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Frankenstein, Mary Shelley e a Rejeição

quinta-feira, 26 de novembro de 2020



Há anos atrás, havia assistido ao filme "Frankenstein de Mary Shelley", de 1994, dirigido pelo Kenneth Branagh e produzido pelo Francis Coppola, que havia me mostrado "uma outra versão do monstro" e eu mal sabia que aquele era o verdadeiro Frankenstein, baseado no livro da autora. Essa obra foi a primeira obra de ficção científica do mundo e foi escrita por uma mulher, numa época em que elas tinham que assumir pseudônimos masculinos para terem seus livros publicados, ou seus maridos levavam todo o crédito por algo que não escreveram. 

Trailer de Frankenstein de Mary Shelley:



Eu tenho umas listas de filmes e séries que pretendo assistir e entre elas, estava o filme da escritora inglesa "Mary Shelley", de 2017, dirigido por Haifaa al-Mansour e escrito por Emma Jensen e fiquei super-curiosa, porque gosto de saber da vida dessas mulheres que fizeram parte de nossa história e são tão pouco conhecidas ou estudadas.

Após assistir ao filme sobre a vida dela, tão marcada por muitas perdas, tristezas, rejeições e abandonos, deu-me uma imensa vontade de ler a obra-prima que a consagrou. 

Trailer de Mary Shelley:



Fazia muito tempo que não lia um livro de ficção/romance, pois, na maior parte do tempo, tenho lido textos acadêmicos e/ou matérias jornalísticas, falando sobre canto, teatro, acontecimentos atuais, reflexões, etc. Até já havia me esquecido o quanto essas obras de ficção me deixam tão ávida por leitura. 

Normalmente, sou uma leitora lenta, porque me perco em divagações e por ter outros afazeres que me fazem esquecer ou protelar os livros que estou lendo (inclusive, tenho muitos livros nessa situação, com leituras incompletas), mas esse, cujo arquivo possui 205 páginas no total, devorei em apenas um dia e me orgulhei muito disso! Só não foi um dia certinho porque fiz algumas pausas, uma delas bem longa, mas se não fosse isso, somando as horas de leitura, foi tudo em apenas um dia. 

Ao ler o livro e assistir o filme do Branagh e o outro da vida da autora, eu me questiono "por que diabos o cinema transformou o Frankenstein num monstro verde, burro e lento? A versão clássica cinematográfica mostra um dos monstros mais bobos que eu já vi e pela versão original da Mary Shelley, o Frankenstein tem NADA A VER com essa figura tão patética!"


Tanto o filme que retrata a vida dela, quanto a obra, me fizeram pensar no que a Clarissa Pinkola Estés, autora do livro "Mulheres que Correm com os Lobos" fala sobre o poder curativo do mito e da literatura como um todo e, de certa forma, como a história é fictícia, poderíamos dizer que se constitui num mito e, inclusive, o subtítulo dessa obra é baseada no Prometeu (o nome original da obra da Mary Shelley é "Frankenstein, ou o Prometeu Moderno), figura da mitologia grega que é um titã, filho de Jápeto e irmão de Atlas, tido como o criador da raça humana.

Prometeu moldando o homem através do barro
Ilustração: Mike Azevedo


Foi muito interessante observar as influências da autora, no filme, que a levaram a escrever a obra e uma delas foi a paixão que ela tinha pela tragédia grega, tendo "A Ilíada" de Homero como um dos objetos mais preciosos que seu pai possuía e por escassez de recursos, ele quase vendeu esse tesouro.

Para quem não conhece a história, eis a síntese: o cientista Victor Frankenstein deseja descobrir os segredos entre a vida e a morte, descobre sobre o galvanismo (estudo da eletricidade por meios químicos) e decide criar um novo ser humano em tamanho maior (2,30m) por motivos de estudo, mas ao dar vida a esse ser, ele fica tão apavorado que foge de sua criação e o abandona, pois viu que "havia dado luz a um monstro."

Aliás, um fato interessante é que “o monstro” não é chamado de Frankenstein em nenhum momento, porque ele sequer recebera um nome ao nascer. Frankenstein é o sobrenome de Victor, seu “pai”, portanto, o personagem é um sobrenome sem nome, dessa forma, tratarei a criação por Frankenstein e o doutor, chamarei pelo primeiro nome.


Na primeira parte da obra, nós lemos sobre a situação da criação de acordo com a ótica do Dr. Victor e na segunda parte, vemos sob a ótica do Frankenstein. A forma com que este último relata sua experiência e como foi aprendendo tudo sozinho, ao seu criador, me faz lembrar Calibã, da obra “A Tempestade” de Shakespeare (que é outra referência da autora): uma criatura de aparência hedionda, que todos sentem imensa repulsa e que é, por muitos, tido como um monstro, mas que têm alguma magia e uma delicadeza no modo de ver o mundo, bem como uma enorme sensibilidade... Algumas das falas mais bonitas de ambas as obras (“Tempestade” e “Frank”) são ditas, justamente, pelos “monstros”. 

São tantas as questões que me vêm à mente quando penso nesses filmes e livro, que é difícil saber por onde começar... 

Victor queria tanto entender o limite que separa a vida e a morte e por mais que tivesse fins benignos de prolongar a longevidade humana e que se esforçasse em "esculpir o ser perfeito", ele o constrói com restos mortais, cria um ser de aparência horrenda e se sente amaldiçoado por isso. Isso me faz lembrar, também, o dito popular “de boas intenções, o inferno está cheio.” 


O Dr. Victor ficou tão empenhado e obcecado com o seu novo intento que me faz pensar que “nossas obsessões criam monstros”. 

Penso, também, que a criação do Frankenstein seja um convite à reflexão sobre as coisas que ultrapassam "a natureza humana" e me vêm à mente algumas perguntas difíceis de responder: o que é a natureza humana? O que é natural?

Como o ser foi criado de uma maneira diferente da relação sexual que resulta no parto, ele é sobrenatural e, no entanto, sua rejeição revela muito da crueldade humana que depois, faz com que ele se torne no monstro que tanto dizem que ele é, devido à sua aparência.

Assim que nasceu, ele foi rejeitado pelo seu criador e, desde então, vagava pelo mundo, buscando o amor e a aceitação de alguém, mas bastava que olhassem para ele que as pessoas sentiam uma imediata repulsa e sequer o viam como um semelhante... Como um ser humano... E, em sua enorme sensibilidade, ele se mostrava muito mais humano do que os seres humanos, que foram incapazes de um só ato de bondade para com ele...


Isso me faz pensar também que ver seres ou pessoas como monstros é uma questão de perspectiva, muitas vezes, pois os humanos foram muito mais monstruosos com o Frankenstein por lhe negarem afeto do que ele com os humanos. Frankenstein machucou apenas as pessoas que eram caras ao Dr. Victor, por estar irritado com tamanha rejeição "de berço" e essa era a forma que ele encontrou de se vingar e chamar a atenção do seu pai, que depois passa a persegui-lo. Não é a melhor forma, evidentemente, mas "toda raiva tem uma tristeza escondida" e esses sentimentos nos cegam, muitas vezes e assim, nem o Victor enxergava a sua responsabilidade afetiva de dar um pouco de afeto a seu filho, nem Frankenstein enxergava a sua responsabilidade de deixar atrás o que não te serve mais e tentar viver de uma outra forma.

Também vale a pena ressaltar que Frankenstein fora criado já em forma adulta, mas ele aprendeu tudo sozinho: que o fogo queimava e machucava, mas que também o podia manter aquecido; aprendeu a falar e a ler sozinho e os trechos em que ele relata como ele aprendeu tudo isso e como ele via o mundo é de uma beleza encantadora e tão pura, digna do olhar de uma criança e eis outra coisa que me vêm à mente - apesar de sua forma adulta e gigantesca, ele é como se fosse uma criança, com poucos anos de idade e muitas crianças não têm muita noção da vida e da morte, nem do perigo, nem nada.

Assistir e ler a história do Frankenstein me faz lembrar das dores da rejeição... O quanto nós, muitas vezes, nos sentimos horrorosos(as) por não estarmos no padrão homem, branco, magro/fitness, heterossexual e jovem e o quanto nós, seres humanos, já lidamos com esse desprezo, em algum momento de nossas vidas, seja ele feito por uma pessoa específica ou pela sociedade.


O que precisamos compreender é que, na maioria das vezes, a rejeição tem mais a ver com quem rejeita do que com quem é rejeitado(a) e, se o caso for social, o problema está na sociedade e na sua estrutura racista, gordofóbica, homofóbica e gerontofóbica. 

Até lembrei de um momento em que o marido da Mary Shelley, no filme, pergunta "por que uma criatura remendada e grotesca e por que não um anjo?" e eu concordo com a opinião da autora, que não foi com essas palavras (pois ela questiona a vida deles, enquanto marido e mulher), mas com essa intenção: porque nossa vida nem sempre é perfeita, como um anjo. Ela se parece mais com o Frankenstein mesmo, que mesmo em sua notável imperfeição, é perfeita do jeito que é, com seus rasgos e retalhos, que nos tornam tão únicos(as).


Quantas e quantas vezes eu não me senti um Frankenstein porque reparavam o meu corpo gordo na praia ou na rua, de maneira descarada e com visíveis olhares reprovadores e até de nojo, tal como se eu fosse "o monstro"? Quantas e quantas vezes eu não me senti um Frankenstein por comentários gordofóbicos que as pessoas fazem sem saber ou sentir, sob a desculpa de "estou falando para o seu bem, porque me preocupo com a sua saúde"? Quantas e quantas vezes não me senti um Frankenstein por ser artista e considerarem isso "coisa de gente vagabunda"? Quantas e quantas vezes não me senti um Frankenstein por tantos amores que quis viver e só levei "nãos" e, alguns desses "nãos", eram por causa do meu corpo? Quantas e quantas vezes...?


Somente quem tem empatia e conhece as dores da rejeição conseguem ver o Frankenstein da forma extraordinária que ele é e que, nós mesmos(as) precisamos olhar para esse ser sobrenatural dentro da gente e amá-lo do jeitinho que ele é.

Nós precisamos desse olhar mais compassivo conosco, senão, podemos nos tornar o monstro que todos imaginam que o Frankenstein seja, por não acolhermos a nossa sombra e não nos conhecermos.

É, queridos(as)... Autoconhecimento dói. E quem disse que seria fácil? 

Tal como o "monstro", nós somos pedaços de nós mesmos e nossas histórias, que deixam marcas muito profundas e assim, vamos nos ferindo, nos fragmentando e nos remendando novamente, numa linda colcha de retalhos ou num belo vaso Kintsukuroi.


Review de "Quem é essa mulher"?

quarta-feira, 23 de novembro de 2016


Nota de 1,0 a 5,0 = 4,5

Gênero = Comédia


Antes de mais nada, gostaria de dizer para as pessoas que traduzem os títulos de filmes para algo que tem nada a ver para POR FAVOR, NÃO FAZER ISSOOOOOO!

Sério... Parece falta de criatividade... O nome do filme original é "Florence Foster Jenkins" e como ela não foi uma pessoa muito conhecida, principalmente por quem não está acostumado a ouvir canto lírico, muitas pessoas não sabem quem ela é. Até parece que quando foram decidir o nome do filme, uma pessoa se perguntou para a outra "quem é essa mulher?" e responderam "não sei" e aí, pronto. Ficou "Florence, quem é essa mulher" mesmo.

Tirando esse detalhe, o filme é muito bom!

No elenco do filme, nada mais, nada menos que a "papa-Oscar" de Hollywood: Meryl Streep! Ela, como sempre, maravilhosa e tmb o charmoso Hugh Grant e o Simon Helberg, que também interpreta o Howard da série "The Big Bang Theory".

Florence Jenkins era uma ricaça que achou que já estava pronta para cantar ópera e como não havia ninguém que lhe dissesse o contrário, ela se apresentou várias vezes e, inclusive, apresentou no renomado teatro Carnegie Hall. 

De início, achei que as pessoas a mimavam porque ela era rica e sim... Alguns mimavam ela por esse motivo e outros, principalmente os que realmente se importavam com ela, não falavam a verdade por outros motivos que não vou contar, para não fazer spoiler.

A Florence real à esquerda e a Meryl Streep, à direita, encarnando-a


Apesar de ela ter tudo o que quer nas mãos (professores de canto e maestros de fazer inveja a qualquer estudante de canto lírico, excelentes instrumentistas para tocarem com ela, etc), ela não era uma mulher arrogante. Ela era mimada por todos, mas era muito generosa, fazia doações a instituições de caridade e ela incentivou o cenário da ópera, com o dinheiro e influência que possuía.

O que talvez algumas pessoas não saibam é que essa história é baseada em fatos reais. Essa mulher REALMENTE existiu e vocês podem conferir todo o... "talento" dela no vídeo do Youtube abaixo, onde ela canta a super-conhecida ária da Rainha da Noite "Der Hölle Rache" da ópera "A Flauta Mágica" de Mozart:


Às vezes, me pergunto se ela nunca ouviu suas próprias gravações para perceber que... "Tinha alguma coisa errada ali"... E é incrível perceber que essa história foi real. Claro que o cinema sempre romantiza um pouco, mas tudo aquilo aconteceu mesmo.

Interessante também ver que a Meryl se desafinou para parecer, o máximo possível, com a Florence cantando. Hehe! Mas os áudios do filme são a Meryl que canta, imitando e interpretando-a.

Mas enfim... A comédia traz uma belíssima mensagem no final que vale a pena conferir e que faz, principalmente, quem trabalha com a arte e o canto (não apenas o lírico) se emocionarem (ou eu, pelo menos, me emocionei)... Essa mensagem foi o que mais me tocou e me fez gostar ainda mais do filme e a valorizar ainda mais a minha profissão como cantora lírica.


Confiram pq o filme é bem legal sim!

Beijos e valeu!

Review de "Geliebte Clara"

segunda-feira, 15 de agosto de 2016


Nota de 1,0 a 5,0 = 4,5

Gênero = Romance / Drama

Achei muito legal a iniciativa de se fazer um vídeo sobre a pianista e compositora Clara Schumann, tão pouco estudada e conhecida na História da Música.

O filme é uma produção franco-germano-húngara e é um pouco desconhecido, mas tive o interesse de assistí-lo, pois ao estudar música, percebi que pouco se fala sobre compositoras e, honestamente, até pouco tempo atrás, eu não conhecia nenhuma. Nem as escolas, nem os livros de história da música falam sobre musicistas do sexo feminino.

Pintura da Clara Schumann
Foi quando eu conheci a Clara Schumann, ouvi alguns de seus Lieder (canções alemãs) e tive o interesse de estudar mais a fundo sobre ela, as canções que ela escreveu e a vida dela como um todo.

Ao ler sobre a vida dela, me deparei com uma grande guerreira, cujo o filme, mesmo sendo muito bom, foi incapaz de mostrar todos os problemas que ela passou.

O filme ressalta a sua virtuosidade ao piano e mostra o quanto ela era conhecida por seus concertos. Ela era uma pianista muito admirada, mas não conta que, assim como Mozart e tantos outros gênios internacionalmente conhecidos, ela aprendeu a tocar piano desde pequena, com seu pai, e desde criança, já fazia concertos.

No filme, ela já está casada com o Robert Schumann e o ponto central da história, além de ressaltar o brilhantismo da Clara que a História não contou nos livros acadêmicos, é o relacionamento deles. A ficção, entretanto, não mostrou que bem antes deles se casarem, o pai de Clara (que, antes de se casar, se chamava Clara Wieck) era contra o relacionamento deles. Robert, que era 9 anos mais velho que ela, teve que processar o pai dela para conseguir que o casamento acontecesse.

Durante esse período do processo, que aconteceu por volta de 1840, Schumann estava bastante inspirado e compôs várias canções e ciclos de canções, o que deu o nome, a esse ano de "Ano da Canção". Um desses ciclos que ele escreveu foi o Frauenliebe und Leben (Amor e Vida de uma Mulher), que apresentei em meu recital e que havia sido dedicado à Clara.

Clara e Robert Schumann

Voltando à trama do filme, com o passar do tempo, Robert foi se sentindo mal e foi deixando de fazer várias coisas que ele fazia normalmente. Deixou de reger a orquestra... Não queria mais tocar piano... E a Clara foi assumindo todas essas responsabilidades.

Eu não sabia que a Clara, além de tudo, era maestrina. Ela regeu a orquestra e no início, muitos músicos da orquestra foram contra, pois não aceitavam a ideia de uma mulher regendo. Imagino que, na época, devia ter sido um escândalo enorme. Como eles tinham um concerto marcado, eles acabaram aceitando que a Clara os conduzisse.

Clara conduzindo a orquestra

Aos poucos, o estado de saúde de Robert foi piorando e descobre-se que ele tem algum transtorno mental, que foi piorando bastante.

Mais tarde, aparece o jovem Johannes Brahms, que se apaixona pela Clara e tenta ajudá-la como pode. A História conta que eles talvez tenham tido um relacionamento amoroso, mas não se pode afirmar com certeza, pois eles destruíram cartas e outros documentos que possam comprovar isso e o filme deixa essa relação entre eles bem dúbia.

Clara Schumann e Johannes Brahms

É triste perceber que a História pouco fala sobre a Clara Schumann, mas muitos sabem do triângulo amoroso dela com o Brahms, o que só apresenta o machismo presente no conhecimento acadêmico.

Aliás, falando de machismo, é impressionante ler sobre a vida dela e ver que não só os homens eram contra mulheres compositoras, mas as próprias mulheres se reconheciam como pessoas que deveriam focar em suas atividades femininas (ou seja: cuidar da casa e dos filhos) e com ela, não foi diferente. Mesmo com tanto talento e sustentando a casa com os concertos que ela dava, principalmente após a morte do marido, ela foi deixando, aos poucos, de compôr para cuidar de seus afazeres domésticos.

Geliebte Clara (Amada Clara) é um filme muito doce e lindo que mostra um pouco da história dessa impressionante musicista que, além de talentosa, teve uma vida muito difícil.


Com o agravamento da doença de Robert (que, ao que tudo indica, sofria de Transtorno Bipolar e ficou incapacitado de tocar porque feriu gravemente a mão), ela teve que cuidar de todos os afazeres domésticos sozinha; conforme ele foi parando de trabalhar e, mais tarde, teve que se internar num asilo, a renda deles diminuiu e eles passaram por muitos apertos financeiros; quatro de seus oito filhos morreram antes dela - um com apenas 1 ano de idade (lembrando que a mortalidade infantil, antigamente, era bem mais alta do que é hoje), outro desenvolveu a mesma doença que o pai e teve que ser "sepultado vivo" num manicômio... Senti falta dessas últimas informações no filme, que só mostram o quanto, além de tudo, ela era uma mulher muito forte.

E, para finalizar, se Schumann deve a alguém por ser tão conhecido, na música clássica, como ele é hoje, esse alguém é a Clara, que lutou para preservar seus trabalho e sempre os executava em seus concertos.

Review de "Divertidamente"

sexta-feira, 8 de julho de 2016


Nota de 1,0 a 5,0 - 5,0


Que bom que vi muitos filmes bons de uns tempos para cá! Um deles foi o "Divertidamente", animação da Pixar e da Disney que foca nas emoções mais básicas que temos: a Alegria, a Tristeza, a Raiva, a Repulsa e o Medo. Gostei tanto dessa animação que foi ela quem me inspirou a escrever uma reflexão, que é "O mundo que não permite a tristeza".


A animação tem a Riley como personagem central e no interior da cabeça de Riley, funciona uma espécie de escritório 24h, que é a mente dela, onde as cinco emoções convivem "harmoniosamente" ou, pelo menos, era o que a Alegria pensava. A Alegria era a líder das emoções e ela nunca deixava a Tristeza chegar perto das lembranças da Riley, pois não queria que a menina ficasse triste.

Durante a pré-adolescência, algo inesperado acontece e Riley e sua família se mudam para a cidade grande e vivem num apartamento pequeno e uma série de situações bem chatas acontecem: os móveis só chegariam depois, devido a um atraso da transportadora... O pai da Riley está bem estressado e cheio de trabalho... A mudança faz com que Riley se afaste de seus amigos...


A Alegria, dentro da mente dela, não a deixa esmorecer de jeito nenhum e ela nunca deixa a Tristeza atuar. Toca vez que a Tristeza tenta fazer alguma coisa, a Alegria pede para que ela não faça nada e sempre deixa a Tristeza de lado. Durante uma tentativa da Alegria de controlar tudo e não deixar a Tristeza fazer, nem tocar em nada (todas as lembranças que a tristeza tocava se tornavam azuis, ou seja, eram "contaminadas" com a tristeza), a Alegria acaba se atrapalhando, quebram alguns aparelhos e são sugadas para fora da central de controle da mente e das emoções da Riley.

A Alegria e a Tristeza passam um tempo tentando voltar para a central de controle e é engraçado quando o Medo, a Repulsa e a Raiva tentam controlar a mente da Riley. Hehehe! Definitivamente, não é uma boa ideia nos deixarmos controlar apenas por esses três sentimentos.


A estória é muito simples e é baseada em emoções e o quanto elas são importantes... O quanto elas nos afetam...

Durante a jornada de volta à central de controle, A Alegria e Tristeza tentam se unir, mas a Tristeza tá sempre se sentindo tão mal que não tem vontade de fazer nada e a Alegria não consegue compreender a Tristeza.


[Alerta de spoiler] Quando o amigo imaginário de Riley chora, a Alegria não sabe muito bem o que fazer e é a Tristeza quem demonstra a empatia e compaixão necessárias para que uma pessoa se sinta melhor e é só então que a Alegria começa a compreender o quanto a Tristeza é importante e, inclusive, numa das memórias que ela vê da Riley e que ela tanto temia que a Tristeza a "infectasse", ela viu que a memória, antes de virar amarelinha (a cor da alegria), era azul... Ou seja, depois que a Riley ficou muito triste e decepcionada, os amigos e família foram lá animá-la e isso transformou a memória em algo feliz.


É uma animação muito, MUUUUUITO fofa e que vale muito a pena assistir por pessoas de qualquer idade.

Review de "O Silêncio dos Inocentes"




Nota de 1,0 a 5,0 = 5,0


Mais um filme MARAVILHOSO que vi no mesmo dia em que assisti "Ele Está de Volta" e "A Lista de Schindler".

Pessoalmente, eu ADORO vilões e adoro a figura do Dr. Hannibal Lecter, um psiquiatra refinado que é um psicopata e pratica o canibalismo. Acho super-interessante porque no mundo de hoje, nós necessitamos de ajuda profissional devido a tantos problemas que criamos em nossa mente e tantas situações difíceis pelos quais passamos e seria, no mínimo, irônico se o seu psicólogo/psiquiatra fosse um psicopata e devido aos conhecimentos dele em comportamento, personalidade, etc, ele sabe os seus medos e suas angústias mais profundas e, dependendo da pessoa, ele planta uma "sementinha da discórdia", de forma a você libertar sua mente para loucuras que talvez estiveram lá adormecidas ou que você desenvolva isso de certa forma e isso é incrivelmente assustador!


O Hannibal fazia isso com seus pacientes que, muitas vezes, se tornavam serial killers, assassinos e criminosos muito perigosos. O Anthony Hopkins interpreta a frieza, o requinte, a inteligência e sedução do Dr. Lecter de uma forma que é difícil imaginar outro ator na pele dele psicopata canibal, entretanto, já existe uma série do Hannibal que também é muito boa (e o ator que interpreta o Hannibal é fantástico tmb) e recomendo que quem gostar desse vilão fascinante, que assista.

A história de "O Silêncio dos Inocentes" gira em torno de uma policial em formação do FBI, a Clarice (a maravilhosa Jodie Foster) que recebe destaque por ser uma das melhores alunas e deixam ela encarregada de entrevistar o Hannibal, um psicopata muito perigoso que consegue, facilmente, entrar na mente das pessoas e usar seus medos contra elas.


A cena dela entrando no manicômio masculino para entrevistar o Dr. Lecter é MUITO chocante! O que fico impressionada com os filmes antigos é que em termos de conteúdo, eles conseguem ser muito mais pesados do que alguns filmes atuais. Eles podem não ter toda a beleza e tratamento de imagens que havia na época, por não haver tecnologia o suficiente, mas os filmes, mesmo que não tenham um tratamento de imagens mais escuro de sombrio como os filmes de hoje, a densidade da cena torna o filme MUITO sombrio. A cena onde ela conseguiu entrevistar o Hannibal e está saindo do manicômio/presídio é BEEEEM forte!

O motivo dela entrar em contato com o criminoso é que por ele ser um excelente psiquiatra, ele compreende a mente de muitas pessoas e sabe o que esperar delas, então, ela precisa da colaboração dele para que a polícia encontre um criminoso, que vem assassinado várias mulheres e tem tirado pedaços de suas peles. Ele concorda, contanto que ela conte sobre a vida dela, como se ele fosse o psiquiatra dela em tratamento.


Antes dela entrar nessa prisão para falar com ele, outros policiais a orientaram a não deixar que ele entre na mente dela, mas ele é tão inteligente e consegue manipular as pessoas tão bem que ele acaba conseguindo o que quer.


É bem controverso ver que o mesmo vilão temido por todos e que o conhecimento dele sobre você pode ser uma arma poderosa contra a própria pessoa acaba ajudando uma investigação policial e, ao mesmo tempo, ele tem uma relação com a Clarice que se confunde entre o tratamento terapêutico, o medo e pitadas de charme e sedução.

Um filme muito, MUITO BOM e que recomendo para quem gosta de filmes de suspense e investigação policial.


Review de "A Lista de Schindler"


Nota de 1,0 a 5,0 = 5,0


Nossa! No mesmo dia em que vi "Olha quem está de Volta", vi mais outros dois filmes, que foram clássicos: "A Lista de Schindler" e "O Silêncio dos Inocentes" (cujos reviews, farei em breve), o primeiro, um clássico da História e do drama e o outro, um clássico do suspense.

"A Lista de Schindler" é um filme do grande cineasta Steven Spielberg, que marcou a geração anos 80 com o filme "ET", "Jurassic Park" e tantos outros sucessos, mas por ser um gênero diferente desses outros filmes que citei, confesso que me surpreendi. Sempre tinha ouvido falar desse filme, mas somente há uns finais de semana atrás, consegui vê-lo do início ao fim.

Mesmo sendo um filme da década de 1990, o diretor escolheu gravar tudo em preto e branco e isso deu uma certa elegância ao filme e também deu um certa morbidez, no qual está inserida a época, que retrata o nazismo na Alemanha. A única parte em cores, é a roupa de uma menina, de vestido vermelho, que sai correndo em algumas cenas e que, poeticamente, retrata o sangue e a violência da época.


O filme conta a história de um empresário, o Schindler, que está ascendendo socialmente, fazendo acordos com os judeus e conseguindo mais dinheiro, poder e prestígio e enquanto eles faz esses acordos, ele vê o quanto a vida dos seus empregados vem piorado e se tornando, cada vez mais complicada, devido ao nazismo.

É impressionante ver como era a casa e os luxos que os judeus possuíam antes da guerra e como, aos poucos, foi-se atribuindo a culpa de todas as crises e tudo de ruim que acontecia na Alemanha a eles e então, eles foram tratados das maneiras mais cruéis e abomináveis que podemos imaginar. 


[Alerta de spoiler] Uma das cenas que me tocou foi a de um idoso judeu, que possuía apenas uma mão e foi contratado para trabalhar na fábrica do Schindler. O idoso foi agradecer ao Schindler por tê-lo salvado e, inocentemente, o senhor se dizia um funcionário muito importante da fábrica e os soldados nazistas, ao verem o funcionário "maneta", como eles tratavam, riram e o assassinaram a tiros depois. O mais impressionante de tudo é que apesar do cinema romantizar muito as coisas, boa parte das histórias foram baseadas em fatos reais.

Os judeus eram mortos por qualquer motivo, até mesmo por diversão... O soldado nazista, brilhantemente interpretado pelo Rauph Fiennes (o mesmo ator que interpretou "Voldemort" do Harry Potter e o "Dragão Vermelho", da trilogia do Hannibal), não tinha o que fazer, estava entediado e decidiu matar vários judeus "para brincar um pouquinho". A frieza e maldade deste personagem eram impressionantes.



Schindler, no início, começa com uma visão empresarial e empreendedora de um homem ambicioso e de lábia habilidosa, que queria prosperar nos negócios e utilizou a guerra e a crise em que estavam vivendo como uma alavanca para este sucesso e assim, ele utilizava a mão-de-obra judia por ser mais barata e fácil de explorar, mas, ao mesmo tempo, ele acabava salvando esses judeus das garras dos nazistas. Só beeeeem depois é que ele realmente teve a intenção de salvar os judeus da tortura e da morte. Ao mesmo tempo, ele conseguia apoio dos nazistas, graças à sua simpatia e lábia e assim, ele obteve muito sucesso e prosperidade.


O mais chocante de tudo é que no final [alerta de spoiler de novo], as imagens ficam coloridas e os atores que interpretaram os judeus entram em cena, levando pedras ao túmulo de Schindler, junto aos judeus DE VERDADE, que possuíam aqueles nomes e viveram aquelas histórias mostradas no filme.

Uma cena dessas e um filme desses, com pessoas reais faz contando todo esse sofrimento que viveram, na época do Holocausto, no mínimo, é de calar as bocas das pessoas que não estudaram História ou acham que "O Nazismo não foi assim tão ruim".

Assistam esse filme e tirem suas próprias conclusões do que foi o período nazista.




Os judeus presos nas câmaras de gás e Schindler lutando para elas terem um pouco de água e assim, sobreviverem


Campos de concentração nazista

Soldado nazista grita ensandecido. Ao fundo, corpos de judeus queimando

Cena final, onde os judeus que passaram por tudo isso de verdade colocam uma pedra sobre o túmulo de Oskar Schindler

Review de "Olha Quem Está de Volta"

sexta-feira, 24 de junho de 2016


Nota de 1,0 a 5,0 = 3,0

Gênero = Comédia

Não! Esse não é mais um daqueles filmes antigos de bebês falantes (que, na verdade, são bebês pensantes)! Se trata de um filme alemão, de nome original Er ist wieder da, baseado num livro de mesmo nome.

Neste filme, Hitler revive 70 anos depois da sua partida na II Guerra e está de volta à Alemanha, no ano de 2014. O filme é uma comédia, mas tipo... Se você está esperando um filme em que você quer se acabar de rir, recomendo que veja outro filme, pois ele não é tão engraçado, mas achei muito interessante do ponto de vista informativo.

Ultimamente, estamos vivendo uma crise e em momentos de crise, filosofias da extrema-direita crescem bastante. Isso não é só aqui no Brasil, mas também a nível mundial, mas, como estamos falando do filme, estamos falando da Alemanha.

Além da própria história, o filme combina entrevista com pessoas que são do elenco com pessoas que não estão atuando e estão de passagem.


Na história, ninguém acredita que o Hitler é, de fato, a figura histórica que voltou à vida. Acham que é um ator e tudo o que ele fala, referente ao nazismo, discursos de ódio e politicamente incorretos, etc é visto como piada e por acharem graça, ele acabou virando um comediante de um canal de TV, que ganhou muitos pontos de audiência. Foi aí que Hitler viu a oportunidade de usar a TV como veículo de propaganda nazista e as pessoas nem se dão conta de que ao rir das besteiras que ele fala, elas acabam comprando as ideias nazistas dele.

É chocante observar que apesar do povo alemão ter vergonha de seu passado nazista (ou, pelo menos, tinham antigamente), muitas pessoas que não eram do elenco não se importaram em dar as boas-vindas ao ditador alemão e até apoiar as suas ideias! Em uma das entrevistas, um idoso comenta que antes dos imigrantes, o QI dos alemães era 80 e depois da vinda deles, caiu para 60.


Poucas foram as pessoas que criticaram Hitler, suas ideias e alguns até estiraram o dedo para ele na rua, mas a maioria das pessoas mostradas no filme o trataram muito bem e como o ator incorporou o personagem, ele se utilizava do inconformismo das pessoas nessa época de crise para defender suas ideias de democracia (tal qual um político faria) e as pessoas acreditavam nele. Foi assustador constatar, no final das contas, que se Hitler tivesse voltado, mesmo com a Alemanha lembrando de seu passado nazista, o nazismo teria grandes chances de voltar, mas os novos alvos seriam os imigrantes, que são o maior motivo de descontentamento do povo alemão.

A História Mundial e o filme lembram o quanto o Hitler era um excelente orador. Nenhuma frase dele em si ficou cèlebre, mas a maneira dele discursar... A sua convicção... Os gestos... O tom de voz firme e decidido... O seu carisma... Seu poder de persuasão foram retratados no filme e foi assim que ele conseguiu conquistar tantos adeptos ao nazismo. É triste ver e chegar a conclusão de que não evoluímos muito da II Guerra para cá, pois se ele estivesse de volta, conseguiria conquistar muita gente para o nazismo novamente, tendo a insatisfação da população e raiva dos imigrantes como arma.

Além dessas chocantes constatações, um ponto alto e forte do filme são as mensagens do final, que não vou contar para não perder a graça, mas que servem de reflexão para todos nós.

É fácil enxergar a vilania e tudo o que há de cruel e desumano na figura do Hitler porque estudamos História e sabemos tudo o que ocorreu no nazismo (os campos de concentração... Câmaras de gás... Genocídio...), mas será que conseguiríamos ter a perspicácia de perceber políticos atuais, no nosso país e no mundo, com discursos semelhantes (lembrando que Hitler inspirou suas ideias do nazismo no fascismo italiano, então, quando falo de nazismo, também me refiro ao fascismo)? Algumas pessoas não percebem, mas um político brasileiro que tem ideias muito semelhantes é o Bolsonaro. Acho incrível e não consigo compreender como as pessoas acham que ele é uma boa opção para presidente em 2018 "porque não está envolvido com corrupção".

Não percebem?


- Hitler era racista e homofóbico. Bolsonaro também.
- Hitler era conhecido por ser esquentadinho, ter uma "personalidade forte" e falar gritando. Bolsonaro também.
- Hitler se aproveitou da crise para crescer e conquistar adeptos com seus discursos de ódio, culpando algumas pessoas pela crise. Bolsonaro também.
- Hitler matava todos os que eram contra sua causa que, para ele, eram vistos como bandidos, impuros, etc. Para Bolsonaro, "bandido bom é bandido morto".
- Hitler cometeu crimes contra a humanidade por ter liderado o genocídio de milhares de pessoas. Bolsonaro também, ao fazer homenagem a um torturador, que também matou muita gente.

Não faço campanha pró-PT, pró-socialismo ou pró-esquerda. Apenas peço que se você pensa em votar em Bolsonaro como presidente, repense e veja se essa é a melhor opção mesmo... Pense em quais serão as consequências para as minorias/menos favorecidos (negros, mulheres, índios, pobres, etc) caso ele ganhar... Você, com certeza, deve conhecer alguém que pertence a uma dessas "minorias".

Nos EUA, temos o Donald Trump que é outro de extrema-direita e que pode dificultar muito a vida das minorias também, caso for eleito. Os americanos também devem fazer essa reflexão sobre o futuro do país e sobre o sangue inocente que será derramado por consequência de um voto de alguém que pensou que "não se importa porque não pertence a esses grupos".

Neste filme, o próprio ator Oliver Masucci, que interpretou o Hitler se disse impressionado com as reações das pessoas, que quiseram tirar selfies com ele, os receberam de braços abertos e alguns até pediram para ele trazer de volta os campos de concentração! O ator também comenta o quanto era fácil "ganhar"/conquistar as pessoas com sua conversa manipuladora e os discursos e, nas cenas do filme, os discursos na TV (mas aí, essa última parte já é com o elenco e não com a população nas ruas).


Olha Quem Está de Volta demonstrou que mesmo as pessoas com um nível de educação mais alto, como os alemães (se compararmos, de maneira bem geral, com nós, brasileiros), podem ser facilmente manipuladas por um orador habilidoso e que a aceitação desse discurso de ódio de extrema-direita é, sem dúvida, um assunto que deve ser discutido no mundo atualmente.