assim?”
Na infância e adolescência, eu sempre me impressionava e ficava intrigada com a personalidade da minha mãe, tentando entendê-la e não conseguia.
Ela era a típica capricorniana: fria, organizada, perfeccionista, metódica, super-arrumada e elegante, com ares de realeza, economia era seu sobrenome e abrir a mão, para dar dinheiro para a gente, para qualquer coisa que fosse, era uma luta maior e mais feia do que briga de foice!
No último período da minha primeira graduação, no Bacharelado em Sistemas de Informação, da FARN (atualmente UNIRN), eu estava com dois estágios (um de manhã e outro de noite), cantava no coral e estudava à noite, tendo que escrever a minha monografia. Foi um ano bem cheio e pesado, fora a pressão psicológica, que alguns me colocavam, para que eu largasse o curso.
Minha mãe era a única pessoa que me apoiava nessa empreitada, mas, conforme as contas iam pesando, ela disse que eu deveria ajudá-la a pagar a faculdade. Eu chorei, esperneei… Fiz de tudo para que mainha deixasse eu usufruir do meu suado dinheirinho e ela, com sua calma, não esboçando pena em seu rosto, só disse “vai ser dessa forma que eu estou dizendo, tá?”
Eu reclamava da frieza dela e por ela não ter se afetado, nenhum pouco, com a minha birra, pois foi isso o que foi: birra, show e choradeira de uma adolescente mimada, sem a menor noção da vida e das coisas, já entrando na juventude. Ajudei minha mãe, por pouco tempo, super-chateada e contrariada, pois queria o dinheiro só para mim, para comprar minhas bobagens. Quando crescemos e refletimos um pouco, nos damos conta do quanto fomos bobas, egoístas e extremamente imaturas…
Demorou muito tempo e terapia para entender que “ninguém dá aquilo que não tem”. Não que mainha não nos amasse, mas ela mesma não recebia esse tratamento carinhoso de seus pais. Como ela ia dar algo que ela mesma não recebeu? Mainha contava o quanto o seu pai era o típico “homem bravo do sítio” e a mãe também, então, a desobediência era corrigida na base da palmatória, da cinta e do castigo. Talvez, as novas gerações nem façam ideia do que seja isso. Perguntem aos seus avós, que eles explicarão.
Eu era uma filha mais obediente, então, foram poucas as vezes que levei uns tapinhas, beliscões ou chineladas da minha mãe, coisa super-normal na época (e que não deve mais ser normalizada hoje em dia, óbvio), então, dá para perceber que da época dela para a minha, houve um avanço em termos de educação familiar para crianças e adolescentes, reduzindo a questão da “violência corretora” e a tendência, espero eu, seja que isso deixe de existir, nas futuras gerações.
Aliás, nós ríamos das nossas diferenças geracionais e psicológicas. Chega a ser engraçado ver que essa mãezinha tão impassível e cheia de pompa, deu a luz a uma criatura tão sensível e “nem aí com nada” quanto eu.
Adorava andar em casa com roupas rasgadas, feias, velhas, desbotadas e esmolambadas, afinal, estava no meu lar, ninguém ia me visitar e gostava de me sentir à vontade, sem roupas apertadas e considerava que “ficar arrumada em casa é uma necessidade fútil e inútil”.
Lembro do olhar de mainha, de reprovação e decepção, balançando a cabeça, ao me ver vestida desse jeito, e comentar “filha… Se você andar assim na rua, as pessoas vão te dar uma pratinha” e depois ria. Eu também ria e, às vezes, rebatia, brincando “olha só que bom: saio na rua e ainda ganho dinheiro sem fazer nada”.
Ano passado, quando finalmente, fui chamada para assumir meu cargo como professora substituta de Canto Lírico da EMUFRN, contei a boa notícia para minha mãe, já com o diagnóstico de câncer e acamada, e a reação dela foi um sorrisão sincero e estender a mão, me cumprimentando, para que eu apertasse. Foi aí que eu percebi que “não é que minha mãe não sente as coisas”, mas ela não sabia demonstrar o que sentia e/ou não se permitia sentir…
Além desse porte dela de “lady da corte britânica”, que não demonstra muito as emoções, devia ter um pouco da esquizofrenia envolvida, afinal, a doença deixa a pessoa um pouco apática.
Com o tempo, eu também fui entendendo que essas ordens que ela dava era o jeito “bruto-fofo” dela demonstrar carinho e preocupação comigo, minhas irmãs e as pessoas ao redor, como cuidadoras, faxineira, cozinheira… Ela olhava para a gente e dizia: “vá comer! Vá dormir”, preocupada com o nosso bem-estar e era assim que ela nos amava - cuidando, por meio das ordens “brutas-fofas” dela.
Enfim… Mais algumas memórias de momentos bons e engraçados, outros, nem tanto, com a minha mãezinha linda, também conhecida, entre os mais próximos, como “maga-bruta-fofa”.
Beijão!
Ela era a típica capricorniana: fria, organizada, perfeccionista, metódica, super-arrumada e elegante, com ares de realeza, economia era seu sobrenome e abrir a mão, para dar dinheiro para a gente, para qualquer coisa que fosse, era uma luta maior e mais feia do que briga de foice!
No último período da minha primeira graduação, no Bacharelado em Sistemas de Informação, da FARN (atualmente UNIRN), eu estava com dois estágios (um de manhã e outro de noite), cantava no coral e estudava à noite, tendo que escrever a minha monografia. Foi um ano bem cheio e pesado, fora a pressão psicológica, que alguns me colocavam, para que eu largasse o curso.
Minha mãe era a única pessoa que me apoiava nessa empreitada, mas, conforme as contas iam pesando, ela disse que eu deveria ajudá-la a pagar a faculdade. Eu chorei, esperneei… Fiz de tudo para que mainha deixasse eu usufruir do meu suado dinheirinho e ela, com sua calma, não esboçando pena em seu rosto, só disse “vai ser dessa forma que eu estou dizendo, tá?”
Eu reclamava da frieza dela e por ela não ter se afetado, nenhum pouco, com a minha birra, pois foi isso o que foi: birra, show e choradeira de uma adolescente mimada, sem a menor noção da vida e das coisas, já entrando na juventude. Ajudei minha mãe, por pouco tempo, super-chateada e contrariada, pois queria o dinheiro só para mim, para comprar minhas bobagens. Quando crescemos e refletimos um pouco, nos damos conta do quanto fomos bobas, egoístas e extremamente imaturas…
Demorou muito tempo e terapia para entender que “ninguém dá aquilo que não tem”. Não que mainha não nos amasse, mas ela mesma não recebia esse tratamento carinhoso de seus pais. Como ela ia dar algo que ela mesma não recebeu? Mainha contava o quanto o seu pai era o típico “homem bravo do sítio” e a mãe também, então, a desobediência era corrigida na base da palmatória, da cinta e do castigo. Talvez, as novas gerações nem façam ideia do que seja isso. Perguntem aos seus avós, que eles explicarão.
Eu era uma filha mais obediente, então, foram poucas as vezes que levei uns tapinhas, beliscões ou chineladas da minha mãe, coisa super-normal na época (e que não deve mais ser normalizada hoje em dia, óbvio), então, dá para perceber que da época dela para a minha, houve um avanço em termos de educação familiar para crianças e adolescentes, reduzindo a questão da “violência corretora” e a tendência, espero eu, seja que isso deixe de existir, nas futuras gerações.
Aliás, nós ríamos das nossas diferenças geracionais e psicológicas. Chega a ser engraçado ver que essa mãezinha tão impassível e cheia de pompa, deu a luz a uma criatura tão sensível e “nem aí com nada” quanto eu.
Adorava andar em casa com roupas rasgadas, feias, velhas, desbotadas e esmolambadas, afinal, estava no meu lar, ninguém ia me visitar e gostava de me sentir à vontade, sem roupas apertadas e considerava que “ficar arrumada em casa é uma necessidade fútil e inútil”.
Lembro do olhar de mainha, de reprovação e decepção, balançando a cabeça, ao me ver vestida desse jeito, e comentar “filha… Se você andar assim na rua, as pessoas vão te dar uma pratinha” e depois ria. Eu também ria e, às vezes, rebatia, brincando “olha só que bom: saio na rua e ainda ganho dinheiro sem fazer nada”.
Ano passado, quando finalmente, fui chamada para assumir meu cargo como professora substituta de Canto Lírico da EMUFRN, contei a boa notícia para minha mãe, já com o diagnóstico de câncer e acamada, e a reação dela foi um sorrisão sincero e estender a mão, me cumprimentando, para que eu apertasse. Foi aí que eu percebi que “não é que minha mãe não sente as coisas”, mas ela não sabia demonstrar o que sentia e/ou não se permitia sentir…
Além desse porte dela de “lady da corte britânica”, que não demonstra muito as emoções, devia ter um pouco da esquizofrenia envolvida, afinal, a doença deixa a pessoa um pouco apática.
Com o tempo, eu também fui entendendo que essas ordens que ela dava era o jeito “bruto-fofo” dela demonstrar carinho e preocupação comigo, minhas irmãs e as pessoas ao redor, como cuidadoras, faxineira, cozinheira… Ela olhava para a gente e dizia: “vá comer! Vá dormir”, preocupada com o nosso bem-estar e era assim que ela nos amava - cuidando, por meio das ordens “brutas-fofas” dela.
Enfim… Mais algumas memórias de momentos bons e engraçados, outros, nem tanto, com a minha mãezinha linda, também conhecida, entre os mais próximos, como “maga-bruta-fofa”.
Beijão!

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