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Memórias Maternas I

quinta-feira, 28 de maio de 2026



(Daliana Medeiros Cavalcanti - 28/05/2026)

Ontem, eu maternei minha mãe.

Não "ontem", no sentido literal da palavra, mas há dias anteriores, que duraram anos: primeiro, nos momentos em que a vi “sair de si”, em surto, falando coisas que não tinham sentido (princípio da esquizofrenia). Depois, a esquizofrenia despertou a demência e, em seguida, soube do diagnóstico de câncer no pulmão, já com metástase, quando ninguém desconfiava disso.

Foram anos vendo o processo contrário: quando somos mães, vemos a criança aprender a andar… A falar as primeiras palavras… Quando ela aprende coisas e conta para você, toda feliz… Quando os erros dela são fofos e engraçadinhos, porque são as primeiras experiências dela e ela está aprendendo tudo…

O curso desse rio é o oposto: vemos nossos pais mastigando de boca aberta… Não se comunicando direito porque eles sequer estão processando, direito, o que acontece na mente deles… Eles tropeçam porque os músculos e ossos estão perdendo o vigor (e qualquer queda, para um idoso, pode ser fatal)… Assistimos, de perto, os nossos pais em processo de desaprendizagem, e isso é muito difícil.

Outros olhos e ouvidos

segunda-feira, 26 de agosto de 2024



(Daliana Medeiros Cavalcanti - 27/08/2024)

À medida que o tempo vai passando, minha sensibilidade fica mais aflorada e, como tudo na vida, existem dores e delícias nisso: as delícias estão nessas novas experiências e percepções, e as dores estão em toda a fragilidade na qual você fica imersa, ao se sentir ainda mais vulnerável...

Essa sensibilidade tem se transformado com o tempo, de forma que mesmo tendo me fortalecido, em muitos aspectos, desenvolvi outras maneiras de sentir o mundo e isso não é algo que controlo: simplesmente acontece.

Hoje, resolvi me enfrentar

sexta-feira, 28 de junho de 2024


(Daliana Medeiros Cavalcanti - 28/06/2024)

Hoje, resolvi me enfrentar e fui pra academia usando um top lindo, que tinha comprado com minha amiga Ju, há algumas semanas atrás.

Sei que para muitas pessoas, isso parece uma enorme bobagem, mas o enfrentamento foi porque eu fui apenas com o top, sem uma blusa por cima, como estava fazendo há quase um mês que comecei a frequentar a academia.

Quem me conhece, sabe que, desde sempre, eu tive/tenho muita vergonha de usar roupas que mostram meu corpo, mesmo que tenha ouvido conselhos da minha irmã e de amigas (que sabem se vestir muito bem e entendem muito de moda), que eu deveria usar mais decotes e saias curtas, mas eu nunca me senti à vontade para isso, mesmo ouvindo elogios delas, não por puritanismo, mas, justamente, por essa enorme vergonha que sinto do meu próprio corpo. É o resultado de quando você junta, num caldeirão, a gordofobia de toda uma vida com a timidez.

Como não consolar alguém

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024


(Daliana Medeiros Cavalcanti – 01/03/2024)

Há algum tempo, venho percebendo que a “empatia” é uma palavra muito falada e pouco aplicada ou vivida.

Se o mundo está falando muito sobre isso, é porque, de fato, é um aspecto em falta na sociedade e um dos motivos (talvez, o principal) é a própria pós-modernidade, que faz com que todos(as) estejam tão ocupados(as) que não têm tanto tempo de falar com aquele(a) amigo(a) ou familiar e saber se está bem ou não, até porque eles(as) mesmos têm suas próprias ocupações e problemas e, às vezes, outras pessoas também não os(as) procuram para saber se estão bem.

Pensando nisso, pensei em enumerar algumas coisas que escutei, durante a vida, nos momentos em que precisava de acolhimento e que, para mim, foram altamente imbecis e nunca ajudaram em nada. Aliás, ajudaram sim: a me sentir PIOR.

Eis a listinha de coisas para não se dizer quando alguém está precisando de colo:

Só, lamente tu

domingo, 12 de novembro de 2023


(Daliana Medeiros Cavalcanti – 13/11/2023)

“Uma mulher solteira incomoda muita gente

Duas mulheres solteiras incomodam, incomodam muito ma-aais...”


É, querides... Nós mulheres não temos um pingo de sossego...

Esses dias, fiquei reparando nos conselhos que algumas pessoas me deram/ainda dão e então, comecei a me questionar: por que o fato de eu estar solteira incomoda tanta gente?

Tradução: "você quer ficar sozinha para sempre? Você não quer ser feliz?"


Claro que namorar é bom e faz falta, mas estou bem e feliz, e não vivo em função disso. O que fico IMPRESSIONADA é que percebo que as pessoas se angustiam mais com a minha vida amorosa do que eu mesma! Eu, hein?

Foi pensando nisso e em outras manas solteiras, que devem ouvir os mesmos “pitacos não solicitados”, que abrangi a pergunta: “por que o fato de uma mulher estar solteira incomoda algumas pessoas?” e então, encontrei algumas respostas na própria história: desde a antiguidade, as mulheres eram preparadas para se casar.

Entre crises e respiros

terça-feira, 1 de agosto de 2023




(Daliana Cavalcanti – 01/08/2023)


Entre o final de junho e início de julho, fui para Vitória/ES, para participar de um Ópera Estúdio e estava muito feliz e empolgada com a oportunidade, afinal de contas, fazia anos que não participava de um: o último Ópera Estúdio que participei foi em 2016, em Recife/PE que, infelizmente, teve sua última edição naquele ano, devido ao constante corte de recursos para realizar o projeto, o que é muito triste para o cenário operístico do Nordeste, que já conta com pouquíssimas oportunidades.

Ópera Estúdios são cursos voltados para a profissionalização de cantoras(es) de ópera e, geralmente, são duas semanas intensas, que contam com aulas de canto, masterclasses, aulas de vários outros assuntos, como dicção lírica, aulas de atuação, etc. Como podem perceber, é um curso “bem puxado”, que começa pela manhã, temos intervalo para o almoço, voltamos à tarde e, normalmente, termina de umas 18h. À noite, é o período em que voltamos para casa e alternamos o estudo do que aprendemos com um pouco de descanso. É uma rotina cansativa, mas muito rica em trocas e conhecimentos e isso compensa todo o cansaço para qualquer cantor(a) que, assim como eu, AMA aprender e se desenvolver.

Anormalidade Normal

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Tradução: "nota médica - você não é normal"


(Daliana Cavalcanti – 07/02/2023)


O que é “normal”?

O dicionário Michaelis define o termo como “1 Conforme a norma; regular. 2 Que é comum e que está presente na maioria dos casos; habitual, natural, usual. 3 Tudo que é permitido e aceito socialmente. 4 Diz-se de pessoa que não tem defeitos ou problemas físicos ou mentais”

O Priberam concorda e o Aurélio, além de repetir essas definições, trouxe o seguinte: “Que se comporta ou age de uma maneira considerada aceitável ou adequada. Indivíduo que segue normas ou se enquadra dentro do considerado aceitável social e moralmente.”

Agora que sabemos o conceito dessa palavra, convido-os(as) a uma reflexão: quem estabeleceu o que é e o que não é normal? Mais ainda: o “normal” é algo absoluto ou relativo? Quem se beneficia com a normalidade? E quem são as pessoas que se prejudicam, por serem vistas como “anormais”?

Nossas origens e o Dia da Consciência Negra

sábado, 26 de novembro de 2022


(Daliana Medeiros Cavalcanti - 26/11/2022)

O mês de novembro é muito importante para a luta pelos direitos humanos de pessoas negras e fiquei pensando no que postar (se ia criar alguma arte ou algo do tipo) e me lembrei que faz algum tempo que venho pensado em postar algo sobre meu teste de ancestralidade e aí, resolvi juntar os temas.

“Mas Dali, tu nem é preta, menina! O que uma coisa tem a ver com a outra?”

Sim. Não sou negra, de fato, mas muito se engana quem acha que o Dia da Consciência Negra é uma luta única e exclusiva deles(as) – o famoso “eles(as) que lutem”. – Não! De forma alguma!

Enquanto pessoas inseridas na sociedade humana, o que acontece nela também tem nossa parcela de responsabilidade, e é aí que pergunto a meus amigos, amigas, colegas e familiares brancos e brancas: o que nós estamos fazendo para contribuir para um mundo mais justo e menos preconceituoso?

Flertes pós-modernos

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Por: Daliana Medeiros Cavalcanti - 03/11/2022


Sinto uma preguiça TREMEEEEENDA de flertar nos dias de hoje!

Que nós vivemos num mundo líquido, isso não é novidade: as relações atuais estão tão fragilizadas que é mais fácil desfazê-las do que construí-las, e isso não é muito diferente nos relacionamentos amorosos - para nos envolvermos com alguém, passamos pela paquera primeiro, afinal de contas, mesmo nos casos em que a gente já tenha uma relação de amizade com alguém, e depois, passamos a nos apaixonar por aquela pessoa, a forma como a vemos muda e aquele olhar de admiração já constitui num flerte, de certa forma.

“Ok, Dali. E por que a preguiça da paquera nos dias de hoje? O que mudou?”

O perdão sob uma visão não religiosa

segunda-feira, 27 de junho de 2022


(Daliana Cavalcanti - 27/06/2022)


É impressionante como o perdão é sempre associado a uma perspectiva religiosa, como se fosse uma virtude exclusiva de quem crê, entretanto, isso não é verdade.

Com certeza, as igrejas falam muito sobre ele, mas eu vejo poucos religiosos realmente seguindo aquilo que dizem acreditar...

Infelizmente, venho observado que muitos e muitas dizem que perdoaram por puro show off (ou, em bom português “pra se amostrar” e dizer “olhem como sou fervoroso(a)”) ou porque agem como bichinhos adestrados: perdoam e fazem o bem porque querem residir no Paraíso, “ao lado de Deus-pai todo-poderoso”, lugar que a maioria delas acha que merece.

Entretanto, como é o perdão para quem não tem uma “moeda de troca”, como o céu, depois que morre e caso você tenha realizado boas ações durante a vida?

A importância de saber quando desistir

sábado, 30 de abril de 2022



(Daliana Cavalcanti – 01/05/2022)


Eu ODEIOOOOOOOO desistir! Odeio, odeio, odeio, odeio e odeio! E caso tiver alguma dúvida sobre como me sinto quando tenho que desistir de algo, eu ODEIOOOOOOOOOOOO!!!

O texto já começa assim porque ainda estou um pouco chateada. Estou aprendendo a acolher mais a minha irritação, frustrações e fracassos, mas fico REVOLTADA comigo mesma quando desisto de algo e, hoje mesmo, era o último dia para se inscrever num concurso de canto e, infelizmente, eu não consegui gravar os vídeos a tempo, mesmo tendo articulado com a pianista para fazer as gravações e com meu cunhado, para me emprestar a câmera (inclusive, muito obrigada aos dois 💖).

Expectativa: eu marco dois ensaios, decoro duas peças novas (duas entre três músicas que tinha que cantar) e, finalmente, faço a gravação com um dia de antecedência para concluir as inscrições, pois assim, podia fazer tudo com uma certa tranquilidade.

Realidade: no dia da gravação, por estar com a musculatura muito fraca, devido ao pouco estudo durante a pandemia, das três músicas que tinha que gravar, só uma ficou boa e as outras me fizeram tossir, de tanto que forcei a voz e se continuasse, poderia ficar rouca ou afônica. Pelo bem da minha saúde vocal, tive que parar e a coisa boa era que havia a possibilidade de eu gravar no dia seguinte, até antes do horário da minha aula.

Bisbilhotar e se meter na vida alheia: as opiniões que ninguém pediu

terça-feira, 19 de abril de 2022


Eu nunca vi um povo pra gostar mais de dar conta da vida alheia do que nosso bom e velho povo brasileiro... Acho que é por isso que o BBB ainda faz sucesso por aqui, enquanto que em outros países, ele acabou faz tempo.

"Dali, pq vc tá dizendo isso agora?"

Ontem, faltou energia e, sem conseguir dormir com o calor TRISTE que estava, fui procurar algo interessante para ver nas redes sociais (algo interessante leia-se: piadas, mensagens ou notícias) e eis que me deparo com uma matéria do AgoraRN falando sobre um trisal.

Como isso ainda é novidade, até entendo os jornais se interessarem em fazer matérias sobre o assunto, mas quando fui olhar os comentários, tinha UM MONTE de gente dizendo "fim dos tempos" e comentando o quanto o cara era sortudo, pq o trisal era um homem e duas mulheres.

Boy... É TANTO close errado que eu fico BESTA! Vamos aos pontos:

Outro Texto sobre a Depressão

domingo, 3 de abril de 2022



- Outro, Dali?
Sim. Outro.
- Mas... Pra quê?
Porque é necessário.

Escrevo outro texto sobre esse tema, mais uma vez, não para trazer visões vitimistas e sim, informação, de acordo com umas coisas que ouvi já há algum tempo e, também, há poucos dias...

Tenho pensado em escrevê-lo já faz uns 3 dias ou 4 dias atrás, mas só estou escrevendo hoje porque é o dia em que consegui escrevê-lo, simplesmente.

Como vocês sabem, desde o final de outubro de 2021, fui diagnosticada com depressão e ansiedade e tenho me cuidado, até então, e tô DOIDA pra ficar boa disso logo!

Mas bom... Vou escrever algumas coisas sobre as frases que ouvi e gente: eu sei que não é por mal, tá? Não estou brigando com ninguém, portanto, não se sintam “culpades”, pois é um assunto pouco conhecido, pouco discutido e há muita desinformação por aí (pessoas que acham que qualquer tristeza é sinônimo de depressão) e como, no momento, estou nesse lugar de fala, acho importante esclarecer umas coisas.

Carta do pai interior

quarta-feira, 30 de março de 2022



Querido(a) filho(a),

Não sou o Darth Vader, mas “eu sou seu pai”.

Não o pai que te colocou no mundo, mas o pai que veio ao mundo no momento em que você nasceu: seu pai interior.

Escrevo esta carta por observar que há muitas pessoas que não tiveram o suporte do pai exterior, estando ele vivo ou morto, e me revolta ver o comportamento desses pais. Eu sei disso porque vejo o que você vê. Escuto o que você escuta. Falo com quem você fala; e ao observar seus/suas amigos(as), percebo que muitos também não têm a sorte de ter um pai presente e/ou um pai que apoia... Muitos sequer têm um pai, afinal de contas, vivemos no Brasil: um país onde milhões de crianças são registradas sem o sobrenome paterno.

A difícil arte de finalizar

sábado, 12 de março de 2022


(Daliana Medeiros Cavalcanti - 12/03/2022)

É difícil porque dói. Já começo assim.

Num mundo onde o cancelamento é uma cultura que está na moda, ser sensível, amar, ter consideração por alguém ou um grupo de pessoas, sentir que não existe uma reciprocidade e tomar a dura decisão de terminar sua relação, seja ela de que natureza for – amizade, relacionamento ou trabalho –, é algo muito sofrido para ambas as partes.

De um lado, você tem a pessoa que depositou a confiança em você, acreditou no seu potencial, investiu seus bens mais preciosos: o tempo e a energia de vida naquela relação e que não obteve, minimamente, um reconhecimento de tudo o que fez e do outro, uma pessoa que talvez, por estar tão acostumada com aquela que está sempre “sendo boazinha e compreensiva, arregaçando as mangas e fazendo tudo”, não tem a menor noção do porquê esse término aconteceu e sofre para entender.

A falta de humildade em tempos narcísicos

sexta-feira, 11 de junho de 2021


Esse texto foi postado no Facebook e tem uma segunda parte.

Colocarei em breve aqui. Espero que gostem! 

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Se liga que lá vem textão! 

Apesar de não me considerar mais uma católica, tem uma virtude que o cristianismo e outras religiões ensinam que é a HUMILDADE.

Infelizmente, num mundo como o de hoje, todo mundo cria seus perfis nas redes (e me incluo nisso, obviamente) e busca validação com curtidas e comentários. É normal em nós, seres humanos, seres sociais.

A diferença é que a internet ampliou numa escala GIGANTESCA essa nossa necessidade de aceitação do outro, e nas eras pré-históricas, a aceitação necessária era apenas o de pessoas da sua tribo, ou seja, um número bem reduzido de indivíduos.

Dia 28 de Abril - Dia da Educação

quarta-feira, 28 de abril de 2021


Hoje, dia 28 de abril, Dia da Educação, eu vou falar um pouco sobre o ensino do canto, mais especificamente, no canto lírico, mas creio que algumas pessoas que gostam mais do canto popular também possam se identificar com esse texto.

Em minha experiência como aluna de canto lírico, eu já me deparei com vários(as) profissionais: desde professores(as) maravilhosos(as) que carrego no coração até hoje a professores(as) péssimos(as) e quando me refiro a eles(as) como "péssimos(as)", não é nem pelo fato de serem maus/más cantores(as) e sim, pelas ATITUDES que possuem ao ensinar.

Mulheres, relacionamento e julgamento

quarta-feira, 6 de maio de 2020


Como eu tenho pena de nós mulheres em termos de relacionamentos... É nessas horas que vejo o quanto o Feminismo e o conhecimento de si mesma são absolutamente necessários.

Nós somos julgadas, por seja lá o que a gente escolher como relacionamento nas nossas vidas: se somos novas e solteiras, "não estamos aproveitando a vida e somos lesas demais"; se somos velhas e solteiras, "ficamos para a titia e ninguém mais vai querer"; se estamos ficando com um e outro ou traímos, "somos putas"; se somos traídas, "é porque não soubemos segurar o homem direito e não nos cuidamos mais"; se estamos num relacionamento, em especial, um casamento, "muito bem! ESSE é o correto!" e nisso, vejo muitas mulheres vivendo romances abusivos e/ou casamentos que não lhes trazem mais felicidade porque isso é o que nos foi ensinado. São poucas as mulheres que conheço que estão casadas e felizes.



É muito importante que a gente saiba o que é melhor para nós mesmas, o que nos fará felizes e ao ter essa certeza no coração (que pode ser mutável e impermanente), viver aquilo livre das convenções sociais, o que é algo extremamente difícil de fazer, porque nos é ensinado que o certo é estar com alguém e casar e o problema nem é o casamento em si, mas essa imposição de "o que é o correto e que devemos fazer". Daí, muita mulher que não está casada, se sente um fracasso e muita mulher que está casada, está insatisfeita, mas continua porque "aprendemos a ser boas, corretas e obedientes" ou por falta de independência financeira mesmo ou ameaças, o que é pior.


Não é justo, nem certo "cagar regra" de como você deve amar. Isso é algo que só NÓS podemos saber e conseguiremos isso, JUSTAMENTE, com o autoconhecimento e a luta Feminista, para romper com os padrões e assim, a mulher que quer ficar solteira, fica; a mulher que quer ficar com um e com outro, fica; a mulher que quer continuar casada, continua! É absurdo que o patriarcado seja tão grande e tão forte que atribuam, até mesmo, a loucura como uma consequência da "solteirice" da mulher, como se a vida de casada não fosse estressante e enlouquecedora, especialmente se o homem fica de braços cruzados, esperando a mulher fazer tudo!


A coisa mais difícil do mundo é definir o que é o amor, pois ele pode ser algo pra mim e outra coisa pra vc, que está lendo, mas quanto a relacionamentos amorosos, duas coisas são válidas, como o professor Leandro Karnal já mencionou: NUNCA com menores de idade e SEMPRE consensual.

Esse consenso é o respeito que vc tem por seu/sua parceiro(a) de combinar tudo e é conquistado com muito diálogo e, PRINCIPALMENTE, com a vontade e atitude de ambas as partes de que o relacionamento dê certo, pois a sua continuação depende disso.



O mais louco de tudo isso é que o autoconhecimento é um processo constante, então, até mesmo os conceitos de amor, para nós mesmas, podem mudar, ou ainda, a gente pensa que é ou será feliz de uma forma e a vida nos aponta para outro caminho COMPLETAMENTE diferente.

Se estivermos presas demais às convenções e não tivermos coragem de ultrapassá-las, nós jamais saberemos o que nos traz felicidade, mesmo que o que nos faça feliz seja, justamente, obedecer a elas e estar num casamento legal e tranquilo.


Enfim... Puxei mais para o lado de nós mulheres, numa relação heterossexual, pq sinto que sofremos mais com esse peso, mas coloque aqui o gênero e tipos de relacionamento que vcs quiserem. ^^

Beijos e #ForaBozo SEMPRE! 😆

Rosinha e Azulão: dois pesos, duas medidas

sábado, 25 de janeiro de 2020


Rosinha, sempre “inha”, é menina e aprendeu, desde cedo, a sonhar com o casamento: suas brincadeiras de comidinha e de boneca já indicavam o quanto ela seria a esposa ideal, bela, recatada e do lar, boa mãe, gentil e muito bem-educada e os contos de fadas a ajudavam a sonhar com o príncipe encantado, quando crescesse. A figura masculina aparecia em suas brincadeiras como marido e pai amoroso.

Azulão, sempre “ão”, é menino aprendeu a lutar pelo o que quer: seus brinquedos de armas brancas e de fogo, bonecos de robôs que se transformam em carros e de heróis musculosos já mostravam o ideal o tipo de homem que ele deveria ser – forte, destemido, desbravador, lógico e racional. A figura feminina só aparecia em suas brincadeiras porque eles tinham que “salvar a moça em perigo”.



Rosinha cresce e na sua adolescência, ouve muitos conselhos de “não dar no primeiro encontro”, não se tocar e conhecer o seu próprio corpo porque é feio... A preservar sua virgindade o máximo possível, pois castidade é sinônimo de pureza e é muito importante que a mulher se mantenha pura. Ela ouve até, dos parentes mais velhos e conservadores, a só ter suas primeiras relações sexuais depois do casamento, porque “é o que uma moça direita faz. Ela tem que zelar pela sua própria honra. Tem que se dar valor e tomar cuidado porque os homens só pensam naquilo.” Ela também aprende que sua prima Amarelinha é uma puta, comportamento digno de reprovação, pois ela já tem 16 anos e não é mais virgem, já ficou com uns meninos e ser puta é uma das piores coisas e uma das maiores ofensas a uma mulher.

Azulão cresce e na sua adolescência, ouve dos pais “prendam suas cabritas porque meu bode está solto.” Aprende que ele tem que explorar e viver sua sexualidade o máximo possível e que o que vale mais é a quantidade de meninas que “já pegou” porque “quanto mais experiências, melhor”. Quanto mais cedo perder a virgindade, melhor, pois um homem mais velho e virgem é motivo de piadas. Alguns parentes mais velhos e mais conservadores estimulam que ele vá para um cabaré e tenha sua primeira vez com uma prostituta, pois quanto mais rápido perder essa virgindade, melhor. Ele também aprende que seu primo Verdão passou a ser chamado de Verdinho porque já tinha 16 anos e não pegou ninguém ainda. Por causa disso, ele é tratado como um grande bobo e que ser comparado a algo feminino (florzinha, menininha, bonequinha, etc) são as maiores ofensas a um homem.

Até que, aos 20 anos, Rosinha e Azulão se conhecem e se apaixonam...



Rosinha, encantada com Azulão, tão belo e forte, se pergunta se seria esse, finalmente, o príncipe encantado que ela tanto sonhou em conhecer, desde a infância. O homem com quem ela poderia casar, ter filhos e, como num conto de fadas, “viver feliz para sempre.” Ela sonha com um futuro ao seu lado.

Azulão, encantado com Rosinha, tão bela e meiga, se pergunta como ela será na cama e se imagina fazendo amor com ela todos os dias. Ele não pensa muito no futuro e sim, no que ele quer fazer com ela em breve.

Ela e ele têm a primeira noite de amor juntos.

Ele percebe a pouca experiência que ela tinha e ao ela confirmar isso, ele se sente empoderado, porque estava ficando com uma mulher “pouco rodada”, mas acha o sexo razoável. Como ela é uma moça muito legal e ele estava gostando dela, com um pouco de paciência, ela iria aprendendo mais e eles iriam se acertando.

Ela nem sequer se questiona se ele já teve muitas mulheres antes, pois isso não é muito importante para ela, mas por ter poucas experiências sexuais e por ter ficado com poucos homens que se importam com o prazer feminino, ela considera aquele momento mágico e lindo e, cada vez mais, vai tendo a certeza de que ele é o homem da vida dela.



Eles namoram por dois anos e a ideia de casamento já passa pela cabeça de Rosinha, que já dá algumas indiretas para seu namorado. A família também a pressiona, dizendo que ela “já está numa idade boa para casar” e alerta que se case logo, senão, “vai ficar pra titia.”

Azulão desvia do assunto e começa a dizer o quanto o namoro deles “estava bom como estava” e que não havia a necessidade de se casar. A família e amigos dele sugerem que ele “pule fora”, que ele vai se acorrentar e perder toda a liberdade.

Azulão começa a agir de forma mais esquiva, com medo da ideia de se casar, mesmo tendo sentimentos por ela e mesmo que o sexo deles esteja ótimo. O medo de perder a liberdade o invade e ele passa a procurar outras mulheres, pois já estava com ela há tempo demais e “é sempre bom dar uma variada, né?”

Rosinha estranha a atitude do parceiro, mas ela pensa que com insistência e com a força do amor, ela iria convencê-lo de que era a coisa certa a se fazer e que um dia, ele olharia para ela e reconheceria, também que ela é a mulher da vida dele. “O meu amor vai mudar a cabeça dele.”

Rosinha tanto insiste que consegue e eles se casam. É “o dia de Rosinha”: o casamento perfeito, na igreja perfeita, com as flores perfeitas, com o vestido perfeito e a maquiagem perfeita... Tudo como ela havia planejado.

Azulão olha em torno dele como se fosse um alienígena, colocando os pés na Terra pela primeira vez e não tem nem ideia de todo o trabalho que Rosinha teve de planejar tudo aquilo, mas sabia que a cerimônia custou caro e nossa... Como ela estava radiante e deslumbrante naquela noite!



Depois de todas as festividades, a tão sonhada lua-de-mel, em outro lugar, regada a muito amor. Foram momentos únicos na vida do casal.

Após a lua-de-mel, finalmente, vem o casamento de fato, como ele é: a convivência, onde vemos todas as virtudes e defeitos da(o) outra(o). Todas as manias e enxergamos a(o) outra(o) tal como ela(e) é.

Azulão não conseguia entender porque Rosinha vivia reclamando e achou que ela mudou muitos depois do casamento e pra pior: não se cuidava mais... Estava sempre estressada... Não era mais a mulher sorridente e meiga com quem ele se casou...

Rosinha não conseguia acreditar que seu príncipe havia se transformado num sapo. “Ou será que ele sempre foi um sapo e eu nunca percebi? Ou será que eu o transformei num príncipe, sob meu olhar apaixonado?” De fato, ela havia mudado, pois ela não tinha tantas obrigações assim quando era mais nova. Ela não só tinha o seu trabalho numa empresa, como tinha que limpar a casa, cozinhar, etc e ele não ajudava, sequer, lavando o próprio copo, onde bebeu água.

Ele está infeliz no casamento, dorme com outras mulheres, mas não pensa em se separar...

Ela está infeliz no casamento, mas mantém a fidelidade e quando descobre que é traída, desde antes do casamento, já começa a falar em divórcio...



Rosinha já teve a oportunidade de beijar e dormir com homens que lhe ofereceram carinho, durante o casamento, mas negou, mesmo infeliz, porque é importante, para uma mulher, agir corretamente e com honra. Se ficasse com um outro homem, não se sentiria em paz consigo mesma e se descobrissem, provavelmente, seria chamada de ”puta”, aquele adjetivo abominável que aprendeu desde criança.

Azulão já teve a oportunidade de beijar e dormir com mulheres que lhe ofereceram carinho, durante o casamento, mas recusou algumas oportunidades apenas, porque é importante, para um homem, mostrar o quanto é homem, ficando com várias mulheres e demonstrando energia sexual intensa. Se recusasse e descobrissem, seria chamado de “viadinho”, entre outros adjetivos femininos terríveis que aprendeu desde criança.

Ela agiu conforme aprendeu a agir desde criança... Ele também...

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Estudos revelam que o casamento é mais benéfico para o homem do que para a mulher (https://oglobo.globo.com/sociedade/casamento-mais-benefico-para-homens-do-que-para-mulheres-revela-estudo-16425195).

No Brasil, as pessoas vêm se casando menos e se divorciando mais. Em 2018, foram registrados 385.246 divórcios (https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/12/04/numero-de-casamentos-cai-16-e-divorcios-aumentam-32-entre-2017-e-2018.htm ).

5,5 milhões de brasileiros não possuem o sobrenome do pai na certidão de nascimento (https://exame.abril.com.br/brasil/brasil-tem-5-5-milhoes-de-criancas-sem-pai-no-registro/ ).

As meninas ainda fazem mais atividades domésticas do que os meninos e é um dos motivos delas receberem menores salários quando crescem (https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/08/meninas-fazem-mais-tarefas-em-casa-do-que-meninos-mas-ganham-mesadas-menores.shtml ).

Todas essas narrativas têm um fator em comum: o de gênero.

Desde cedo, aprendemos que “mulher é assim” e “homem é assado” e ninguém para se questionar como isso foi definido e a quem isso beneficia. Apenas aceitam e naturalizam algo, com a frase conformista de “sempre foi assim” quando, na verdade, se trata de construções sociais.



É por isso que a Simone de Beauvoir diz que “não se nasce mulher. Torna-se” e, de fato, ninguém nasce já gostando da cor rosa, a querer ser como uma princesa e tudo o mais. Tudo isso vai sendo ensinado e mesma coisa para os meninos, logo, é possível dizer que a educação sexual já existe – se molda meninas e meninos para falar e agir de um jeito e gostar de uma cor específica.

Quando alguém fala de “ideologia de gênero”, além de estar falando uma besteira sem tamanho (pois está se baseando numa fake news), está colaborando para que essas formas, que já são ensinadas, se perpetuem e temos que ensinar nossos meninos a também cuidarem dos afazeres domésticos, a serem carinhosos e a serem bons pais e temos que ensinar as nossas meninas a amarem e conhecerem o próprio corpo, a escolherem aquilo que ela quer ser e a serem independentes nos relacionamentos amorosos.



É só a partir dessa educação que teremos pessoas mais conscientes e colaborativas para um casamento saudável, para um casal que divide responsabilidades em casa e pais amorosos, que compartilham os cuidados com os filhos. Por isso que a educação sexual é importante, além de descontruir conceitos bobos de que se um menino tem comportamento afeminado, ele deve ser diminuído ou odiado e se uma menina tiver comportamento masculinizado, também. A violência que LGBTs sofrem vem da infância e/ou adolescência. 73% de jovens LGBTs sobrem bullying na escola (https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/2017/10/73-dos-jovens-lgbts-da-america-latina-sofrem-bullying-nas-escolas-revela-pesquisa )

É por tudo isso que precisamos de educação sexual: para que narrativas como essa fiquem no passado e sejam tão chocantes, absurdas e esquisitas, para as próximas gerações, quanto relatos de tipo: “você acredita que nos Estados Unidos, houve uma época em que os negros sentavam atrás nos ônibus e que era tudo separado para negros e brancos? E tudo para os negros era ruim ou de baixa qualidade e tudo para os brancos era melhor. Já pensou? Só porque são negros?!? Quanta ignorância do povo na época, né?”


Obs.: sei que existem exceções, mas esses são os moldes e clichês que ensinam para a gente e que, infelizmente, ainda são muito seguidos hoje. Não seria melhor se não houvessem estereótipos e se cada um construísse a sua própria forma de ser e de ser feliz, sempre respeitando (a)o outra(o)?


(Daliana Medeiros Cavalcanti - 25/01/2020)

Carta a La Loba

sábado, 1 de junho de 2019


Prezada Loba,

Por que é sempre tão solitária e muda?

Por que se esconde?

É como se sempre estivesse presente, mas, apenas algumas vezes, revelasse a sua voz, por meio do canto lírico, como o canto de uma sereia, doce e poderoso, que ecoa à distância. Você revela a sua presença por meio de cantos e gemidos.

Será que é isso? Será que você é meu coração e o ar de meus pulmões, que inspiram, expiram e bombeia vida?

Eu te sinto no prazer... No prazer de criar... Fazer arte e criar amor...

Te sinto na reflexão e nas respostas sábias, como uma velha que diz, docemente e com sua voz enrugada de avó: "respire e relaxe. Dói, mas já passei por isso e sei que vai passar."

Se é assim, por que se cala diante da dor?

Onde você esteve em todo esse vale de lágrimas que percorri e derramei por pessoas que acham que te entendem, mas não entendem? Nem eu te entendo e, ao mesmo tempo, sim.

Estou confusa.

Será que, às vezes, não te sinto porque somos uma só e ou estamos muito conectadas, a ponto de não nos diferenciarmos mais ou muito desconectadas, pelas modernidades e intelectualizações que fazem parte da vida?

Sinto que ambas as coisas estão corretas e, às vezes, é difícil dar forma à dicotomia... Ao paradoxo... Ao contraste e ao controverso... Mesmo que essa forma seja feita de palavras...

Talvez seja por isso que seja água: você se molda de acordo com o meio em que é inserida e talvez por isso, seja tão difícil te definir...

Sei que te busco, mesmo sem bússola, nem rumo...

Uma rosa-dos-ventos, da água, do fogo e da terra, que paira no limbo do meu eu...

É presente, passado e futuro, longínquos ou no atual momento, que já ficou obsoleto, pois já escrevi e a cada palavra que escrevo, registro um passado recente e a cada palavra que penso em escrever, me pergunto "o que mais eu vou inventar? O que mais preciso te/nos dizer?"

Sei que te escrever me dá alívio... O alívio de parir...

Loba solitária, forte, presente, solidária, meiga e guerreira, te venero e admiro e anseio me apropriar de ti, cada vez mais, e de teu poder, pois somos uma só e te buscar, te encontrar, te acolher e te perceber são missões para a vida inteira e o alcance desse inteiro é um meio que essa vida fracionada faz para se completar.


(Daliana Medeiros Cavalcanti - 01/06/2019)