Este é o canto do canto - um espaço para divulgar o trabalho da cantora lírica/de ópera, a soprano Daliana Cavalcanti e para falar sobre canto lírico, ópera, poesia e arte em geral.
Quando tive a ideia de me matricular no Laboratório de Cena 2023 dos Clowns de Shakespeare, tive um misto de medo de não aguentar “o rojão”, devido ao sedentarismo (de exercícios físicos tão somente, mas de "resolver pepinos", não) e uma série de questões de saúde, que deixam meu corpo mais fraco e sonolento e, simultaneamente, um grande anseio por mudanças, devido à minha constante vontade de aprimoramento, enquanto artista e ser humano.
E aí, ao saber do horário de imersão (das 9h às 18h) e do foco nas questões atividades físicas que o teatro dá, durante a entrevista para ser selecionada como participante do Lab, perguntei à Paulinha:
Hoje, dia 28 de abril, Dia da Educação, eu vou falar um pouco sobre o ensino do canto, mais especificamente, no canto lírico, mas creio que algumas pessoas que gostam mais do canto popular também possam se identificar com esse texto.
Em minha experiência como aluna de canto lírico, eu já me deparei com vários(as) profissionais: desde professores(as) maravilhosos(as) que carrego no coração até hoje a professores(as) péssimos(as) e quando me refiro a eles(as) como "péssimos(as)", não é nem pelo fato de serem maus/más cantores(as) e sim, pelas ATITUDES que possuem ao ensinar.
Eu que fiz essa paródia e bom... Eu sou bem insegura cantando popular (sou do canto lírico, portanto, relevem umas coisinhas, ok? 🙈 Hehe!), mas quis lançar meu protesto em forma de música e espero que gostem.
Clique abaixo para ouvir a paródia:
Voz e letra: Daliana Cavalcanti Paródia da versão de "Os Mutantes"
PS.: Acabei acelerando o andamento nuns tempos pq, afinal de contas, estou cantando à capella, logo, não tem instrumento pra me acompanhar e ia ficar um vazio/silêncio grande... 😅
Nossa... Quantas reflexões essa tragédia me traz...
Dentre elas, acho que a mais forte é de que nada dura à passagem do tempo. Mesmo a grande, imponente e belíssima catedral de Notre Dame: ninguém está a salvo do tempo e de todas as mudanças que ele carrega, inclusive da vida e da permanência de tantas vidas na Terra.
Outra reflexão que me vêm à mente é o próprio nome da igreja... Notre Dame significa "Nossa Senhora". Era uma igreja cristã dedicada a cultuar uma figura feminina, que era tida como uma divindade, por resquícios dos costumes pagãos, que a igreja católica incorporou, de adoração ao Sagrado Feminino (por mais que muitos não admitam, nem reconheçam isso) e vemos esse templo em chamas...
É claro que compreendo que o que causou o incêndio não foi algo proposital. O que se sabe, até agora, é que ocorreu em detrimento de uma restauração, que não foi tão bem sucedida. Mesmo assim e mesmo que não tenha sido intencional, reparem como é forte essa simbologia da destruição de um templo dedicado a uma santa, justamente em tempos onde o patriarcado grita escandalosamente, querendo retomar, à força, uma soberania que teve em boa parte do tempo, à base do sufoco, da agressividade e da violência contra a mulher... Soberania esta que estava sendo "ameaçada" pelo empoderamento feminino e que agora, mais do que nunca, tentam conter e minar, a todo custo, até mesmo na França revolucionária...
Segundo a reportagem, a catedral foi lugar de outros templos de adoração a outras figuras da mitologia greco-romana, como o Zeus/Júpiter. Agora, imaginem quantas e quantas pessoas daqueles tempos viram suas igrejas e seus lugares sagrados sendo destruídos para dar lugar a outras coisas... Quantas e quantas lágrimas foram derramadas por religiosos, que viram seus templos serem modificados para dar lugar a outras crenças e quantas e quantas vidas foram tomadas por causa disso...
E quanta importância nós damos a figuras, que nem temos certeza se já existiram, mas escolhemos depositar nossa fé e confiança nelas, a ponto de querer que outras pessoas acreditem no mesmo que nós, mesmo que isso implique a imposição da minha crença sobre outros e a ponto até de ter comportamentos agressivos e/ou violentos, quando sinto que essa fé foi desrespeitada e/ou que não depositam a mesma importância que eu dou ao que eu acredito... Ou mesmo, que não creem no que eu creio...
Outros pensamentos, não menos importantes, são os de vermos parte da nossa história e da nossa arte sendo consumida por chamas, mais uma vez, assim como aconteceu com o nosso Museu Nacional, aqui no Brasil, por não darem a devida importância à manutenção da estrutura do prédio e de todo o conteúdo ali existente...
Desvaloriza-se a arte, a educação, o conhecimento e a história (e agora, vejo que isso também é um fenômeno mundial e não apenas daqui), mas a catedral era o monumento mais visitado da França. A visita ao local era uma das maiores fontes de renda do turismo francês e era cartão-postal do país e foi através da arte, mais precisamente, da famosa obre de Victor Hugo, "O Corcunda de Notre Dame" que as pessoas foram sensibilizadas a fazer a manutenção da catedral.
Também é menosprezado tudo o que "é daqui", quando um presidente demonstra sua solidariedade à catedral francesa, mas nada comenta sobre o incêndio ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro, nem o fato de um músico ter sido alvejado com 80 tiros, nem a catástrofe de Brumadinho, nem outros desastres que acontecem em nosso país.
Eu sou do seguinte pensamento: "o fato de eu me entristecer com as coisas que acontecem aqui, não me impede de também ser solidária aos desastres que acontecem em outros cantos do mundo", mas não é isso o que acontece com o Biroliro e sua tropa de fãs cegos - eles desconsideram os desastres locais, como se não tivessem importância, mas um desastre na Europa ou nos Estados Unidos já é algo importante, numa total confirmação da Síndrome de Vira-Lata que acometeu a todos eles. Numa comparação tosca e grosseira (confesso), é quase como se não lamentassem o vizinho, que foi assaltado, mas lamentassem um assalto à Beyoncée, "pq ela é uma celebridade chique e importante; meu vizinho, não", e nem sequer consideram que o vizinho não tem tanto poder aquisitivo para se recuperar mais rápido de um assalto do que a Beyoncée.
Mais uma vez, é observado um fenômeno mundial, onde existe pouca compaixão para com as pessoas e muita para com um monumento... Sei que a catedral de Notre Dame significa muito para o mundo inteiro, mas e as vidas em Moçambique? Recentemente, houve a notícia de que super-ricos de toda a Terra se uniram e conseguiram juntas mais de 2 bilhões para a manutenção da catedral, mas por que essas mesmas pessoas não juntaram esse dinheiro para ajudar as vidas, que foram tomadas pelo desastre em Moçambique? Felizmente, não houve mortos em Notre Dame. Apenas dois bombeiros ficaram feridos durante o combate ao incêndio e em Moçambique e no Zimbábue, houveram, pelo menos, cerca de 600 mortes, número esse que pode chegar a mais de mil, segundo outros jornais. Por que a vida do negro pobre sempre vale menos do que qualquer coisa?
Enfim... Muitas reflexões e viagens, admito, mas estou tocada com os recentes acontecimentos no Brasil e afora e, espero, do fundo do coração, que dias melhores venham para todos(as) nós.
Tá difícil ter fé nas pessoas, ainda mais quando destilam tanto ódio, mas ainda assim, espero que coisas boas comecem a surgir e a brotar...
É isso mesmo? Uma agnóstica esperando que um "milagre" aconteça? Talvez... Somos todos(as) contraditórios e paradoxais, não é? A diferença é que alguns têm coragem de admitir isso, outros não.
No mais, tenham um(a) bom/boa "qualquer coisa"... E se agarrem à essa "qualquer coisa" boa, mesmo que seja mínima, pois é ela que nos dá ânimo para continuar vivendo e tendo alguma esperança.
Mentiram pra gente! Não, nós não podemos ser tudo aquilo que desejamos ser. Ou melhor: até podemos, se estivermos dispostos a pagar o preço dessa decisão.
Vivemos num país (e num mundo) onde a aparência é mais importante - é melhor você parecer bem do que você estar bem de fato. É melhor vc ter um carrão, dividido em 36x para parecer alguém mais high society do que vc ter um carrinho mais popular e mais humilde e que tem o mesmo propósito de um carrão: transportar você para os cantos.
E nesse mundo de aparências, as pessoas não estão interessadas em saber como você realmente está... Se a profissão que você escolheu para si o(a) deixa feliz... Querem ver suas fotos estampando um sorrido de felicidade no Facebook, Insta, Twitter, entre outras redes sociais, que nem sempre mostram o que você, de fato, É. Registram um momento e mesmo alguns momentos registrados podem não corresponder com a realidade.
Lembro que muito compartilham um vídeo do vocalista do Linkin' Park, quando ele estava às gargalhadas e horas depois, ele se matou. Não que eu seja uma expert em microexpressões faciais (mas me interesso pelo assunto), mas quando vejo esse vídeo dele, me pergunto "gente, é sério que ninguém está vendo a cara de dor e sofrimento que este homem está fazendo?"
Ele tinha depressão e é incrível como o sorriso é uma grande máscara para nossos sentimentos e tem como diferenciar um sorriso verdadeiro de um falso. As pessoas se deixam enganar facilmente pelo riso/sorriso, mas se, nesse vídeo, cobrirem a boca dele com o dedo e reparassem no olhar dele, veriam que aquele olhar não é de uma pessoa feliz e sim, de uma pessoa profundamente triste e angustiada.
Reparem nos olhos e o formato em que as sobrancelhas se encontram. Tapem a boca dele com o dedo e "voilà"! Expressão de dor e tristeza. Não é expressão de alegria.
Agora, olhem essa foto em que ele está com uma expressão mais neutra. Percebam como as sobrancelhas dele estão arqueadas com essa expressão neutra e se quiserem, procurem fotos desse cantor (Chester Bennington) e reparem como ficam as sobrancelhas dele quando ele sorri de verdade. Percebem a TOTAL diferença de quando ele está feliz mesmo e quando ele não está?
Então, num mundo de aparências, o PARECER é mais importante que o SER.
Quando você demonstra o que é e assume as suas escolhas, você está sendo uma verdadeira afronta à humanidade como um todo! Por isso que as bichas, quanto mais afeminadas e assumidas, mais elas incomodam. Por isso que gordos(as), quando se assumem e são felizes com os corpos que têm, usando roupas "que só serve pra quem é magro(a)", incomodam bastante. Por isso que artistas, em geral, incomodam demais.
Nesse mundo tosco de aparências, o problema não é você ser gay. É você se assumir gay e quanto mais afeminado você for, mais a sociedade vai te desprezar. Então, ser gay, se casar com uma mulher, ter filhos com ela e, nas sombras, ficar com outros homens, não parece ser um problema, porque você não está mostrando nada. Você está mantendo a aparência heteronormativa e nesse mundo, isso é ótimo.
No meu caso, o problema não é que eu seja artista e sim, que eu trate isso como uma profissão e me assuma artista. Que eu queira receber dinheiro pelo trabalho que eu faço... Que eu não queira tratar a arte apenas como um hobby ou como algo "pra me divertir, quando não tenho nada melhor pra fazer"...
Esse é o problema, pois isso incomoda porque "é coisa de vagabundo". "É coisa sem futuro". E até no próprio dicionário, quando fui ler o significado de palavras óbvias para encontrar outros significados e até ressignificar essas palavras, procurei o que era a palavra "amor" e dentro dessa palavra, existiam várias expressões. Uma delas é "por amor à arte", ou seja, "fazer as coisas de graça ou desinteressadamente". Nem a própria língua respeita a nossa profissão.
"Vai ter concurso da Caixa Econômica". E eu com isso? "Vai ter concurso dos Correios". Oi? "Vai ter concurso do Ministério da Justiça" E o que isso tem a ver com a profissão que eu escolhi? Com o curso no qual me formei?
Sim... Compreendo que num mundo de aparências, não existem muitas opções para a gente. Não existe nem a dignidade de algumas pessoas em serem claras e dizem o quanto vão pagar pelo nosso trabalho. Muitas gostam de enrolar e, no último minuto, dizer "ai! Não tive tempo... Não consegui angariar recursos o suficiente... Não tenho o dinheiro que prometi, mas tenho esses R$ 50,00. Tá aqui, ó". E não é a primeira vez que eu vejo esse filme. Já vi outras vezes e, infelizmente, é algo muito comum para os músicos... Algumas pessoas que fazem essas propostas aos artistas e até inscrevem projetos em editais, nunca têm dinheiro pra pagar o artista, mas vá lá olhar quanto ela está recebendo. Com certeza, não é só R$ 50,00!
Olha a mentiraaaaaa! Pague meu aqué!!!
O que acho mais hipócrita é quando o povo reclama do seu governo e age de maneira idêntica! Em proporções menores, mas a desonestidade é IDÊNTICA! E ainda reclamam quando não se sentem bem governados e representados e o nosso governo é apenas o reflexo da nossa sociedade, tal qual ela é: uma sociedade de aparências, com muita sujeira por baixo dos panos.
Certa vez, fui cantar num casamento com um grupo pouco conhecido e, para mim, ficou clara a frustração daqueles músicos! Um deles, que estava dirigindo, disse que trabalhava com informática e abandonou para fazer música, que é o que ele ama, uma história semelhante à minha e ele estava arrependido de ter feito essa escolha.
Eu me espantei em ouvir aquilo e estava absolutamente abismada ao ouvir uma moça... Uma das instrumentistas, ainda neste carro, que disse que estava cansada dessa vida e queria se casar para ser sustentada pelo marido. Não há nada de errado com isso, mas confiar sua vida a alguém que pode te trair e "te deixar sem nada" é algo muito surreal para mim, mas era o cansaço de trabalhar, ganhar pouco, ser desvalorizado e viver nessa vida tão cheia de incertezas, que é a vida do artista.
Nessas horas, me pergunto: "Meu Deus! Será que eu errei ao escolher a música e, além da música, o teatro? Eu estou errada em me arriscar e fazer o que eu amo? Pq a sociedade faz isso parecer um crime hediondo? Algo que eu escolhi porque é algo que eu gosto de fazer, posso fazer bem-feito, é o que eu amo, eu estudei e ralei MUITO para isso e ainda sou taxada de vagabunda? De 'cigarra' e até mesmo, pela minha PRÓPRIA FAMÍLIA?!?!"
É lógico que eu compreendo a frustração desses profissionais! Mas, sinceramente, eu não sei se iria preferir outra coisa... Não sei se iria aguentar "estudar Medicina ou Direito ou Engenharia, pq é o que dá dinheiro" se não são coisas que gosto muito de fazer e ser mais uma profissional meia-boca, que só visa o dinheiro e não quer fazer um bom trabalho.
Outra vez, lembro que estava num grupo de WhatsApp em que li a notícia de que uma moça, que estudava na escola que eu estudava, se suicidou. Ela tinha a mesma idade que eu (ou um ano mais velha), era linda, tinha um marido lindo, duas filhas lindas e era médica e acho que o marido dela também era médico ou era concursado. Aparentemente, uma vida perfeita, mas tinha depressão e morreu de overdose. "As aparências enganam" e MUITO!
Quantos e quantos médicos, advogados e engenheiros vcs não conhecem que fazem um péssimo trabalho? Que não sabem, nem sequer, lidar com as pessoas pq se sentem muito superiores e não sabem que atendimento é TUDO no mercado de trabalho? Estão aí os casos de violência obstétrica para confirmar isso... Advogados charlatões... Engenheiros que fazem um projeto péssimo de planta (no caso de um engenheiro civil) e são desonestos e enrolam quando um condômino vai questionar o projeto realizado (e sim. Eu conheço um caso assim)...
Mas não... - na sociedade de aparências, o que mais importa é que vc está de jaleco e isso é chique. Chique tmb é o salário no final do mês, que não vai mudar, mesmo que seu serviço seja péssimo.
Não é aos advogados, engenheiros e médicos que vc pede pra "vir aqui mostrar seu trabalho" para, nas próximas vezes, vc ganhar reconhecimento e te pagarem pelo que vc estudou. Se isso fosse proposto a eles, eles ririam na sua cara e, muito provavelmente, diriam "não", mas o artista diz "sim" pq pra ele, não tem muitas opções... Não tem muitas oportunidades assim, especialmente se esse artista não vem de uma família rica... Não tem, sequer, o reconhecimento de que aquela pessoa que está "mostrando o seu trabalho" é uma lutadora, que está batalhando pelo seu sustento e, assim como todo e qualquer profissional, MERECE ser pago ou, pelo menos, tratada da forma em que é: um profissional. Um(a) artista! Não um vagabundo!
Os verdadeiros vagabundos estão governando o nosso país, roubando o NOSSO dinheiro, não fazem NADA e tmb são os filhinhos de papai que não estudam, nem trabalham e só vivem em farras e baladas, sustentados pelos pais. Não é o artista que está "lutando para ser alguém".
Esse é o mundo como ele é e o problema nem é quando dizem "venha aqui mostrar seu trabalho". Dá para perceber quando alguém faz isso de coração e para nos ajudar e somos gratos(as) por isso. O problema não é esse. O problema é quando dizem que haverá cachê, mas não acertam o cachê contigo e esperam que vc vá trabalhar, sem você nem ter a certeza do quanto vc receberá ou, sequer, se você vai receber ou não, ou se acertam contigo um valor e na hora, vêm com desculpa de "ai, não deu, mas toma isso aqui" e te dão outro, geralmente, inferior ao que foi combinado. Nenhuma outra profissão aceitaria uma coisa dessas!!! NENHUMA!!!
E o mais absurdo: quando reclamam para você que "vc só faz as coisas pelo dinheiro". Mas se é o meu trabalho, não é justo que eu queira receber por isso? Ainda mais num país onde as oportunidades para o artista ganhar dinheiro são poucas? Eu acho justo! Eu estudei para isso, caramba! Se eu for fazer tudo de graça sempre, como é que eu vou me sustentar? Ninguém pensa nisso e nessas horas, exigem que artistas e professores façam as coisas "por amor à arte", mas quero ver cobrarem esse amor aos políticos, advogados, médicos e engenheiros. Eu DUVIDO que esses profissionais venham "mostrar seu trabalho" e que faça isso apenas pelo amor, sem cobrar nada. Se houver, são casos raríssimos e que contam-se nos dedos.
Existe o amor pelo o que fazemos, que não pode faltar ao artistas, mas tmb existe o SPC e o SERASA se vc não pagar suas contas. Eles não vão querer saber se você foi enganado por alguém que disse que ia te pagar e não pagou pq hoje em dia, está tudo sistematizado. Passou do prazo, é multa por cima de multa e ai de você se não pagar.
O mais absurdo é que quando as pessoas querem gastar dinheiro, geralmente, querem comprar algo relacionado à arte: roupas bonitas (estilistas)... Quadros (artistas plásticos)... Jogos de vídeo game/PC (designers gráficos e todo um arsenal de artistas)... Shows (músicos)... Filmes (atores/atrizes e bailarinos)... Querem gastar dinheiro com coisas que "os vagabundos fazem" e não com papel pra desenhar mais plantas nas horas vagas, pq é divertido... Ou com o transporte de pacientes, pq é hobby... Ou um processo longo pra ler pq relaxa... Só "coisa de vagabundo".
Talvez "o erro" seja ser brasileiro(a), pois não valorizamos nada do que vem daqui. Ator/atriz americano(a)? É chiquérrimo! Ator/atriz brasileiro(a)? Vagabundo(a). Cantoras americanas? Divas e maravilhosas! Cantoras brasileiras? Putas. Bailarinos(as) europeus/européias? O supra-sumo do "chiquetê"! Bailarinos(as) brasileiros(as)? Um bando de desocupados. Desenhistas japoneses(as)? Nossa! Incríveis! Desenhistas brasileiros(as)? Um bando de maconheiro.
Até quando vamos viver nessa "Síndrome do Vira-lata" que só faz mal para nós mesmos, tanto enquanto artistas, quanto para quem consome arte? A gente não apenas desvaloriza os artistas daqui, como também nos desvalorizamos como povo, pois a arte de um povo o define e o engrandece. Os europeus e americanos investem pesado em arte pq um povo educado valoriza sua arte e, ainda por cima, atrai muitas pessoas, logo, mais dinheiro. Animações e desenhos da Disney... Filmes... Jogos... Divas pop... Tem como os EUA ser um país pobre, quando sua cultura está sendo tão bem difundida? Agora, imagine os EUA sem nada disso. O prestígio americano iria cair drasticamente e talvez, nem manteria mais o seu império sobre o mundo!
Enfim... Mesmo depois de tudo, continuo sendo uma sonhadora, que decidiu pagar esse preço caro e difícil de fazer o que ama e sonho com o dia em que nós, artistas brasileiros(as) sejamos, finalmente, reconhecidos pela importância que temos, nem que seja, minimamente, para trazer alívio e alegria para um país tão doente como o nosso, mesmo tendo consciência de que somos muito mais do que essa definição de "meros bobos da corte".
Pode parecer estranho começar com uma pergunta que alguns irão responder e outros não, por estarem se relacionando com um papel ou com uma página virtual, mas quero lembrar que por trás das palavras, existe uma pessoa, que é esta que está digitando esse texto-diálogo com vocês e por isso, peço licença para me comunicar COM você: como você está?
No momento, estou atravessada por uma série de questões. São questões políticas, pessoais, filosóficas e artístico-profissionais, uma vez que escolhi a arte como profissão.
Este ano, entrei no curso de Mestrado em Artes Cênicas e, portanto, falo na condição de uma pessoa das artes cênicas, que está experimentando esse tipo de arte e, ao mesmo tempo, de alguém que esteve muito tempo fora, até encontrar este meio... Este percurso...
Neste sentido, cada vez mais, me enxergo como não apenas uma pessoa da música e da poesia, mas alguém do teatro. Ainda não me vejo como atriz, pois tenho muito o que crescer e aprender nessas relações com meu próprio corpo, que têm se desenrolado lenta e gradualmente e preciso de mais segurança para entrar em cena, expor o meu corpo e dizer com segurança e sem receios “sim. Eu SOU ATRIZ também”.
E por falar em corpo, não consigo deixar de admirar a relação que os atores têm com os corpos deles... Muitos desses alunos e professores estão conectados com os próprios corpos e são artistas que colocam o corpo a serviço da arte, a ponto de se despirem e mostra-lo tal como ele é: peitos, barriga, sexo, lugares com e sem pelo, cicatrizes, estrias, celulites, manchas, sinais, marcas de bronze... Corpos magros, “meio-termo”, gordos ou musculosos, de vários tamanhos e formas... Corpos que física ou abstratamente, estão nus e à disposição do público.
É fascinante essa relação com o corpo-mente que eles possuem e o ato de se desnudar requer muita coragem. Se despir para alguém é falar... É comunicar alguma coisa e escutar as reações do outro para com este corpo nu, sejam elas quais forem. As reações à nudez também são escutas do outro e dependendo da reação, comunicam pensamentos sobre aquele despir. E apesar de admirar a coragem desses artistas, confesso não conseguir ter a coragem necessária de fazer o mesmo fisicamente, mas me desnudo de outras formas.
Esses dias, tive muito contato com performances. Elas têm me provocado bastante e é impressionante a disposição do corpo em muitas dessas performances. Não deixo de admirar a coragem dessas pessoas e de admirar as mensagens que elas comunicam com seus corpos e sua criatividade artística e não deixo de lamentar as mentes das pessoas que repudiam essas manifestações, em pleno século XXI, da era chamada de “pós-modernidade”, mas com pensamentos medievais, que ainda prevalecem em nossa sociedade.
Há dias atrás, houve outra performance onde corpos semi-nus, vestindo apenas suas roupas íntimas estavam pintados de branco, com várias suásticas ao redor do corpo, na cor preta. A performance consistia em outras pessoas lavarem o fascismo desses corpos com água e ervas cheirosas, como alecrim e alfazema. Tive a alegria e orgulho de participar dessa performance, lavando um desses corpos: o de uma grande e querida amiga.
E hoje, após a aula de Canto para o Ator I, um colega foi fazer uma performance contra um certo candidato à presidência da República, com pensamentos fascistas e para isso, ele molhou o chão e colocou as tintas verde e amarela, junto com fitas adesivas que perguntavam “você apoiou?” e se debruçou sobre aquelas águas coloridas, que constantemente secavam devido ao enorme calor, completamente nu. Em suas costas, havia escrita a palavra “coitadismo” e havia um pedaço de cabo de vassoura, também pintado de verde e amarelo, entre suas pernas e vários pedaços de pedras ao redor dele.
Ao vê-lo em cena e ao observar a própria maneira no qual eu olhava para aquele corpo nu, me alegrei por perceber que havia aprendido algumas das mais importantes lições que o teatro havia me ensinado: a olhar para o outro sem julgamento. É difícil fazer isso quando se tem uma mente tão inquieta, como a minha, mas me coloquei em estado contemplativo para tentar imaginar o que todo aquele conjunto de coisas estava tentando me comunicar e de que maneira aquela performance me atravessava.
Era curioso e engraçado perceber, claramente, a diferença entre quem era das artes cênicas e quem não era. Os atores, assim como eu, olhavam sem pudor, rodeavam aquele corpo prostrado e refletiam sobre aquela performance. As pessoas que não eram das artes cênicas não sabiam lidar com aquilo e ou olhavam com nojo, ou olhavam com vontade de rir ou, simplesmente, viravam o rosto porque queriam esconder sua vontade de olhar aquele corpo masculino, musculoso, nu e belo.
Mesmo atribuindo essas características físicas ao corpo do meu colega, não havia erotismo ali e é incrível a capacidade que algumas pessoas têm de não conseguirem separar uma coisa da outra e sempre atribuírem essas performances à imoralidade... Ao desprezível... Ao abominável... Ao pecado...
Sei que hoje, quando passo pelos lugares onde essas performances aconteceram, não vejo apenas manchas e tintas e sim, resíduos de corpos em estado líquido, que protestaram e se posicionaram no mundo, de maneira artística, e que marcavam o chão com o calor do furor que assolava suas almas descontentes e questionadoras. Aqueles resquícios de corpos que coloriam o chão era o passado se fazendo presente. Um registro imagético de manifestações legítimas, feitas por pessoas apaixonadas pela arte e pela vida, inclusive, daquelas que pensam que isso não é arte.
Nesse aspecto, é interessante evocar os pensamentos lógicos e exatos de minha primeira formação, em Bacharelado em Sistemas de Informação, que é também parte de mim e de minha história, enquanto também amante dos números e dos cálculos: é apenas um corpo nu. Só. Sem mais, nem menos e um corpo nu não deveria ser uma ameaça. Qualquer coisa que seja vista para além disso é interpretação pessoal e que tem a ver com o olhar de quem observa e suas respectivas individualidades e crenças. Se alguém se despe e você se incomoda com isso, talvez o problema não esteja no corpo nu do outro e sim, no seu corpo vestido e na sua mente revestida.
Mais uma vez, quero fazer associações em um âmbito metafórico. Se alguém se abre para você, é importante que você se coloque nesse lugar de receptividade e abertura. Essa nudez pode ser um jogo teatral... Ou um recital... Ou um amigo te contando algum problema... Se despindo para você das roupas que o cobrem e o sufocam... E nosso dever como artistas e humanos é acolher e abraçar aquela nudez, sem julgamentos. Escutar...
E então, me deparo com outra importantíssima lição, tanto do teatro, quanto da música: escutar. Escutar o outro nem sempre é fácil, ainda mais numa época em que todos querem falar, isolados em suas redes sociais, mas ninguém está receptivo ou pronto para ouvir. A não escuta hoje é tão gritante que me deparo com absurdos. Amigos que sofrem e se encontram e então, o amigo A fala para o B “terminei com meu namorado e estou sofrendo” e eis que B responde “e eu que, quando chegar em casa, tenho uma pilha de louça para lavar, porque meu marido não me ajuda em nada e tenho um filho que não obedece, desarruma tudo e só falta destruir a casa?” As pessoas não se escutam mais e associando a nudez, como estava fazendo, isso é tão surreal quanto se as pessoas estivessem nuas, uma de frente para a outra e a pessoa A dissesse “não gosto do meu umbigo. Eu o acho muito grande” e a B dissesse “e o meu, que tá todo desajeitado porque eu coloquei um piercing e ainda não cicatrizou?” Cada um olhando o próprio umbigo, querendo falar sobre ele e não estando receptivo para olhar o umbigo do outro e ouvir as inquietações sobre essa parte do corpo alheio.
Curioso perceber somente agora que após treze anos cantando no Grupo de Ópera Canto Dell’Arte, quatro anos no Curso Técnico de Música, cinco anos no Bacharelado em Música e caminhando para dois anos e meio em teatro, essas artes (música e teatro) sempre me colocam num lugar de muita fala, mas muita escuta também. Confesso que já teci julgamentos sobre algumas pessoas, mas quando elas conversavam comigo... Quando elas se despiam para mim, eu compreendia o porquê de muitas coisas e ao contemplar a nudez delas, pude abraça-las e ajudar da melhor forma possível. Não ouvi-las, seria quase como se eu dissesse “vista-se, por favor, e vá embora daqui” e eu jamais faria isso com pessoas que precisam desabafar, ainda mais quando eu posso emprestar meus ouvidos e olhos a elas...
Meu canto é um desabafo... Uma nudez de alma onde exponho minhas cicatrizes e saio vitoriosa por enfrentar minha timidez. Talvez seja por isso que minha voz seja tão grande – as cicatrizes são muitas e a mudez também, portanto, se você ouve o meu cantar, te agradeço pela contemplação do meu despir e por emprestar seus ouvidos, momentaneamente, para abraçar este corpo-voz, com todas as suas belezas e defeitos que ele possui, mas que é o meu corpo e é o que posso oferecer a ti.
Portanto, caro leitor, a fins de agradecimento e reciprocidade, volto a perguntar: como vai você? Por favor, deixe-me abraça-lo nu... Despido de qualquer veste que esconde sua alma e encobre a centelha de vida que quer reluzir para fora de seu corpo e ilumina todo aquele que se dispõe a te contemplar, em toda a sua verdade, beleza e fragilidade, emprestando os bens mais preciosos que alguém pode oferecer para outro alguém que necessita desse desabafo: o tempo e a atenção.
Escutar é amar. Exercer a escuta é qualidade de quem ama e o amor é o sentimento que fala com os olhos da alma, toca com o ar e escuta com o coração.
Sim. Pabllo Vittar não canta bem, mas não se trata disso. Se trata da representatividade. Quantas drag queens vocês conhecem que fazem tanto sucesso quanto ela? Só tem ela mesmo, pois a maioria das drags só faz sucesso entre o meio LGBT. A Pabllo foi a única que está famosa entre os heteros também e isso deve incomodar muita gente.
Se fosse só por cantar mal, pq não existe revolta com um monte de cantor sertanejo, funk e, enfim, um monte de música PÉSSIMA que existe hoje em dia, mas existe com a Pabllo? E olhe que tá CHEIO de cantor ruim por aí e que o povo aplaude e dá o maior valor. Eu, pessoalmente, acho um absurdo o Luan Santana ganhar prêmio de melhor cantor do Brasil, quando existem muuuuuuuuuuuitos caras muuuuuuuuuuito melhores do que ele, mas, enfim...
Cantar bem ou mal tem nada a ver com a sexualidade ou com identidade de gênero. Tem hetero que canta bem e hetero que canta mal e, do mesmo jeito, LGBTs que cantam bem e uns que cantam mal. Tem nada a ver comparar ele com o Freddy e outras pessoas LGBTs, até pq a identidade de gênero/ sexualidade/ estilo, etc deles é BEM diferente. Freddy era cantor de rock e era bissexual/gay e Pabllo canta uma mistura de tecnobrega com forró e um monte de coisas e é drag queen. Pq a comparação? O que uma coisa tem a ver com outra?
Enfim... Falando algumas verdades...
PS.: colocando uns vídeos do Rizzih imitando a Pabllo... Por motivo nenhum! Hahaha! Somente porque achei a imitação e homenagens hilárias e maravilhosas!
É incrível como o nu, que é retratado na arte, tipo... DESDE SEMPRE, ainda é um tabu. Gente... O Homem Vitruviano de Da Vinci é um homem nu. A estátua de Davi é um homem nu. Tantas Madonnas que foram retratadas no Renascimento estão nuas. Tem nu até em pinturas do antigo Egito e o povo vai se incomodar com um homem nu sendo exposto ao vivo dizendo que "vai tirar a inocência da criança"?
"O Homem Vitruviano" (1492) de Leonardo Da Vinci
"Estátua de Davi" (1504) de Michelangelo
"O Nascimento da Vênus" (1483) de Sandro Boticelli
Gente... Até não muito tempo atrás, era comum pai, mãe e crianças tomarem banho JUNTOS e um olhava pro outro nu. Isso tirou a inocência da criança? Os índios fazem isso. Muitas tribos africanas tmb. Desde crianças, os índios veem gente nua correndo pra lá e pra cá. Então, eram pras crianças indígenas serem as mais taradas, traumatizadas e sequeladas do mundo, né? Alguém morreu ou perdeu a inocência?
Crianças indígenas brincando nuas, juntos com um adulto
A inocência se perde quando a criança é estimulada sexualmente, antes mesmo de descobrir, sozinha, a sexualidade. Aí sim é imoral. É pedofilia e temos que ser contra mesmo. Mas o cara tá lá nu e toca quem quiser. Quem não quiser, olha, passa direto e pronto. A criança, ao ver um homem nu, só vai pensar: "ah! Então é assim que a gente fica quando cresce" e umas vão achar interessante... Outras vão achar nojento... Outras vão achar engraçado... Umas vão achar bonito, outras vão achar feio... Algumas acharão estranho... Muitas ficarão curiosas, mas não tem intenção sexual nenhuma. É porque isso é diferente para elas. E, assim como a tirinha que postei do beijo gay, "depois disso, sabe o que elas vão fazer? Isso mesmo! Comer terra, como qualquer outra criança normal. Como se nada tivesse acontecido."
É engraçado que esse constrangimento é sempre dos adultos e nunca da criança (veja o vídeo abaixo desse programa de TV norueguês. Eles até avisam que os pais podem ficar com vergonha, mas a cabeça da criança é inocente. Ela não vê maldade naquilo pq, de repente, NÃO TEM MALDADE. "A maldade está nos olhos de quem vê"), que está vendo algo diferente na maior inocência. É diferente do Queermuseu. Ali sim precisa de uma faixa etária pq nem toda criança pode ver algumas obras pq falam de sexo sim, mas um homem nu nem sempre está associado a sexo. É só... Um homem nu...
Enfim... Estamos perdidos nessa época desse puritanismo hipócrita e que nunca levou ninguém a canto nenhum. Só trás atrasos em todos os aspectos humanos.
Na TV norueguesa, existe um programa de educação sexual e adolescência para crianças e se chama Pubertet (vídeo abaixo) e, adivinhem só: tá CHEIO de gente nua!!! E bom... Olhem como é a cultura e os níveis de educação de lá, que é UM DOS MELHORES DO MUNDO e olha a galera daqui:
Enquanto isso, na nossa terra tupiniquim, o povo perde seu tempo discutindo e querendo dizer o que é e o que não é arte baseado em gostos pessoais. Todo mundo tem o direito de não gostar de ver o homem nu, o Queermuseu e tudo o mais. Não gostou? Massa! É um direito seu e ninguém pode tirar isso de vc, mas NUNCA terão o direito de dizer que "não é arte pq não gostaram" e sejam honestos consigo mesmos: o motivo de vcs acharem que não é arte é apenas esse. Não é a inocência das crianças (que, como falei, no caso do Queermuseu, tinha que ter faixa etária mesmo e elas não vão perder a inocência por apenas verem um cara nu), não é por ter ou não beleza (que é um conceito super-relativo e pessoal, pois o que é bonito pra mim pode não ser bonito pra vc), não é por "ferir a moral e bons costumes" - é porque vcs não gostaram pura e simplesmente.
Houve uma artista em Nápoles que fez um experimento, nos anos 70 muito semelhante a esse. É um tipo de performance em que o artista está em total entrega e à mercê do seu público. Ela ficou imóvel por 6h e deixou que as pessoas fizessem o que quisessem com seu corpo. As pessoas a deixaram nua, a cortaram e fizeram um monte de coisas boas e ruins com ela (Link: https://www.fatosdesconhecidos.com.br/essa-artista-deixou-…/). É chocante como a violência contra a mulher tá "entranhada" na nossa sociedade. Uma mulher vestida, o povo a deixa nua, corta, fazem todo o tipo de coisas e enquanto aqui, o homem já nu, parece coisa de outro planeta e, até onde sei (teria que ler mais à respeito), não houve violência contra ele, mas a disposição dele e dessa mulher é a mesma, porém, como sempre, respeitam muito mais o corpo do homem do que o corpo feminino. Alguém sequer parou para pensar nisso e fazer algumas dessas leituras ou, simplesmente, "não gostei, é feio, é imoral" e pronto?
À esquerda, como a artista estava no início da exposição e à direita, como ela foi ficando, conforme as pessoas interagiam e mexiam com ela
Enfim... Tempos difíceis para a arte, a cultura, a educação, o bom senso e a inteligência, hein...?
Muita gente já me disse: "Dali, pq vc não coloca seus vídeos cantando no Youtube? Seria excelente para vc ficar reconhecida, menina! Se joga!"
E muita gente não entende, mas CLARO que já pensei nisso várias, várias e VÁRIAS vezes. Claro que seria ótimo se conseguisse mais reconhecimento do meu trabalho e tal, mas também tem muitas outras questões que explico e ainda assim, não entendem. Vamos lá a alguns pontos:
1) O canto lírico é uma arte super-exigente e as pessoas que fazem parte dele tmb são SUPER-exigentes, sejam elas maestros... Produtores... Professores... Coaches... Os próprios cantores... O público que entende (não o leigo)... É tanta exigência que chegar à perfeição é impossível (não existe nada perfeito em qualquer aspecto da nossa vida, na verdade), mas claro que devemos estudar e estudar até nos aproximarmos da perfeição. Não tem como ser um bom cantor sem estudar, mas nossa... Alguns comentários no Youtube me assustam. É claro que não sou famosa como vários cantores, mas criticam tão duramente, como se fossem os próprios compositores que escreveram e "têm certeza do que pediram em suas obras" que é assustador... Claro que tmb existem pessoas gentis que elogiam ou fazem críticas positivas, mas tem gente que derruba e não está nem aí e ainda mais no mundo hoje, que está cada vez menos empático, as pessoas são estúpidas mesmo e estão pouco se lixando para os sentimentos do cantor, seja ele iniciante ou não;
2) Na verdade, acho que esses pontos todos tratam todos a mesma coisa, mas continuando o pensamento anterior, a exigência excessiva faz com que eu não sinta a menor confiança em postar meus videos, pois tem gente que coloca os vídeos no sentido de se promover e acaba se queimando, na verdade e isso é reforçado pelas mesmas pessoas que fazem parte do "mundo da ópera" e que citei acima;
3) Existe um problema grande por parte dos professores também (e não falo isso me isentando dos meus erros como aluna, nem dos erros de outros alunos), pois muitos são excelentes cantores, mas como nunca estudaram pedagogia e, tampouco têm essa coisinha mágica chamada "empatia", eles não querem saber o que você tem ou passou, não querem saber se você está bem, não querem saber do aluno. Muitos só visam o status, quando o aluno é bom e querem o dinheirinho da aula, mas isso é tão mecânico... Nossa! Nem parece que lidam com arte! Arte é uma CIÊNCIA HUMANA!!! Se você está cagando e andando para o seu aluno, em algo específico da MÚSICA, logo, ARTE, com um instrumento complexo e delicado como o ser humano, por que vc é professor? Nossa! Tem uns professores maravilhosos e que amo de paixão!!! Até viro fã deles(as), mas tem outros em que você se sente um lixo e sente que nunca vai ser nada na sua vida pq nunca tá bom e eu não falo isso pra os professores chegarem "babando o ovo" dos alunos não, até pq professor baba-ovo transforma os alunos em pessoas presunçosas e arrogante e, honestamente, no mundo da Arte como um todo tá CHEIO de pessoas assim... Com o ego lá em cima... Difícil é achar uma pessoa humilde. Humildade é um diferencial que poucos artistas possuem. Mas também não é para o aluno se sentir uma merda! Como alguns professores não se importam em saber como é o aluno, tratam todos com a mesma grosseria e muitos acabam até desistindo de cantar ou acabam ficando depressivos.
Pois bem... E é aí que eu entro, pois por mais que esteja cantando há AAAAANOS e saiba que comparada a quando comecei (que sabia nada), melhorei muito, eu não me sinto confiante o suficiente para tornar público um vídeozinho sequer, cantando nem que seja a coisa mais boba do mundo de canto lírico. Tenho vontade, mas não tenho essa confiança ainda.
Me irrita também o quanto as pessoas caem no simplismo e acabam te taxando, mais uma vez, sem nem saber sua história... Sem nem saber como vc se sente... Sem saber nada... Te julgam como preguiçoso(a) pq vc não está estudando o suficiente e dizem "é só estudar". Estudar é algo meio óbvio, não? Hehehe! Qual o cantor lírico que fica famoso como sendo alguém muito bom (logo, nada de Florence Jenkins) sem estudar? Estudar não é uma escolha ou opção no canto lírico. Vc tem que estudar e acabou, mas pré-julgamentos são terríveis e vamos combinar que além do estudo, para ter sucesso, tem que ter esforço... Oportunidades... Algum dinheiro (não, necessariamente, ser rico, mas masterclasses, cursos, festivais, aulas de canto [se vc não estiver na graduação]... TUDO custa dinheiro)... QI... E aí é até muuuuito paradoxal que muitos artistas sejam contra a meritocracia, que é um discurso muito mais comum da ridícula onda conservadora que está se espalhando no mundo, mas acabam caindo nela quando se trata desse aspecto e acham que se vc não conseguiu sucesso, adivinhem só: você não estudou ou não se esforçou o suficiente! Olha que maravilha! E, mais uma vez: vocês conhecem a pessoa para saber se foi isso mesmo?
Sei que estamos num mundo quase todo Capitalista, que querem cada vez mais profissionais prontos e como tudo exige pressa, muitos acabam se mecanizando, mas o professor não pode fazer isso, nem o aluno, senão, não tem arte. Mais uma vez, não estou dizendo que o professor tem que "alisar" o aluno.
Enfim... EU escolhi essa arte, que ainda tenho muito a aprender pq é o que eu amo. Já sabia que era algo exigente, mas só depois que vc começa a estudar é que vc vê que é muuuuuuuito mais exigente do que vc pensava e quanto mais vc estuda, menos vc sabe que sabe. A questão não é "baixar o nível" e sim, baixar o ego... Ter mais empatia... E, realmente, causar uma reflexão no meio mesmo...
Só sei que já li textos de gente que acha que "a ópera (que é o que amo mesmo) é uma arte que está morrendo", mas, sinceramente, com essa atitude de um derrubando o outro por ego, não tem como fazer com que ela sobreviva.
Se vc leu até o final, muitíssimo obrigada. É um assunto muito delicado, até pq boa parte das pessoas que conheço são da área, mas eu achei que tinha que falar, tanto pro pessoal que vive me perguntando pq eu não coloco vídeos, como pra que a galera da música, em especial, do canto e da ópera reflita um pouco sobre tudo isso que falei.
Já ouvi até a imbecilidade de que "não podemos viver sem ciência, mas podemos viver sem arte/cultura". A-hã! Tá certo.
Se os homens primitivos não sentissem a necessidade de fazer as pinturas rupestres nas paredes e outras civilizações que estudamos não tivessem criado tantas outras formas de arte, JAMAIS saberíamos como era a sociedade de várias épocas, o que pensavam, como se vestiam... Como era a música... Como era a pintura... A dança... A arquitetura... Como a Arte se desenvolveu para as várias vertentes que temos hoje...
Na Grécia, os grandes filósofos eram também matemáticos, músicos, engenheiros e possuíam uma vasta gama de conhecimento em diversas árias (Pitágoras, Sócrates, Platão, etc). No Renascimento, como não lembrar de Leonardo Da Vinci e suas invenções e, mais ainda, de suas pinturas (interessante perceber que ele é muito mais conhecido por ter pintado a Mona Lisa e tantas outras obras belíssimas do que por ter criado, naquela época, os primeiros modelos de paraquedas, de tanque blindado, de roupa de mergulho submarino, entre outras invenções)? Ou de Michelângelo e suas esculturas? Da Vinci se utilizou de seus conhecimentos de matemática e ciência para elaborar suas pinturas e o Michelângelo, assim como Leonardo até dissecou cadáveres para compreender, com detalhes, a estrutura do corpo humano para poder esculpir da maneira mais detalhada possível.
Estudando o passado, podemos compreender o presente e o futuro e a Arte ajuda a fazer essa viagem histórica. Ela nos ajuda a transgredir o tempo... A nos lembrar que somos humanos... Se ela não fosse importante, não existiriam várias iniciativas para trazer alegria aos hospitais, com pessoas doentes e de arte nos hospitais, lembrando aos profissionais da saúde que eles não estão mexendo com um cadáver ou com um pedaço de carne, mas com um HUMANO, que tem uma história, uma vida, que é amado, odiado, tem suas fraquezas e fortalezas...
Se não fosse a Arte, muitas pessoas com problemas mentais estariam recebendo tratamento, por vezes, até violento e quem trouxe essa humanização através da Arte foi a psiquiatra Nise Silveira, que até já teve contato com o famoso psiquiatra e psico-terapeuta suíço Carl Jung.
Se não fosse a Arte, como vocês fariam quando quisessem se desligar, por um instante, das desgraças do mundo real? Com a TV só mostrando jornal e alguns programas aqui e acolá... Sem música... Sem dança... Sem shows... Sem exposições, nem pinacotecas... Sem poesia... Sem textos de cunho emocional... Sem cinema... Sem teatro...
A Arte não é "coisa de desocupado". Ela existe para enxergarmos o melhor nos outros... Para refletirmos... Para pensarmos... Para dizer que gostamos ou odiamos o espetáculo pq não tem o final "felizes para sempre"... Para nos identificarmos e nos conectarmos com os artistas... Para lembrar que temos alma e sem alma, somos só cascas vazias e sem sentido.
Tradução: "Sem arte, a crueldade da realidade faria o mundo insuportável"