(Daliana Medeiros Cavalcanti - 04/06/2026)
Apesar de carregar “Maria” em seu nome, mainha não tinha nada a ver com a versão estereotipada da mãe de Jesus - aquela mãe carinhosa e amável, que estava sempre distribuindo beijinhos e abraços para seus filhos… Ela era fria, séria, detestava bagunça e sujeira e gostava de dar ordens; aliás, acho que eu e minhas irmãs só somos educadas, como somos, graças à disciplina dela.
Quando descia do carro, porque tinha acabado de chegar na escola, observava as outras crianças recebendo beijos e abraços das suas mães. Algumas recebiam até selinhos (coisa que, na época, achava esquisito) e, enquanto isso, mainha nos perguntava: “estão levando todo o material? Caderno, livros, caneta, agenda? Estão levando a lancheira? Depois, não quero saber de anotação na agenda, dos professores dizendo que vocês não trouxeram o material e não quero saber de vocês reclamando de fome, porque eu ajeitei tudo direitinho, viu? Boa aula.”
Ao observar essa total diferença da relação de pais e mães com outras crianças e a minha relação e a das minhas irmãs com nossos pais, em especial, minha mãe, eu me questionava “por que mainha não é assim?”
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Memórias Maternas II
quinta-feira, 4 de junho de 2026
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Memórias Maternas I
quinta-feira, 28 de maio de 2026

(Daliana Medeiros Cavalcanti - 28/05/2026)
Ontem, eu maternei minha mãe.
Ontem, eu maternei minha mãe.
Não "ontem", no sentido literal da palavra, mas há dias anteriores, que duraram anos: primeiro, nos momentos em que a vi “sair de si”, em surto, falando coisas que não tinham sentido (princípio da esquizofrenia). Depois, a esquizofrenia despertou a demência e, em seguida, soube do diagnóstico de câncer no pulmão, já com metástase, quando ninguém desconfiava disso.
Foram anos vendo o processo contrário: quando somos mães, vemos a criança aprender a andar… A falar as primeiras palavras… Quando ela aprende coisas e conta para você, toda feliz… Quando os erros dela são fofos e engraçadinhos, porque são as primeiras experiências dela e ela está aprendendo tudo…
O curso desse rio é o oposto: vemos nossos pais mastigando de boca aberta… Não se comunicando direito porque eles sequer estão processando, direito, o que acontece na mente deles… Eles tropeçam porque os músculos e ossos estão perdendo o vigor (e qualquer queda, para um idoso, pode ser fatal)… Assistimos, de perto, os nossos pais em processo de desaprendizagem, e isso é muito difícil.
Foram anos vendo o processo contrário: quando somos mães, vemos a criança aprender a andar… A falar as primeiras palavras… Quando ela aprende coisas e conta para você, toda feliz… Quando os erros dela são fofos e engraçadinhos, porque são as primeiras experiências dela e ela está aprendendo tudo…
O curso desse rio é o oposto: vemos nossos pais mastigando de boca aberta… Não se comunicando direito porque eles sequer estão processando, direito, o que acontece na mente deles… Eles tropeçam porque os músculos e ossos estão perdendo o vigor (e qualquer queda, para um idoso, pode ser fatal)… Assistimos, de perto, os nossos pais em processo de desaprendizagem, e isso é muito difícil.
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Só, lamente tu
domingo, 12 de novembro de 2023
(Daliana Medeiros Cavalcanti – 13/11/2023)
“Uma mulher solteira incomoda muita gente
Duas mulheres solteiras incomodam, incomodam muito ma-aais...”
É, querides... Nós mulheres não temos um pingo de sossego...
Esses dias, fiquei reparando nos conselhos que algumas pessoas me deram/ainda dão e então, comecei a me questionar: por que o fato de eu estar solteira incomoda tanta gente?

Tradução: "você quer ficar sozinha para sempre? Você não quer ser feliz?"
Claro que namorar é bom e faz falta, mas estou bem e feliz, e não vivo em função disso. O que fico IMPRESSIONADA é que percebo que as pessoas se angustiam mais com a minha vida amorosa do que eu mesma! Eu, hein?
Foi pensando nisso e em outras manas solteiras, que devem ouvir os mesmos “pitacos não solicitados”, que abrangi a pergunta: “por que o fato de uma mulher estar solteira incomoda algumas pessoas?” e então, encontrei algumas respostas na própria história: desde a antiguidade, as mulheres eram preparadas para se casar.
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Carta do pai interior
quarta-feira, 30 de março de 2022
Querido(a) filho(a),
Não sou o Darth Vader, mas “eu sou seu pai”.
Não o pai que te colocou no mundo, mas o pai que veio ao mundo no momento em que você nasceu: seu pai interior.
Escrevo esta carta por observar que há muitas pessoas que não tiveram o suporte do pai exterior, estando ele vivo ou morto, e me revolta ver o comportamento desses pais. Eu sei disso porque vejo o que você vê. Escuto o que você escuta. Falo com quem você fala; e ao observar seus/suas amigos(as), percebo que muitos também não têm a sorte de ter um pai presente e/ou um pai que apoia... Muitos sequer têm um pai, afinal de contas, vivemos no Brasil: um país onde milhões de crianças são registradas sem o sobrenome paterno.
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A difícil arte de finalizar
sábado, 12 de março de 2022
(Daliana Medeiros Cavalcanti - 12/03/2022)
É difícil porque dói. Já começo assim.
Num mundo onde o cancelamento é uma cultura que está na moda, ser sensível, amar, ter consideração por alguém ou um grupo de pessoas, sentir que não existe uma reciprocidade e tomar a dura decisão de terminar sua relação, seja ela de que natureza for – amizade, relacionamento ou trabalho –, é algo muito sofrido para ambas as partes.
De um lado, você tem a pessoa que depositou a confiança em você, acreditou no seu potencial, investiu seus bens mais preciosos: o tempo e a energia de vida naquela relação e que não obteve, minimamente, um reconhecimento de tudo o que fez e do outro, uma pessoa que talvez, por estar tão acostumada com aquela que está sempre “sendo boazinha e compreensiva, arregaçando as mangas e fazendo tudo”, não tem a menor noção do porquê esse término aconteceu e sofre para entender.
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Não, queridas. Eles não nos amam...
quarta-feira, 10 de março de 2021
8 de março já passou, eu sei, mas venho refletindo sobre a importância não apenas do dia, mas do que ele representa para nós mulheres e é um dia de luta. MUITA LUTA que está longe de acabar e percebo isso pelas várias experiências machistas que passamos em nosso dia-a-dia.
As mulheres têm se reinventado e repensado suas relações amorosas, de trabalho e de estudo, mas boa parte dos homens ainda não... Poucos são os que começaram a repensar em seus papeis nas atividades domésticas (sempre vistas como "atividades femininas"), em suas relações amorosas, de trabalho, etc e é INCRÍVEL testemunhar comportamentos de reatividade desnecessária que não deveriam mais fazer parte do século XXI.
Não há nada que fragilize ou revolte mais um homem do que uma mulher com uma opinião contrária e isso acontece pq nós ainda somos vistas como objetos ou "seres inferiores".
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Mulheres, relacionamento e julgamento
quarta-feira, 6 de maio de 2020
Como eu tenho pena de nós mulheres em termos de relacionamentos... É nessas horas que vejo o quanto o Feminismo e o conhecimento de si mesma são absolutamente necessários.
Nós somos julgadas, por seja lá o que a gente escolher como relacionamento nas nossas vidas: se somos novas e solteiras, "não estamos aproveitando a vida e somos lesas demais"; se somos velhas e solteiras, "ficamos para a titia e ninguém mais vai querer"; se estamos ficando com um e outro ou traímos, "somos putas"; se somos traídas, "é porque não soubemos segurar o homem direito e não nos cuidamos mais"; se estamos num relacionamento, em especial, um casamento, "muito bem! ESSE é o correto!" e nisso, vejo muitas mulheres vivendo romances abusivos e/ou casamentos que não lhes trazem mais felicidade porque isso é o que nos foi ensinado. São poucas as mulheres que conheço que estão casadas e felizes.
É muito importante que a gente saiba o que é melhor para nós mesmas, o que nos fará felizes e ao ter essa certeza no coração (que pode ser mutável e impermanente), viver aquilo livre das convenções sociais, o que é algo extremamente difícil de fazer, porque nos é ensinado que o certo é estar com alguém e casar e o problema nem é o casamento em si, mas essa imposição de "o que é o correto e que devemos fazer". Daí, muita mulher que não está casada, se sente um fracasso e muita mulher que está casada, está insatisfeita, mas continua porque "aprendemos a ser boas, corretas e obedientes" ou por falta de independência financeira mesmo ou ameaças, o que é pior.
Não é justo, nem certo "cagar regra" de como você deve amar. Isso é algo que só NÓS podemos saber e conseguiremos isso, JUSTAMENTE, com o autoconhecimento e a luta Feminista, para romper com os padrões e assim, a mulher que quer ficar solteira, fica; a mulher que quer ficar com um e com outro, fica; a mulher que quer continuar casada, continua! É absurdo que o patriarcado seja tão grande e tão forte que atribuam, até mesmo, a loucura como uma consequência da "solteirice" da mulher, como se a vida de casada não fosse estressante e enlouquecedora, especialmente se o homem fica de braços cruzados, esperando a mulher fazer tudo!
A coisa mais difícil do mundo é definir o que é o amor, pois ele pode ser algo pra mim e outra coisa pra vc, que está lendo, mas quanto a relacionamentos amorosos, duas coisas são válidas, como o professor Leandro Karnal já mencionou: NUNCA com menores de idade e SEMPRE consensual.
Esse consenso é o respeito que vc tem por seu/sua parceiro(a) de combinar tudo e é conquistado com muito diálogo e, PRINCIPALMENTE, com a vontade e atitude de ambas as partes de que o relacionamento dê certo, pois a sua continuação depende disso.
O mais louco de tudo isso é que o autoconhecimento é um processo constante, então, até mesmo os conceitos de amor, para nós mesmas, podem mudar, ou ainda, a gente pensa que é ou será feliz de uma forma e a vida nos aponta para outro caminho COMPLETAMENTE diferente.
Se estivermos presas demais às convenções e não tivermos coragem de ultrapassá-las, nós jamais saberemos o que nos traz felicidade, mesmo que o que nos faça feliz seja, justamente, obedecer a elas e estar num casamento legal e tranquilo.
Enfim... Puxei mais para o lado de nós mulheres, numa relação heterossexual, pq sinto que sofremos mais com esse peso, mas coloque aqui o gênero e tipos de relacionamento que vcs quiserem. ^^
Beijos e #ForaBozo SEMPRE! 😆
Nós somos julgadas, por seja lá o que a gente escolher como relacionamento nas nossas vidas: se somos novas e solteiras, "não estamos aproveitando a vida e somos lesas demais"; se somos velhas e solteiras, "ficamos para a titia e ninguém mais vai querer"; se estamos ficando com um e outro ou traímos, "somos putas"; se somos traídas, "é porque não soubemos segurar o homem direito e não nos cuidamos mais"; se estamos num relacionamento, em especial, um casamento, "muito bem! ESSE é o correto!" e nisso, vejo muitas mulheres vivendo romances abusivos e/ou casamentos que não lhes trazem mais felicidade porque isso é o que nos foi ensinado. São poucas as mulheres que conheço que estão casadas e felizes.
É muito importante que a gente saiba o que é melhor para nós mesmas, o que nos fará felizes e ao ter essa certeza no coração (que pode ser mutável e impermanente), viver aquilo livre das convenções sociais, o que é algo extremamente difícil de fazer, porque nos é ensinado que o certo é estar com alguém e casar e o problema nem é o casamento em si, mas essa imposição de "o que é o correto e que devemos fazer". Daí, muita mulher que não está casada, se sente um fracasso e muita mulher que está casada, está insatisfeita, mas continua porque "aprendemos a ser boas, corretas e obedientes" ou por falta de independência financeira mesmo ou ameaças, o que é pior.
A coisa mais difícil do mundo é definir o que é o amor, pois ele pode ser algo pra mim e outra coisa pra vc, que está lendo, mas quanto a relacionamentos amorosos, duas coisas são válidas, como o professor Leandro Karnal já mencionou: NUNCA com menores de idade e SEMPRE consensual.
Esse consenso é o respeito que vc tem por seu/sua parceiro(a) de combinar tudo e é conquistado com muito diálogo e, PRINCIPALMENTE, com a vontade e atitude de ambas as partes de que o relacionamento dê certo, pois a sua continuação depende disso.
O mais louco de tudo isso é que o autoconhecimento é um processo constante, então, até mesmo os conceitos de amor, para nós mesmas, podem mudar, ou ainda, a gente pensa que é ou será feliz de uma forma e a vida nos aponta para outro caminho COMPLETAMENTE diferente.
Se estivermos presas demais às convenções e não tivermos coragem de ultrapassá-las, nós jamais saberemos o que nos traz felicidade, mesmo que o que nos faça feliz seja, justamente, obedecer a elas e estar num casamento legal e tranquilo.
Enfim... Puxei mais para o lado de nós mulheres, numa relação heterossexual, pq sinto que sofremos mais com esse peso, mas coloque aqui o gênero e tipos de relacionamento que vcs quiserem. ^^
Beijos e #ForaBozo SEMPRE! 😆
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Rosinha e Azulão: dois pesos, duas medidas
sábado, 25 de janeiro de 2020
Rosinha, sempre “inha”, é menina e aprendeu, desde cedo, a sonhar com o casamento: suas brincadeiras de comidinha e de boneca já indicavam o quanto ela seria a esposa ideal, bela, recatada e do lar, boa mãe, gentil e muito bem-educada e os contos de fadas a ajudavam a sonhar com o príncipe encantado, quando crescesse. A figura masculina aparecia em suas brincadeiras como marido e pai amoroso.
Azulão, sempre “ão”, é menino aprendeu a lutar pelo o que quer: seus brinquedos de armas brancas e de fogo, bonecos de robôs que se transformam em carros e de heróis musculosos já mostravam o ideal o tipo de homem que ele deveria ser – forte, destemido, desbravador, lógico e racional. A figura feminina só aparecia em suas brincadeiras porque eles tinham que “salvar a moça em perigo”.
Rosinha cresce e na sua adolescência, ouve muitos conselhos de “não dar no primeiro encontro”, não se tocar e conhecer o seu próprio corpo porque é feio... A preservar sua virgindade o máximo possível, pois castidade é sinônimo de pureza e é muito importante que a mulher se mantenha pura. Ela ouve até, dos parentes mais velhos e conservadores, a só ter suas primeiras relações sexuais depois do casamento, porque “é o que uma moça direita faz. Ela tem que zelar pela sua própria honra. Tem que se dar valor e tomar cuidado porque os homens só pensam naquilo.” Ela também aprende que sua prima Amarelinha é uma puta, comportamento digno de reprovação, pois ela já tem 16 anos e não é mais virgem, já ficou com uns meninos e ser puta é uma das piores coisas e uma das maiores ofensas a uma mulher.
Azulão cresce e na sua adolescência, ouve dos pais “prendam suas cabritas porque meu bode está solto.” Aprende que ele tem que explorar e viver sua sexualidade o máximo possível e que o que vale mais é a quantidade de meninas que “já pegou” porque “quanto mais experiências, melhor”. Quanto mais cedo perder a virgindade, melhor, pois um homem mais velho e virgem é motivo de piadas. Alguns parentes mais velhos e mais conservadores estimulam que ele vá para um cabaré e tenha sua primeira vez com uma prostituta, pois quanto mais rápido perder essa virgindade, melhor. Ele também aprende que seu primo Verdão passou a ser chamado de Verdinho porque já tinha 16 anos e não pegou ninguém ainda. Por causa disso, ele é tratado como um grande bobo e que ser comparado a algo feminino (florzinha, menininha, bonequinha, etc) são as maiores ofensas a um homem.
Até que, aos 20 anos, Rosinha e Azulão se conhecem e se apaixonam...
Rosinha, encantada com Azulão, tão belo e forte, se pergunta se seria esse, finalmente, o príncipe encantado que ela tanto sonhou em conhecer, desde a infância. O homem com quem ela poderia casar, ter filhos e, como num conto de fadas, “viver feliz para sempre.” Ela sonha com um futuro ao seu lado.
Azulão, encantado com Rosinha, tão bela e meiga, se pergunta como ela será na cama e se imagina fazendo amor com ela todos os dias. Ele não pensa muito no futuro e sim, no que ele quer fazer com ela em breve.
Ela e ele têm a primeira noite de amor juntos.
Ele percebe a pouca experiência que ela tinha e ao ela confirmar isso, ele se sente empoderado, porque estava ficando com uma mulher “pouco rodada”, mas acha o sexo razoável. Como ela é uma moça muito legal e ele estava gostando dela, com um pouco de paciência, ela iria aprendendo mais e eles iriam se acertando.
Ela nem sequer se questiona se ele já teve muitas mulheres antes, pois isso não é muito importante para ela, mas por ter poucas experiências sexuais e por ter ficado com poucos homens que se importam com o prazer feminino, ela considera aquele momento mágico e lindo e, cada vez mais, vai tendo a certeza de que ele é o homem da vida dela.
Eles namoram por dois anos e a ideia de casamento já passa pela cabeça de Rosinha, que já dá algumas indiretas para seu namorado. A família também a pressiona, dizendo que ela “já está numa idade boa para casar” e alerta que se case logo, senão, “vai ficar pra titia.”
Azulão desvia do assunto e começa a dizer o quanto o namoro deles “estava bom como estava” e que não havia a necessidade de se casar. A família e amigos dele sugerem que ele “pule fora”, que ele vai se acorrentar e perder toda a liberdade.
Azulão começa a agir de forma mais esquiva, com medo da ideia de se casar, mesmo tendo sentimentos por ela e mesmo que o sexo deles esteja ótimo. O medo de perder a liberdade o invade e ele passa a procurar outras mulheres, pois já estava com ela há tempo demais e “é sempre bom dar uma variada, né?”
Rosinha estranha a atitude do parceiro, mas ela pensa que com insistência e com a força do amor, ela iria convencê-lo de que era a coisa certa a se fazer e que um dia, ele olharia para ela e reconheceria, também que ela é a mulher da vida dele. “O meu amor vai mudar a cabeça dele.”
Rosinha tanto insiste que consegue e eles se casam. É “o dia de Rosinha”: o casamento perfeito, na igreja perfeita, com as flores perfeitas, com o vestido perfeito e a maquiagem perfeita... Tudo como ela havia planejado.
Azulão olha em torno dele como se fosse um alienígena, colocando os pés na Terra pela primeira vez e não tem nem ideia de todo o trabalho que Rosinha teve de planejar tudo aquilo, mas sabia que a cerimônia custou caro e nossa... Como ela estava radiante e deslumbrante naquela noite!
Depois de todas as festividades, a tão sonhada lua-de-mel, em outro lugar, regada a muito amor. Foram momentos únicos na vida do casal.
Após a lua-de-mel, finalmente, vem o casamento de fato, como ele é: a convivência, onde vemos todas as virtudes e defeitos da(o) outra(o). Todas as manias e enxergamos a(o) outra(o) tal como ela(e) é.
Azulão não conseguia entender porque Rosinha vivia reclamando e achou que ela mudou muitos depois do casamento e pra pior: não se cuidava mais... Estava sempre estressada... Não era mais a mulher sorridente e meiga com quem ele se casou...
Rosinha não conseguia acreditar que seu príncipe havia se transformado num sapo. “Ou será que ele sempre foi um sapo e eu nunca percebi? Ou será que eu o transformei num príncipe, sob meu olhar apaixonado?” De fato, ela havia mudado, pois ela não tinha tantas obrigações assim quando era mais nova. Ela não só tinha o seu trabalho numa empresa, como tinha que limpar a casa, cozinhar, etc e ele não ajudava, sequer, lavando o próprio copo, onde bebeu água.
Ele está infeliz no casamento, dorme com outras mulheres, mas não pensa em se separar...
Ela está infeliz no casamento, mas mantém a fidelidade e quando descobre que é traída, desde antes do casamento, já começa a falar em divórcio...
Rosinha já teve a oportunidade de beijar e dormir com homens que lhe ofereceram carinho, durante o casamento, mas negou, mesmo infeliz, porque é importante, para uma mulher, agir corretamente e com honra. Se ficasse com um outro homem, não se sentiria em paz consigo mesma e se descobrissem, provavelmente, seria chamada de ”puta”, aquele adjetivo abominável que aprendeu desde criança.
Azulão já teve a oportunidade de beijar e dormir com mulheres que lhe ofereceram carinho, durante o casamento, mas recusou algumas oportunidades apenas, porque é importante, para um homem, mostrar o quanto é homem, ficando com várias mulheres e demonstrando energia sexual intensa. Se recusasse e descobrissem, seria chamado de “viadinho”, entre outros adjetivos femininos terríveis que aprendeu desde criança.
Ela agiu conforme aprendeu a agir desde criança... Ele também...
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Estudos revelam que o casamento é mais benéfico para o homem do que para a mulher (https://oglobo.globo.com/sociedade/casamento-mais-benefico-para-homens-do-que-para-mulheres-revela-estudo-16425195).
No Brasil, as pessoas vêm se casando menos e se divorciando mais. Em 2018, foram registrados 385.246 divórcios (https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/12/04/numero-de-casamentos-cai-16-e-divorcios-aumentam-32-entre-2017-e-2018.htm ).
5,5 milhões de brasileiros não possuem o sobrenome do pai na certidão de nascimento (https://exame.abril.com.br/brasil/brasil-tem-5-5-milhoes-de-criancas-sem-pai-no-registro/ ).
As meninas ainda fazem mais atividades domésticas do que os meninos e é um dos motivos delas receberem menores salários quando crescem (https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/08/meninas-fazem-mais-tarefas-em-casa-do-que-meninos-mas-ganham-mesadas-menores.shtml ).
Todas essas narrativas têm um fator em comum: o de gênero.
Desde cedo, aprendemos que “mulher é assim” e “homem é assado” e ninguém para se questionar como isso foi definido e a quem isso beneficia. Apenas aceitam e naturalizam algo, com a frase conformista de “sempre foi assim” quando, na verdade, se trata de construções sociais.
É por isso que a Simone de Beauvoir diz que “não se nasce mulher. Torna-se” e, de fato, ninguém nasce já gostando da cor rosa, a querer ser como uma princesa e tudo o mais. Tudo isso vai sendo ensinado e mesma coisa para os meninos, logo, é possível dizer que a educação sexual já existe – se molda meninas e meninos para falar e agir de um jeito e gostar de uma cor específica.
Quando alguém fala de “ideologia de gênero”, além de estar falando uma besteira sem tamanho (pois está se baseando numa fake news), está colaborando para que essas formas, que já são ensinadas, se perpetuem e temos que ensinar nossos meninos a também cuidarem dos afazeres domésticos, a serem carinhosos e a serem bons pais e temos que ensinar as nossas meninas a amarem e conhecerem o próprio corpo, a escolherem aquilo que ela quer ser e a serem independentes nos relacionamentos amorosos.
É só a partir dessa educação que teremos pessoas mais conscientes e colaborativas para um casamento saudável, para um casal que divide responsabilidades em casa e pais amorosos, que compartilham os cuidados com os filhos. Por isso que a educação sexual é importante, além de descontruir conceitos bobos de que se um menino tem comportamento afeminado, ele deve ser diminuído ou odiado e se uma menina tiver comportamento masculinizado, também. A violência que LGBTs sofrem vem da infância e/ou adolescência. 73% de jovens LGBTs sobrem bullying na escola (https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/2017/10/73-dos-jovens-lgbts-da-america-latina-sofrem-bullying-nas-escolas-revela-pesquisa )
É por tudo isso que precisamos de educação sexual: para que narrativas como essa fiquem no passado e sejam tão chocantes, absurdas e esquisitas, para as próximas gerações, quanto relatos de tipo: “você acredita que nos Estados Unidos, houve uma época em que os negros sentavam atrás nos ônibus e que era tudo separado para negros e brancos? E tudo para os negros era ruim ou de baixa qualidade e tudo para os brancos era melhor. Já pensou? Só porque são negros?!? Quanta ignorância do povo na época, né?”
Obs.: sei que existem exceções, mas esses são os moldes e clichês que ensinam para a gente e que, infelizmente, ainda são muito seguidos hoje. Não seria melhor se não houvessem estereótipos e se cada um construísse a sua própria forma de ser e de ser feliz, sempre respeitando (a)o outra(o)?
(Daliana Medeiros Cavalcanti - 25/01/2020)
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Carta a La Loba
sábado, 1 de junho de 2019
Prezada Loba,
Por que é sempre tão solitária e muda?
Por que se esconde?
É como se sempre estivesse presente, mas, apenas algumas vezes, revelasse a sua voz, por meio do canto lírico, como o canto de uma sereia, doce e poderoso, que ecoa à distância. Você revela a sua presença por meio de cantos e gemidos.
Será que é isso? Será que você é meu coração e o ar de meus pulmões, que inspiram, expiram e bombeia vida?
Eu te sinto no prazer... No prazer de criar... Fazer arte e criar amor...
Te sinto na reflexão e nas respostas sábias, como uma velha que diz, docemente e com sua voz enrugada de avó: "respire e relaxe. Dói, mas já passei por isso e sei que vai passar."
Se é assim, por que se cala diante da dor?
Onde você esteve em todo esse vale de lágrimas que percorri e derramei por pessoas que acham que te entendem, mas não entendem? Nem eu te entendo e, ao mesmo tempo, sim.
Estou confusa.
Será que, às vezes, não te sinto porque somos uma só e ou estamos muito conectadas, a ponto de não nos diferenciarmos mais ou muito desconectadas, pelas modernidades e intelectualizações que fazem parte da vida?
Sinto que ambas as coisas estão corretas e, às vezes, é difícil dar forma à dicotomia... Ao paradoxo... Ao contraste e ao controverso... Mesmo que essa forma seja feita de palavras...
Talvez seja por isso que seja água: você se molda de acordo com o meio em que é inserida e talvez por isso, seja tão difícil te definir...
Sei que te busco, mesmo sem bússola, nem rumo...
Uma rosa-dos-ventos, da água, do fogo e da terra, que paira no limbo do meu eu...
É presente, passado e futuro, longínquos ou no atual momento, que já ficou obsoleto, pois já escrevi e a cada palavra que escrevo, registro um passado recente e a cada palavra que penso em escrever, me pergunto "o que mais eu vou inventar? O que mais preciso te/nos dizer?"
Sei que te escrever me dá alívio... O alívio de parir...
Loba solitária, forte, presente, solidária, meiga e guerreira, te venero e admiro e anseio me apropriar de ti, cada vez mais, e de teu poder, pois somos uma só e te buscar, te encontrar, te acolher e te perceber são missões para a vida inteira e o alcance desse inteiro é um meio que essa vida fracionada faz para se completar.
(Daliana Medeiros Cavalcanti - 01/06/2019)
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Reflexões sobre a Chacina de Campinas
sábado, 7 de janeiro de 2017
Muitas pessoas estão fazendo comentários absurdos sobre o assassinato de toda aquela família. Absolutamente nada pode justificar aquilo e quando muitos homens se comovem com a carta que ele deixou, é preocupante... Principalmente porque uma das intenções dele e que ele deixou clara na carta é incentivar que os homens se vinguem de suas ex-companheiras, a quem ele chama, pejorativamente, de "vadias". E queridos leitores, um alerta: se você conhece alguém que se comoveu a ponto de tomar as dores do assassino e está esbravejando contra as mulheres ou comentando coisas absurdas, recomende que essa pessoa faça uma terapia e procure um psiquiatra/psicólogo. É sério. Se você não conhece, DENUNCIE!!! Discurso de ódio não é opinião!
Comentarei pouco, pois existe uma notícia, dissecando item por item da carta do assassino, muito bem escrita pela Carol Patrocínio aqui. Farei só mais alguns apontamentos que vi e não reproduzirei o conteúdo da carta dele, colando o que ele escreveu. Falarei "por cima", uma vez que a Carol já comenta cada item e por uma questão ética. Conversei com umas amigas e existem dois pesos e duas medidas ao divulgar uma carta como essa:
- Pode incentivar assassinos e psicopatas a fazerem o mesmo que ele fez e ele conta, na própria carta, que é exatamente isso o que ele quer;
- Pode causar a reflexão por parte das pessoas que escrevem e compartilham pensamentos preconceituosos na internet, que se consideram de "extrema-direita".
2016 foi um ano de muitos crimes chocantes e um ano chocante também para a política e me assusta que as pessoas estejam misturando tanto as coisas.
Ser de direita não é um problema. Ser de extrema-direita é. Extrema esquerda também, pois nada extremo é bom, entretanto, eu ainda não conheci nenhuma pessoa de extrema esquerda. Conheci pessoas que possam ter opiniões extremas sobre alguns assuntos como o feminismo, por exemplo, mas não conheci nenhum "extrema esquerda" defendendo o Socialismo ou o Comunismo e propondo "revoluções armadas" com violência para mudar o sistema e tudo o mais... A maior diferença que vejo entre esquerda e direita (divisões que detesto, por sinal, pois não estamos mais na Guerra Fria, entretanto, como as próprias pessoas se definem assim, fica difícil não usar esses termos) é que a esquerda está mais aberta ao diálogo.
Pessoas de extrema direita, em especial, justificam seus comportamentos utilizando o "conservadorismo" como desculpa, mas ser conservador e ser preconceituoso são coisas bem diferentes e é por isso que devemos ter cuidado com essas pessoas que se dizem "conservadoras".
- Dali, mas o que diabos esse assunto tem a ver com a chacina?
Infelizmente, o conteúdo contido naquela carta tem muito a ver com o que esses "conservadores" compartilham nas redes sociais e isso é preocupante demais, pois são eles, justamente, os que estão se compadecendo com o assassino.
Na carta, ele culpa a Dilma e a chama de vadia (oi? O que diabos a Dilma tem a ver com isso? Será possível que até nisso ela é culpada? Ele deve seguir a filosofia do Homer Simpson, que diz "a culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser") e chama a lei que protege a mulher da violência de "Vadia da Penha".
Ora... Se a lei tivesse funcionado plenamente, a mulher teria o mínimo de proteção policial contra um monstro desses. O problema é que, muitas vezes, os próprios policiais, na sua maioria, homens, acham que "as mulheres estão exagerando" ao fazerem suas denúncias. Um caso como esse pedia proteção policial, pois ele já havia sido denunciado seis vezes!
Esses casos de mulheres agredidas que ficam sem proteção policial são muito mais comuns do que se imagina. No filme "A Informante" com a Rachel Weissz mostra a história de uma policial americana, que resolveu trabalhar na ONU, na parte da Europa Oriental e ao perceber os casos de violência contra a mulher, ela levava aos policiais locais, mas como ela era a única mulher, eles faziam pouco caso. Depois é que ela descobre que a violência contra a mulher era uma "pequena parte" do horror que muitas mulheres daquela região sofria, pois descobre uma Rede de Tráfico de Pessoas, com membros da própria ONU, que deveria proteger essas vítimas. Esse filme é baseado em fatos reais e tem cenas incrivelmente chocantes. Vejam o trailer aqui.
Infelizmente, acontece sim de existir uma lei para proteger vítimas ou garantir direitos e as pessoas tomarem proveito disso. Isso existe, mas quando o cara é denunciado seis vezes antes de cometer o crime, ele não era inocente e as medidas que a mulher tomou para sua proteção e para proteção de seu filho foram corretas. O município e a polícia que não garantiram melhor a segurança dela.
Aliás, inocência por inocência, todos alegam ser. É até curioso que as pessoas acreditem na carta dele e não se questionem isso.
Um dos assassinos do vendedor ambulante que protegeu dois travestis, que seriam agredidos se não fosse a ação corajosa dele, alegou que "não era uma má pessoa". Na carta, ele diz que não é louco... Se eles são pessoas boas e sãs, o que dirá das "más" e doidas, né?
Outras coisas extremamente incoerentes que ele faz e que pode indicar alguma insanidade mental é que ele se refere sempre ao filho como se soubesse a opinião dele, mas quem é que sabe se o menino realmente chorava por não estar com o pai ou que pensava tudo o que ele achava que o menino pensava? Muitas pessoas julgam saber o que outras pessoas sabem, pensam e são, mas, muitas vezes, isso não corresponde à realidade. Não precisa nem ser louco para isso, na verdade... Quantas e quantas vezes nós não nos apaixonamos por alguém e achamos que a pessoa goste das mesmas coisas que nós...? E que elas digam, exatamente, o que queremos ouvir...? Ou até o contrário: tem uma pessoa que vc detesta, espera tudo de ruim e depois, ela se surpreende e fala algo que você gosta...? A enorme incoerência da carta é que ele escreve um diálogo com o filho, como se o filho fosse ler a carta, mas ele também mata o próprio filho... Então, como é isso...? Ele achou que o filho "ia ler quando estivesse no céu..."?
Essa chacina, sem dúvida, foi um episódio muito, muito triste e com muito a se pensar e a se discutir.
Um outro tema muito interessante e importante para se conversar é a chamada "alienação parental".
Já existem leis que proíbem essa alienação, entretanto, acho que vale a pena uma maior investigação e apuração da situação de cada família.
A criança de pais separados, com certeza, não pode deixar de ver uma das partes, mas alguns casos muito comuns e que vi acontecendo com amigas queridas são de pais que se aproveitam disso para envenenar a cabeça da criança contra o outro genitor. Isso é muito cruel e é terrível para formação da criança! Acabam descontando a revolta da separação nos filhos inocentes, que nada têm a ver com a história e vi isso acontecendo mais dos homens, envenenando os filhos contra as mães do que o contrário, mas sei, perfeitamente, que o contrário também acontece.
Mais uma vez, não creio que tenha sido o caso, pois ele foi denunciado seis vezes. Ela estava protegendo a criança de um pai louco, abusador e violento.
Relendo o capítulo no "Livro do Amor" sobre a Grécia Antiga, me deparo com trechos muito interessantes, pois a autora, além de historiadora, também é psicóloga e são trechos que explicam um pouco do comportamento de pessoas violentas e que foram rejeitadas.
Há diferença entre violência reativa e violência vingativa, ou seja, entre o ato passional de alguém que mata num acesso de ciúmes, violência e loucura, e o ato planejado detalhadamente por quem foi rejeitado. Neste caso, o único objetivo é causar o máximo de sofrimento à pessoa — ou às pessoas — responsável por sua infelicidade.Bom... Acho que nem preciso dizer que no caso da chacina, estamos tratando da violência vingativa, pois ele planejou o ato e a carta conta que o crime foi premeditado. Ele só aguardava o momento certo.
Para a escritora uruguaia Carmen Posadas o ato do amante passional que mata o ser amado que o abandona ou prefere outra pessoa é a consequência da frustração de seu desejo de posse. A pessoa não suporta mais seus sofrimentos e sente que sua única possibilidade de salvação é cortar o problema pela raiz. Entretanto, a dinâmica da violência vingativa é outra. O amante quer resolver uma questão que considera pendente; não quer evitar o mal que o ameaça, mas “anular magicamente” aquilo que na realidade já aconteceu. Delicia-se imaginando mil vezes o castigo que infligirá ao ser amado ou ao rival que o roubou, inventando roteiros de terror continuamente aperfeiçoados. O que move a vingança é o ódio, fruto da rejeição. O amante rejeitado acredita que ninguém o amará, nunca mais. Odeia a si mesmo e à pessoa que nele provocou esses sentimentos. Como o ódio não tem o poder de refazer o passado, ele confia à vingança futura.Não duvido que ele tenha se deliciado ao imaginar todas as mortes e estragos que ele causou. Tanto que ele quis "adiar o prazer para mais tarde". Ele ia matar a todos no Natal, mas adiou para o Reveillon.
Depois do crime, o criminoso passional não costuma fugir. Alguns se suicidam, morrendo na certeza de que o ser amado não pertencerá a mais ninguém.Pode ter sido uma das motivações dele, quem sabe? E não apenas em relação ao filho, mas à própria ex-mulher.
A morte física é a continuação da morte psíquica provocada pelo abandono. Quanto mais violento o ato suicida, mais evidente é o desejo de desforra. “A mulher rejeitada desliga a máquina social da aparência que mantinha viva e escolhe a autoeutanásia para jogar na cara de seu companheiro mal-agradecido o quanto o amou e o quanto sofreu por sua culpa. O desejo de desforra é o pano de fundo mais comum do ato suicida. Ferida, a vítima fraudada da paixão deseja que quem a abandonou nunca se esqueça do terrível mal que lhe causou.”Quanto ao suicídio dele, esse trecho nos mostra sim um desejo de desforra... De compensação por "todo mal e sofrimento que ela causou nele", entretanto, ele já a matou antes que ela pudesse se arrepender, mas, no meu entendimento, a motivação por trás disso é muito mais sinistra, pois ele convocou os homens que se sentissem injustiçados pela Maria da Penha a fazer o mesmo, então, a intenção pode ser causar arrependimento nas mulheres que precisaram da lei para se proteger... A ideia mesmo era espalhar o terror entre nós mulheres, pois nós lemos a carta...
Outro aspecto interessante e que a própria Carol, em seu texto sobre a carta dele, trata, é que a ex-mulher é sempre tratada como "vadia" e a nova namorada como "anjo", mas antes de tudo isso acontecer, houve um período em que ele considerava a ex-esposa um anjo. Claro que sim! Caso contrário, como é que ele teria se casado com ela e tido um filho? Mas poucas pessoas param para pensar que se ele não tivesse se matado, talvez o atual "anjo" dele pudesse se transformar numa "vadia", afinal, quais os requisitos para um "título" ou outro? O "anjo" é aquele que faz tudo o que ele espera que faça e a "vadia", tudo o que ele espera que não faça? Se for assim, infelizmente, o mundo está cheio de "vadias", pois ninguém tem o poder de ler mentes para saber o roteiro que você escreveu para elas. Mesmo as pessoas que você mais ama, poderão discordar de você algum dia e isso não é ruim. Isso pode te acrescentar alguma coisa.
E discordar seria "o menor e mais bobo dos casos", mas é comum estarmos felizes com alguém que amamos e, de repente, a pessoa se dá conta de que você não é a "pessoa da vida dela" ou, simplesmente, que ela não te ama mais. Você também pode ser essa pessoa. É triste, é doloroso, é muito sofrimento, mas pode acontecer. É a questão do "aceita que dói menos".
Também não foi o caso, pois ela se afastou dele por causa do comportamento violento, mas se fosse isso, também não justificaria a chacina. Aliás, nada justifica, pois matar nunca foi e nunca será solução para nada.
A morte é a única certeza que nós temos na vida, mas abreviar a vida de alguém ou a sua própria por ódio é mostrar ao mundo que você jamais deveria ter vivido...
Boa noite...
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Dali
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Sementes da misoginia - impressões sobre o Amor durante a Grécia Antiga
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
Esse livro é de 2012 e é dividido em dois volumes: o primeiro, que é o que estou lendo no momento, retrata o amor desde a Pré-História até a época do Renascimento e o segundo vai do Iluminismo até a atualidade.
Esta minha pesquisa que antes, era mais voltada para a área acadêmica, está se tornando cada vez mais pessoal. É de minha própria vontade e interesse saber mais sobre como eram as relações humanas desde a antiguidade e saber como elas se transformaram nas relações que vemos hoje e confesso estar muito impressionada com o quanto a sociedade grega nos marcou profundamente.
Confesso que esse capítulo foi muito difícil de fichar e tirar poucos trechos como referências, pois boa parte do que ele fala é interessante e mostra o quanto ainda carregamos muitos dos ideais gregos nos dias de hoje.
Panorama
Como o livro trata apenas a sociedade ocidental, podemos observar, de um capítulo para o outro, o enorme avanço da civilização, com criação de leis... Classes... Toda uma estrutura social que foi organizada a partir desta época e, com isso, vêm algumas diferenças nos relacionamentos.
É quase impossível falar de relacionamentos sem mencionar os papeis de homens e mulheres dentro desta sociedade.
Durante o período Homérico, a rigidez moral não era tão grande quanto foi no período Clássico, especialmente, em Atenas. No casamento, as mulheres do período homérico ainda gozavam de relativa igualdade de direitos e exerciam influência nos homens. Além disso, as mulheres tinham mais funções e participações ativas na casa, cuidando dos doentes, fornecendo roupas para seus maridos, preparavam os alimentos, cuidavam dos filhos e das terras na ausência dos guerreiros...
A união de Ulisses e Penélope eram um exemplo de casal harmonioso, o que era bem raro na literatura da época.
É muito interessante verificar que a questão da "mulher ideal" e da "mulher maldita" existir desde esse período.
“No mundo greco-romano, Penélope e Helena representaram os exemplos de esposa boa e má, respectivamente, uma oposição que os cristãos atribuiriam mais tarde a Eva e à Virgem Maria.”
É interessante perceber, ainda, que essa distinção entre as mulheres esteja ainda tão ressaltada, principalmente nos comentários machistas, quando ouvimos que "uma mulher é para casar e outra é para pegar".
Durante a Grécia Clássica, conforme o enriquecimento dos gregos, foram necessitando menos das mulheres como esposas, pois tinham escravos para prover as roupas e cuidar das terras, deixando as esposas com uma função quase inútil e com isso, os homens passaram a desvalorizar suas mulheres e tinham pouco contato com elas.
Os homens possuíam uma enorme liberdade sexual, tanto que consideravam o casamento como algo dispendioso e uma barreira à sua liberdade. Dentre suas possibilidades de prazer, haviam as concubinas, as hetaíras, as prostitutas e os efebos.
Fiquei, particularmente intrigada com as hetaíras e os efebos, que eram os objetos de afeição maiores entre os homens da época.
Às esposas, eram negado tudo! Educação, filosofia, combate, política... Portanto, os homens consideravam as mulheres como burras. Como a elas não era permitida a liberdade sexual que eles tinham, muitas se queixavam de que eles não lhes davam prazer e por isso, eles achavam que as mulheres eram muito maliciosas. É curioso e chocante ler que existia uma lei e que essa era uma das poucas que davam algum direito às mulheres, que o homem poderia fazer sexo com sua esposa 3 vezes durante o mês.
As hetaíras, mesmo sendo cortesãs de classe, já possuíam instrução para falar de todos os assuntos que seriam negados às esposas e era por causa do conhecimento, liberdade e beleza delas que os homens ficavam fascinados. Seria cômico se não fosse trágico.
Por falar em "cômico e trágico", as esposas tinham o direito de ir ao teatro, mas elas só poderiam assistir tragédia. Espetáculos cômicos não eram "dignos" para elas.
Já os efebos eram adolescentes que eram aceitos como aprendizes, mas por quem os homens desenvolviam um relacionamento homossexual, que era super-comum na época. Eles eram tutores desses rapazes e os treinavam na arte da guerra, oratória, filosofia, etc desde os 12 anos até os 18. Aos 19 anos, o rapaz já era considerado um homem "dono de si" e podia, ele mesmo, adquirir seus efebos.
É interessante que essa é uma característica que não se perpetuou no mundo hoje. A homossexualidade começou a ser perseguida nos séculos XII e XIII e foi vista doença no século XIV. Após a criação dos anti-concepcionais, nos anos 60, é que os homossexuais começaram a ser mais respeitados e a conviver com os heterossexuais com relativa paz, entretanto, ainda hoje, os homossexuais são as minorias que mais sofrem com o ódio e agressão verbal, psicológica e física hoje.
Como as mulheres viam seus maridos e tinham prazer com eles poucas vezes, era muito comum que elas recorressem ao uso de consolos, que tivessem serviços de alcoviteiras e/ou tivessem relações com outras mulheres, entretanto, o relacionamento entre mulheres era ridicularizado, afinal, eles nem sequem consideravam as mulheres como pessoas.
Um dos casos mais famosos de romance entre mulheres foi na Ilha de Lesbos, quando a poetisa Safo se apaixonada por suas alunas e escrevia muitas poesias, declarando seu sentimento por elas. Certa vez, uma de suas alunas ia se casar com um homem e apaixonada e enciumada, Safo escreve:
Safo tinha certo prestígio entre os gregos e, portanto, seu poema é referência, na Medicina, para diagnosticar os sintomas da paixão.
Outra prática que hoje, não é bem vista e hoje, deve ser combadita é a da pedofilia. Era perfeitamente normal, na época, um homem adulto possuir efebos dos 12 anos de idade e eles não só tinham essa relação de ensino-aprendizagem, como desenvolviam um relacionamento amoroso um pelo outro, com relações sexuais, obviamente. Existem textos e poesias com verdadeiras declarações de amor dos homens a seus efebos, exaltando sua beleza e masculinidade.
Haviam casos, entretanto, em que os próprios maridos ofereciam suas esposas aos convidados da casa ou se outros homens pedissem permissão, caso se interessasse em suas esposas. Eles a tratavam como um objeto de suas possem e poderiam oferecê-las a quem quisessem.
Na Grécia Clássica, estar com hetaíras, concubinas, prostitutas e efebos não era visto como traição. A única coisa que não era permitida era estar com uma mulher casada, entretanto, existem casos registrados de homens que se relacionavam, em segredo, com mulheres casadas.
Nesses casos secretos, se o homem descobrisse, ele teria o direito de matar o homem que se relaciona com sua esposa para lavar sua honra. Honra era algo extremamente importante para o homem grego e traição era uma desonra grave.
Muitas vezes, os homens resolviam "perdoar" as traições para não ter que devolver o dote às famílias das mulheres, principalmente se ele significasse uma enorme perda de dinheiro. Ele aceitava o arrependimento da esposa, mas caso não fosse o suficiente, ele teria que separar-se dela e devolvê-la para lavar sua honra.
As mulheres adúlteras eram muito mal-vistas. Se elas saíssem para assistir algum sacrifício público e outras pessoas a vissem, o primeiro homem que a visse poderiam arrancar-lhes as roupas e enfeites e açoitá-la, mas não podia mutilá-la ou matá-la.
Veja o que diz esse trecho quanto ao direito das mulheres de alegarem que os maridos eram adúlteros e pedidos de divórcio:
Os casamentos eram arranjados por homens, negociando terras e a mulher não tinha participação nenhuma. Eles desconheciam totalmente a relação entre casamento e amor, estando esse sentimento, da forma como conhecemos hoje, reservado apenas às hetaíras e efebos.
Pouco se sabe sobre os sentimentos das mulheres, pois os textos literários eram escritos por homens e para homens, logo, eles que descreviam como eles achavam que elas sentiam, mas acredita-se que havia uma mistura de amor e ódio por seus senhores, afinal de contas, elas só lhes davam os filhos que eles queriam e cuidavam da casa. É interessante ler que alguns poucos homens escreviam contos sobre esposas que se revoltavam com a forma como eram tratadas e assassinavam e se vingavam de seus maridos e seus parceiros sexuais, Os homens passaram a temer suas esposas, mas isso não parece ter feito com que eles as respeitassem mais ou mudassem seus comportamentos com elas.
Os homens gregos não viam o amor como "meta de vida" e sim, como um prazer... Uma diversão e amar alguém era um dilema para ele, especialmente, uma mulher, pois ou o amor era visto como um exercício prazeiroso para o corpo ou como um tormento causado pelos deuses para vê-lo sofrer até levá-lo à ruína.
Considerações
Nossa! Foi tanta informação apenas nesse capítulo que também está difícil tecer poucas considerações. Hehehe!
Muito bom conhecer a origem de várias palavras e expressões e se dar conta do quanto essa cultura influenciou de fato.
O termo "erótico" vem do deus "Eros", mais tarde, sendo conhecido como o "cupido"... "Afrodisíaco" seria uma referência à deusa "Afrodite"... A palavra "lésbica" tem origem nos romances entre mulheres que aconteciam na Ilha de Lesbos... "Andrógino" tmb tem uma história muito interessante por trás, contada por Platão...
Também confesso ter ficado surpresa ao ler que os brinquedos sexuais, tais como os conhecidos vibradores, tiveram origem, também, na Grécia Antiga. Não se lê isso nos livros de História. Hehe!
E é chocante o quanto vemos pensamentos machistas e misóginos se repetindo através do tempo... Até hoje, vemos homens que consideram que as mulheres são inferiores... Que são burras... Mulheres que aprendem, desde cedo, que a "missão dela" é cuidar da casa, procurar um marido, casar e ter filhos e muitas não buscam o conhecimento ou têm acesso a ele por aceitarem sua condição ou por ignorância mesmo... Chocante ver que ainda existem homens que mesmo com a sociedade tendo mudado bastante e estando com leis mais desenvolvidas, comportam-se como os homens gregos, se casando, mas tendo várias experiências sexuais fora do casamento (só que agora, é considerado traição sim e as mulheres têm direito à pensão alimentícia para os filhos, por exemplo)... Chocante ver como a misoginia se perpetua e como tem homens que ainda sentem essa necessidade de lavar sua honra com sangue se as mulheres se separam deles ou se são traídos...
Dói ver o quanto aquelas mulheres não tinham direito à quase nada e o quanto a vida delas era terrível. Inclusive, o infanticídio era muito comum. Os casais tinham preferência por terem filhos homens, pois se tivessem filhas, quando crescessem, teriam que se casar e isso constitui em repasse de dote ao marido. Em outras palavras, uma filha significava prejuízo aos pais gregos. Ou eles as matavam ou as abandonavam. Também era comum haver infanticídio quanto haviam muitas baixam na guerra. Eles matavam as meninas para equilibrar o número de meninas e meninos.
É curioso ver, também, as diferenças. Na Grécia antiga, se relacionar com pessoas de ambos os sexos era algo perfeitamente normal para homens e mulheres. Muitos homens casados se divertiam com as hetaíras... Com os efebos... E três vezes por semana, tinha que garantir o prazer, que era direito da esposa.
A mulher, por sua vez, como não tinha a companhia do marido constantemente e não podia sair sem ele, tinha que se contentar com os brinquedos eróticos, com as alcoviteiras e outras mulheres. A própria Safo, mesmo com sua preferência por mulheres, amou também um homem e se casou com ele.
As atenienses desse período Clássico nem sequer tinham autonomia. Só possuíam o direito de herança e de gerar cidadãos legítimos e mesmo a herança que recebiam, era administrada sob tutela/autorização ou do pai, caso fosse solteira, ou do marido, se fosse casada. Era uma mercadoria que apenas mudava de dono: do pai ao marido.
É, amig@s... Essa é a triste história da mulher e do quanto ela foi destituída de tantos direitos, sempre concedidos aos homens. Não estamos falando de séculos atuais e sim, de tempos ainda antes de Cristo! A Grécia Clássica está compreendida entre os séculos IV e V a.C. e ainda hoje, existem pessoas que consideram a luta por direitos da mulher uma "choradeira" ou "mimimi", como chamam hoje em dia...
Depois de tudo o que li sobre a Grécia Antiga neste capítulo e compreendo um pouco mais a sociedade em que vivemos e de onde surgiu todo esse discurso de ódio que vemos nas redes sociais contra o feminismo, posso dizer que a música do Chico Buarque "Mulheres de Atenas" ganhou uma densidade muito maior em meu coração (e, para quem não entendeu, o Chico não está elogiando o modo de vida delas. Ele está se utilizando de ironia).
Boa noite a tod@s!
Durante a Grécia Clássica, conforme o enriquecimento dos gregos, foram necessitando menos das mulheres como esposas, pois tinham escravos para prover as roupas e cuidar das terras, deixando as esposas com uma função quase inútil e com isso, os homens passaram a desvalorizar suas mulheres e tinham pouco contato com elas.
Os homens possuíam uma enorme liberdade sexual, tanto que consideravam o casamento como algo dispendioso e uma barreira à sua liberdade. Dentre suas possibilidades de prazer, haviam as concubinas, as hetaíras, as prostitutas e os efebos.
Fiquei, particularmente intrigada com as hetaíras e os efebos, que eram os objetos de afeição maiores entre os homens da época.
Às esposas, eram negado tudo! Educação, filosofia, combate, política... Portanto, os homens consideravam as mulheres como burras. Como a elas não era permitida a liberdade sexual que eles tinham, muitas se queixavam de que eles não lhes davam prazer e por isso, eles achavam que as mulheres eram muito maliciosas. É curioso e chocante ler que existia uma lei e que essa era uma das poucas que davam algum direito às mulheres, que o homem poderia fazer sexo com sua esposa 3 vezes durante o mês.
As hetaíras, mesmo sendo cortesãs de classe, já possuíam instrução para falar de todos os assuntos que seriam negados às esposas e era por causa do conhecimento, liberdade e beleza delas que os homens ficavam fascinados. Seria cômico se não fosse trágico.
Pintura, em vaso, de uma hetaíra
Por falar em "cômico e trágico", as esposas tinham o direito de ir ao teatro, mas elas só poderiam assistir tragédia. Espetáculos cômicos não eram "dignos" para elas.
Já os efebos eram adolescentes que eram aceitos como aprendizes, mas por quem os homens desenvolviam um relacionamento homossexual, que era super-comum na época. Eles eram tutores desses rapazes e os treinavam na arte da guerra, oratória, filosofia, etc desde os 12 anos até os 18. Aos 19 anos, o rapaz já era considerado um homem "dono de si" e podia, ele mesmo, adquirir seus efebos.
Um homem e seu amado efebo retratados neste vaso
É interessante que essa é uma característica que não se perpetuou no mundo hoje. A homossexualidade começou a ser perseguida nos séculos XII e XIII e foi vista doença no século XIV. Após a criação dos anti-concepcionais, nos anos 60, é que os homossexuais começaram a ser mais respeitados e a conviver com os heterossexuais com relativa paz, entretanto, ainda hoje, os homossexuais são as minorias que mais sofrem com o ódio e agressão verbal, psicológica e física hoje.
Como as mulheres viam seus maridos e tinham prazer com eles poucas vezes, era muito comum que elas recorressem ao uso de consolos, que tivessem serviços de alcoviteiras e/ou tivessem relações com outras mulheres, entretanto, o relacionamento entre mulheres era ridicularizado, afinal, eles nem sequem consideravam as mulheres como pessoas.
Um dos casos mais famosos de romance entre mulheres foi na Ilha de Lesbos, quando a poetisa Safo se apaixonada por suas alunas e escrevia muitas poesias, declarando seu sentimento por elas. Certa vez, uma de suas alunas ia se casar com um homem e apaixonada e enciumada, Safo escreve:
"Semelhante aos deuses me parece esse homem
Feliz que se senta e te fita, estando tu diante dele
Bem de perto, no silêncio, ouve
tua voz tão doce.
Rindo o riso suave do amor. Oh! Isto, somente isto
Sacode o perturbado coração que há no meu peito, fazendo-o tremer!
Desde que eu possa ver-te por apenas um pequeno momento
Minha voz é imediatamente silenciada
Sim, minha língua está partida; por todo o meu ser,
Sob minha pele de repente desliza um fogo sutil;
Nada meus olhos veem, e uma voz, de ondas claríssimas
Em meus ouvidos ressoa
O suor escorre por meu corpo, um tremor se apodera
De todos os meus membros, e, mais pálida do que a grama de outono
Tomada pela angústia da morte que ameaça, eu desmaio
Perdida no transe do amor."
Safo tinha certo prestígio entre os gregos e, portanto, seu poema é referência, na Medicina, para diagnosticar os sintomas da paixão.
Afresco de Safo encontrado em Pompéia
Outra prática que hoje, não é bem vista e hoje, deve ser combadita é a da pedofilia. Era perfeitamente normal, na época, um homem adulto possuir efebos dos 12 anos de idade e eles não só tinham essa relação de ensino-aprendizagem, como desenvolviam um relacionamento amoroso um pelo outro, com relações sexuais, obviamente. Existem textos e poesias com verdadeiras declarações de amor dos homens a seus efebos, exaltando sua beleza e masculinidade.
Haviam casos, entretanto, em que os próprios maridos ofereciam suas esposas aos convidados da casa ou se outros homens pedissem permissão, caso se interessasse em suas esposas. Eles a tratavam como um objeto de suas possem e poderiam oferecê-las a quem quisessem.
Na Grécia Clássica, estar com hetaíras, concubinas, prostitutas e efebos não era visto como traição. A única coisa que não era permitida era estar com uma mulher casada, entretanto, existem casos registrados de homens que se relacionavam, em segredo, com mulheres casadas.
Nesses casos secretos, se o homem descobrisse, ele teria o direito de matar o homem que se relaciona com sua esposa para lavar sua honra. Honra era algo extremamente importante para o homem grego e traição era uma desonra grave.
Muitas vezes, os homens resolviam "perdoar" as traições para não ter que devolver o dote às famílias das mulheres, principalmente se ele significasse uma enorme perda de dinheiro. Ele aceitava o arrependimento da esposa, mas caso não fosse o suficiente, ele teria que separar-se dela e devolvê-la para lavar sua honra.
As mulheres adúlteras eram muito mal-vistas. Se elas saíssem para assistir algum sacrifício público e outras pessoas a vissem, o primeiro homem que a visse poderiam arrancar-lhes as roupas e enfeites e açoitá-la, mas não podia mutilá-la ou matá-la.
Veja o que diz esse trecho quanto ao direito das mulheres de alegarem que os maridos eram adúlteros e pedidos de divórcio:
"A mulher não podia alegar adultério, mesmo explícito, como motivo para o divórcio. Se ela provasse ter sido vítima de abuso ou de violência física por parte do marido, o divórcio poderia ser concedido. Como resultado do processo de divórcio, todavia, o nome da mulher seria publicamente divulgado e isso era extremamente indesejável, pois as mulheres divorciadas, embora não fossem impedidas de se casar novamente, eram tratadas com desconfiança."
Os casamentos eram arranjados por homens, negociando terras e a mulher não tinha participação nenhuma. Eles desconheciam totalmente a relação entre casamento e amor, estando esse sentimento, da forma como conhecemos hoje, reservado apenas às hetaíras e efebos.
Pouco se sabe sobre os sentimentos das mulheres, pois os textos literários eram escritos por homens e para homens, logo, eles que descreviam como eles achavam que elas sentiam, mas acredita-se que havia uma mistura de amor e ódio por seus senhores, afinal de contas, elas só lhes davam os filhos que eles queriam e cuidavam da casa. É interessante ler que alguns poucos homens escreviam contos sobre esposas que se revoltavam com a forma como eram tratadas e assassinavam e se vingavam de seus maridos e seus parceiros sexuais, Os homens passaram a temer suas esposas, mas isso não parece ter feito com que eles as respeitassem mais ou mudassem seus comportamentos com elas.
Pintura de Medéia, personagem de uma tragédia que leva seu nome, escrita pelo poeta Eurípedes, onde a esposa, furiosa por ter sido abandonada por seu marido, que se interessara em outra mulher, a presenteia com um vestido que a queima até a morte e mata os próprios filhos que tivera com o ex-marido.
Os homens gregos não viam o amor como "meta de vida" e sim, como um prazer... Uma diversão e amar alguém era um dilema para ele, especialmente, uma mulher, pois ou o amor era visto como um exercício prazeiroso para o corpo ou como um tormento causado pelos deuses para vê-lo sofrer até levá-lo à ruína.
Considerações
Nossa! Foi tanta informação apenas nesse capítulo que também está difícil tecer poucas considerações. Hehehe!
Muito bom conhecer a origem de várias palavras e expressões e se dar conta do quanto essa cultura influenciou de fato.
O termo "erótico" vem do deus "Eros", mais tarde, sendo conhecido como o "cupido"... "Afrodisíaco" seria uma referência à deusa "Afrodite"... A palavra "lésbica" tem origem nos romances entre mulheres que aconteciam na Ilha de Lesbos... "Andrógino" tmb tem uma história muito interessante por trás, contada por Platão...
O nascimento da deusa Afrodite, sendo representado neste vaso
O Deus Eros, antes dele ter se transformado no travesso cupido
"No início cada ser humano tinha forma redonda, uma esfera fechada sobre si, quatro mãos, quatro pernas, duas cabeças, dois órgãos sexuais e todo o resto harmonioso. Havia três espécies de seres: Andros, Gynos e Androgynos, sendo Andros uma entidade masculina composta de oito membros e duas cabeças, ambas masculinas, Gynos idem, porém femininas, e Androgynos composto por metade masculina, metade feminina.
Dotados de coragem extraordinária, eles atacaram os deuses, que, para puni-los e fazer com que se tornassem menos poderosos, os dividiram em dois. Seccionado, de Andros surgiram dois homens; apesar de seus corpos estarem agora separados, suas almas estavam ligadas, por isso cada um procurava a sua metade.
Andros deu origem aos homens homossexuais. O mesmo ocorre com os outros dois seres. Gynos originou as lésbicas, e Androgynos, os heterossexuais. Quando se encontravam eram tomados por ternura, confiança, amor e o desejo de se fundirem ao objeto amado e constituírem um só em vez de dois. Desde então, as metades separadas andam em busca de sua metade complementar."
Também confesso ter ficado surpresa ao ler que os brinquedos sexuais, tais como os conhecidos vibradores, tiveram origem, também, na Grécia Antiga. Não se lê isso nos livros de História. Hehe!
Uma ateniense com algumas opções de consolo
E é chocante o quanto vemos pensamentos machistas e misóginos se repetindo através do tempo... Até hoje, vemos homens que consideram que as mulheres são inferiores... Que são burras... Mulheres que aprendem, desde cedo, que a "missão dela" é cuidar da casa, procurar um marido, casar e ter filhos e muitas não buscam o conhecimento ou têm acesso a ele por aceitarem sua condição ou por ignorância mesmo... Chocante ver que ainda existem homens que mesmo com a sociedade tendo mudado bastante e estando com leis mais desenvolvidas, comportam-se como os homens gregos, se casando, mas tendo várias experiências sexuais fora do casamento (só que agora, é considerado traição sim e as mulheres têm direito à pensão alimentícia para os filhos, por exemplo)... Chocante ver como a misoginia se perpetua e como tem homens que ainda sentem essa necessidade de lavar sua honra com sangue se as mulheres se separam deles ou se são traídos...
Dói ver o quanto aquelas mulheres não tinham direito à quase nada e o quanto a vida delas era terrível. Inclusive, o infanticídio era muito comum. Os casais tinham preferência por terem filhos homens, pois se tivessem filhas, quando crescessem, teriam que se casar e isso constitui em repasse de dote ao marido. Em outras palavras, uma filha significava prejuízo aos pais gregos. Ou eles as matavam ou as abandonavam. Também era comum haver infanticídio quanto haviam muitas baixam na guerra. Eles matavam as meninas para equilibrar o número de meninas e meninos.
É curioso ver, também, as diferenças. Na Grécia antiga, se relacionar com pessoas de ambos os sexos era algo perfeitamente normal para homens e mulheres. Muitos homens casados se divertiam com as hetaíras... Com os efebos... E três vezes por semana, tinha que garantir o prazer, que era direito da esposa.
A mulher, por sua vez, como não tinha a companhia do marido constantemente e não podia sair sem ele, tinha que se contentar com os brinquedos eróticos, com as alcoviteiras e outras mulheres. A própria Safo, mesmo com sua preferência por mulheres, amou também um homem e se casou com ele.
As atenienses desse período Clássico nem sequer tinham autonomia. Só possuíam o direito de herança e de gerar cidadãos legítimos e mesmo a herança que recebiam, era administrada sob tutela/autorização ou do pai, caso fosse solteira, ou do marido, se fosse casada. Era uma mercadoria que apenas mudava de dono: do pai ao marido.
Depois de tudo o que li sobre a Grécia Antiga neste capítulo e compreendo um pouco mais a sociedade em que vivemos e de onde surgiu todo esse discurso de ódio que vemos nas redes sociais contra o feminismo, posso dizer que a música do Chico Buarque "Mulheres de Atenas" ganhou uma densidade muito maior em meu coração (e, para quem não entendeu, o Chico não está elogiando o modo de vida delas. Ele está se utilizando de ironia).
Boa noite a tod@s!
Postado por
Dali
às
15:28
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