Sementes da misoginia - impressões sobre o Amor durante a Grécia Antiga

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017


Após tanto tempo, finalmente, estou escrevendo sobre o segundo capítulo desse livro interessantíssimo: "Livro do Amor" da Regina Navarro Lins, que vem falando sobre como eram as formas de amor desde a Pré-História até os dias de hoje.

Esse livro é de 2012 e é dividido em dois volumes: o primeiro, que é o que estou lendo no momento, retrata o amor desde a Pré-História até a época do Renascimento e o segundo vai do Iluminismo até a atualidade.

Esta minha pesquisa que antes, era mais voltada para a área acadêmica, está se tornando cada vez mais pessoal. É de minha própria vontade e interesse saber mais sobre como eram as relações humanas desde a antiguidade e saber como elas se transformaram nas relações que vemos hoje e confesso estar muito impressionada com o quanto a sociedade grega nos marcou profundamente.

Quisera eu que essa constatação fosse de felizes coincidências, mas não é. Muitas coisas do pensamento machista que ainda perdura hoje, foram criadas nessa época (lembrando que o machismo não surgiu aí e sim, na Pré-História, como falo nesta postagem aqui, que foi o comentário primeiro capítulo do livro).

Confesso que esse capítulo foi muito difícil de fichar e tirar poucos trechos como referências, pois boa parte do que ele fala é interessante e mostra o quanto ainda carregamos muitos dos ideais gregos nos dias de hoje.


Panorama

Como o livro trata apenas a sociedade ocidental, podemos observar, de um capítulo para o outro, o enorme avanço da civilização, com criação de leis... Classes... Toda uma estrutura social que foi organizada a partir desta época e, com isso, vêm algumas diferenças nos relacionamentos.


É quase impossível falar de relacionamentos sem mencionar os papeis de homens e mulheres dentro desta sociedade.

Durante o período Homérico, a rigidez moral não era tão grande quanto foi no período Clássico, especialmente, em Atenas. No casamento, as mulheres do período homérico ainda gozavam de relativa igualdade de direitos e exerciam influência nos homens. Além disso, as mulheres tinham mais funções e participações ativas na casa, cuidando dos doentes, fornecendo roupas para seus maridos, preparavam os alimentos, cuidavam dos filhos e das terras na ausência dos guerreiros...

A união de Ulisses e Penélope eram um exemplo de casal harmonioso, o que era bem raro na literatura da época.


É muito interessante verificar que a questão da "mulher ideal" e da "mulher maldita" existir desde esse período.
“No mundo greco-romano, Penélope e Helena representaram os exemplos de esposa boa e má, respectivamente, uma oposição que os cristãos atribuiriam mais tarde a Eva e à Virgem Maria.”

É interessante perceber, ainda, que essa distinção entre as mulheres esteja ainda tão ressaltada, principalmente nos comentários machistas, quando ouvimos que "uma mulher é para casar e outra é para pegar". 



Durante a Grécia Clássica, conforme o enriquecimento dos gregos, foram necessitando menos das mulheres como esposas, pois tinham escravos para prover as roupas e cuidar das terras, deixando as esposas com uma função quase inútil e com isso, os homens passaram a desvalorizar suas mulheres e tinham pouco contato com elas.

Os homens possuíam uma enorme liberdade sexual, tanto que consideravam o casamento como algo dispendioso e uma barreira à sua liberdade. Dentre suas possibilidades de prazer, haviam as concubinas, as hetaíras, as prostitutas e os efebos.

Fiquei, particularmente intrigada com as hetaíras e os efebos, que eram os objetos de afeição maiores entre os homens da época.

Às esposas, eram negado tudo! Educação, filosofia, combate, política... Portanto, os homens consideravam as mulheres como burras. Como a elas não era permitida a liberdade sexual que eles tinham, muitas se queixavam de que eles não lhes davam prazer e por isso, eles achavam que as mulheres eram muito maliciosas. É curioso e chocante ler que existia uma lei e que essa era uma das poucas que davam algum direito às mulheres, que o homem poderia fazer sexo com sua esposa 3 vezes durante o mês.

As hetaíras, mesmo sendo cortesãs de classe, já possuíam instrução para falar de todos os assuntos que seriam negados às esposas e era por causa do conhecimento, liberdade e beleza delas que os homens ficavam fascinados. Seria cômico se não fosse trágico.

Pintura, em vaso, de uma hetaíra 


Por falar em "cômico e trágico", as esposas tinham o direito de ir ao teatro, mas elas só poderiam assistir tragédia. Espetáculos cômicos não eram "dignos" para elas.

Já os efebos eram adolescentes que eram aceitos como aprendizes, mas por quem os homens desenvolviam um relacionamento homossexual, que era super-comum na época. Eles eram tutores desses rapazes e os treinavam na arte da guerra, oratória, filosofia, etc desde os 12 anos até os 18. Aos 19 anos, o rapaz já era considerado um homem "dono de si" e podia, ele mesmo, adquirir seus efebos.

Um homem e seu amado efebo retratados neste vaso


É interessante que essa é uma característica que não se perpetuou no mundo hoje. A homossexualidade começou a ser perseguida nos séculos XII e XIII e foi vista doença no século XIV. Após a criação dos anti-concepcionais, nos anos 60, é que os homossexuais começaram a ser mais respeitados e a conviver com os heterossexuais com relativa paz, entretanto, ainda hoje, os homossexuais são as minorias que mais sofrem com o ódio e agressão verbal, psicológica e física hoje.

Como as mulheres viam seus maridos e tinham prazer com eles poucas vezes, era muito comum que elas recorressem ao uso de consolos, que tivessem serviços de alcoviteiras e/ou tivessem relações com outras mulheres, entretanto, o relacionamento entre mulheres era ridicularizado, afinal, eles nem sequem consideravam as mulheres como pessoas.

Um dos casos mais famosos de romance entre mulheres foi na Ilha de Lesbos, quando a poetisa Safo se apaixonada por suas alunas e escrevia muitas poesias, declarando seu sentimento por elas. Certa vez, uma de suas alunas ia se casar com um homem e apaixonada e enciumada, Safo escreve:
"Semelhante aos deuses me parece esse homem
Feliz que se senta e te fita, estando tu diante dele
Bem de perto, no silêncio, ouve
tua voz tão doce.
Rindo o riso suave do amor. Oh! Isto, somente isto
Sacode o perturbado coração que há no meu peito, fazendo-o tremer!
Desde que eu possa ver-te por apenas um pequeno momento
Minha voz é imediatamente silenciada
Sim, minha língua está partida; por todo o meu ser,
Sob minha pele de repente desliza um fogo sutil;
Nada meus olhos veem, e uma voz, de ondas claríssimas
Em meus ouvidos ressoa
O suor escorre por meu corpo, um tremor se apodera
De todos os meus membros, e, mais pálida do que a grama de outono
Tomada pela angústia da morte que ameaça, eu desmaio
Perdida no transe do amor."

Safo tinha certo prestígio entre os gregos e, portanto, seu poema é referência, na Medicina, para diagnosticar os sintomas da paixão.

Afresco de Safo encontrado em Pompéia


Outra prática que hoje, não é bem vista e hoje, deve ser combadita é a da pedofilia. Era perfeitamente normal, na época, um homem adulto possuir efebos dos 12 anos de idade e eles não só tinham essa relação de ensino-aprendizagem, como desenvolviam um relacionamento amoroso um pelo outro, com relações sexuais, obviamente. Existem textos e poesias com verdadeiras declarações de amor dos homens a seus efebos, exaltando sua beleza e masculinidade.

Haviam casos, entretanto, em que os próprios maridos ofereciam suas esposas aos convidados da casa ou se outros homens pedissem permissão, caso se interessasse em suas esposas. Eles a tratavam como um objeto de suas possem e poderiam oferecê-las a quem quisessem.

Na Grécia Clássica, estar com hetaíras, concubinas, prostitutas e efebos não era visto como traição. A única coisa que não era permitida era estar com uma mulher casada, entretanto, existem casos registrados de homens que se relacionavam, em segredo, com mulheres casadas.

Nesses casos secretos, se o homem descobrisse, ele teria o direito de matar o homem que se relaciona com sua esposa para lavar sua honra. Honra era algo extremamente importante para o homem grego e traição era uma desonra grave.

Muitas vezes, os homens resolviam "perdoar" as traições para não ter que devolver o dote às famílias das mulheres, principalmente se ele significasse uma enorme perda de dinheiro. Ele aceitava o arrependimento da esposa, mas caso não fosse o suficiente, ele teria que separar-se dela e devolvê-la para lavar sua honra.

As mulheres adúlteras eram muito mal-vistas. Se elas saíssem para assistir algum sacrifício público e outras pessoas a vissem, o primeiro homem que a visse poderiam arrancar-lhes as roupas e enfeites e açoitá-la, mas não podia mutilá-la ou matá-la.



Veja o que diz esse trecho quanto ao direito das mulheres de alegarem que os maridos eram adúlteros e pedidos de divórcio:
"A mulher não podia alegar adultério, mesmo explícito, como motivo para o divórcio. Se ela provasse ter sido vítima de abuso ou de violência física por parte do marido, o divórcio poderia ser concedido. Como resultado do processo de divórcio, todavia, o nome da mulher seria publicamente divulgado e isso era extremamente indesejável, pois as mulheres divorciadas, embora não fossem impedidas de se casar novamente, eram tratadas com desconfiança."

Os casamentos eram arranjados por homens, negociando terras e a mulher não tinha participação nenhuma. Eles desconheciam totalmente a relação entre casamento e amor, estando esse sentimento, da forma como conhecemos hoje, reservado apenas às hetaíras e efebos.

Pouco se sabe sobre os sentimentos das mulheres, pois os textos literários eram escritos por homens e para homens, logo, eles que descreviam como eles achavam que elas sentiam, mas acredita-se que havia uma mistura de amor e ódio por seus senhores, afinal de contas, elas só lhes davam os filhos que eles queriam e cuidavam da casa. É interessante ler que alguns poucos homens escreviam contos sobre esposas que se revoltavam com a forma como eram tratadas e assassinavam e se vingavam de seus maridos e seus parceiros sexuais, Os homens passaram a temer suas esposas, mas isso não parece ter feito com que eles as respeitassem mais ou mudassem seus comportamentos com elas.

Pintura de Medéia, personagem de uma tragédia que leva seu nome, escrita pelo poeta Eurípedes, onde a esposa, furiosa por ter sido abandonada por seu marido, que se interessara em outra mulher, a presenteia com um vestido que a queima até a morte e mata os próprios filhos que tivera com o ex-marido.


Os homens gregos não viam o amor como "meta de vida" e sim, como um prazer... Uma diversão e amar alguém era um dilema para ele, especialmente, uma mulher, pois ou o amor era visto como um exercício prazeiroso para o corpo ou como um tormento causado pelos deuses para vê-lo sofrer até levá-lo à ruína.


Considerações

Nossa! Foi tanta informação apenas nesse capítulo que também está difícil tecer poucas considerações. Hehehe!

Muito bom conhecer a origem de várias palavras e expressões e se dar conta do quanto essa cultura influenciou de fato.

O termo "erótico" vem do deus "Eros", mais tarde, sendo conhecido como o "cupido"... "Afrodisíaco" seria uma referência à deusa "Afrodite"... A palavra "lésbica" tem origem nos romances entre mulheres que aconteciam na Ilha de Lesbos... "Andrógino" tmb tem uma história muito interessante por trás, contada por Platão...

O nascimento da deusa Afrodite, sendo representado neste vaso


O Deus Eros, antes dele ter se transformado no travesso cupido

"No início cada ser humano tinha forma redonda, uma esfera fechada sobre si, quatro mãos, quatro pernas, duas cabeças, dois órgãos sexuais e todo o resto harmonioso. Havia três espécies de seres: Andros, Gynos e Androgynos, sendo Andros uma entidade masculina composta de oito membros e duas cabeças, ambas masculinas, Gynos idem, porém femininas, e Androgynos composto por metade masculina, metade feminina. 
Dotados de coragem extraordinária, eles atacaram os deuses, que, para puni-los e fazer com que se tornassem menos poderosos, os dividiram em dois. Seccionado, de Andros surgiram dois homens; apesar de seus corpos estarem agora separados, suas almas estavam ligadas, por isso cada um procurava a sua metade. 
Andros deu origem aos homens homossexuais. O mesmo ocorre com os outros dois seres. Gynos originou as lésbicas, e Androgynos, os heterossexuais. Quando se encontravam eram tomados por ternura, confiança, amor e o desejo de se fundirem ao objeto amado e constituírem um só em vez de dois. Desde então, as metades separadas andam em busca de sua metade complementar."

Também confesso ter ficado surpresa ao ler que os brinquedos sexuais, tais como os conhecidos vibradores, tiveram origem, também, na Grécia Antiga. Não se lê isso nos livros de História. Hehe!

Uma ateniense com algumas opções de consolo


E é chocante o quanto vemos pensamentos machistas e misóginos se repetindo através do tempo... Até hoje, vemos homens que consideram que as mulheres são inferiores... Que são burras... Mulheres que aprendem, desde cedo, que a "missão dela" é cuidar da casa, procurar um marido, casar e ter filhos e muitas não buscam o conhecimento ou têm acesso a ele por aceitarem sua condição ou por ignorância mesmo... Chocante ver que ainda existem homens que mesmo com a sociedade tendo mudado bastante e estando com leis mais desenvolvidas, comportam-se como os homens gregos, se casando, mas tendo várias experiências sexuais fora do casamento (só que agora, é considerado traição sim e as mulheres têm direito à pensão alimentícia para os filhos, por exemplo)... Chocante ver como a misoginia se perpetua e como tem homens que ainda sentem essa necessidade de lavar sua honra com sangue se as mulheres se separam deles ou se são traídos...

Dói ver o quanto aquelas mulheres não tinham direito à quase nada e o quanto a vida delas era terrível. Inclusive, o infanticídio era muito comum. Os casais tinham preferência por terem filhos homens, pois se tivessem filhas, quando crescessem, teriam que se casar e isso constitui em repasse de dote ao marido. Em outras palavras, uma filha significava prejuízo aos pais gregos. Ou eles as matavam ou as abandonavam. Também era comum haver infanticídio quanto haviam muitas baixam na guerra. Eles matavam as meninas para equilibrar o número de meninas e meninos.




É curioso ver, também, as diferenças. Na Grécia antiga, se relacionar com pessoas de ambos os sexos era algo perfeitamente normal para homens e mulheres. Muitos homens casados se divertiam com as hetaíras... Com os efebos... E três vezes por semana, tinha que garantir o prazer, que era direito da esposa.

A mulher, por sua vez, como não tinha a companhia do marido constantemente e não podia sair sem ele, tinha que se contentar com os brinquedos eróticos, com as alcoviteiras e outras mulheres. A própria Safo, mesmo com sua preferência por mulheres, amou também um homem e se casou com ele.

As atenienses desse período Clássico nem sequer tinham autonomia. Só possuíam o direito de herança e de gerar cidadãos legítimos e mesmo a herança que recebiam, era administrada sob tutela/autorização ou do pai, caso fosse solteira, ou do marido, se fosse casada. Era uma mercadoria que apenas mudava de dono: do pai ao marido.




É, amig@s... Essa é a triste história da mulher e do quanto ela foi destituída de tantos direitos, sempre concedidos aos homens. Não estamos falando de séculos atuais e sim, de tempos ainda antes de Cristo! A Grécia Clássica está compreendida entre os séculos IV e V a.C. e ainda hoje, existem pessoas que consideram a luta por direitos da mulher uma "choradeira" ou "mimimi", como chamam hoje em dia...




Depois de tudo o que li sobre a Grécia Antiga neste capítulo e compreendo um pouco mais a sociedade em que vivemos e de onde surgiu todo esse discurso de ódio que vemos nas redes sociais contra o feminismo, posso dizer que a música do Chico Buarque "Mulheres de Atenas" ganhou uma densidade muito maior em meu coração (e, para quem não entendeu, o Chico não está elogiando o modo de vida delas. Ele está se utilizando de ironia).


Boa noite a tod@s!

O caso da Carol Moreira - foi assédio ou não foi?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016


Toda vez que me deparo com as redes sociais, em especial, o Facebook, vejo que as pessoas não têm mais vergonha de exteriorizar o que pensam, mesmo que sejam pensamentos perversos e/ou de ódio ou que podem ferir alguém emocionalmente.

Hoje, assisti a famosa entrevista da Carol Moreira, conhecida por falar de Game of Thrones e de filmes em geral e quando ela foi entrevistar o famoso ator Vin Diesel, ela comentou no vídeo que ela não se sentiu nada à vontade e que ele a interrompeu várias vezes. Será mesmo? Vamos tirar a prova? Assistam o vídeo abaixo:



Eu assisti todo o vídeo e constatei que, de fato, ela não parecia NADA à vontade com os "elogios" dele e que ele foi muito incômodo por atrapalhar a entrevista várias vezes (nota: não é que eu achasse que ela estava mentindo, mas primeiro, eu ouvi o boato e depois, vi a entrevista para tirar minhas próprias conclusões).

Me espanta ver o quanto existe gente que adora julgar e que está completamente equivocada em relação ao assunto assédio.

Antes de seguirmos em frente, vamos procurar saber o que significa "assédio" no bom e velho pai-dos-burros? No dicionário Houaiss diz:
"assédio     Datação: 1548

n substantivo masculino
1 operação militar, ou mesmo conjunto de sinais ao redor ou em frente a um local determinado, estabelecendo um cerco com a finalidade de exercer o domínio
2 Derivação: sentido figurado.
insistência impertinente, perseguição, sugestão ou pretensão constantes em relação a alguém
"

Ok. Guardou o significado? Agora, vamos pensar aqui comigo nos seguintes pontos:

1. Meninos queridos, não confundam elogio com assédio! Elogio é sempre permitido e sempre bom tanto para quem elogia, quanto para quem recebe. O fato não foi esse. Não haveria problema algum se ele a elogiasse uma vez, durante a entrevista ou antes ou depois dela, mas ele a "elogiou" três vezes, durante a entrevista e não respondia às perguntas dela. Ele estava atrapalhando o trabalho dela e isso é MUITO chato.


Vocês podem se perguntar "e como sei quando estou elogiando e quando está se tornando outra coisa?" Simples. Verifique se a mulher está confortável com isso. Se você não souber reconhecer, pergunte-a. Foi muito simples reconhecer o incômodo dela. Percebem que ela agradece os elogios, mas ela SEMPRE volta ao assunto da entrevista? Isso já é o suficiente para demonstrar que ela não queria que ele falasse DELA. Ela queria que ele se atesse à entrevista. Ela estava lá como profissional e estava sendo profissional, mas o cara não levou muito à sério, né...? Se ela estivesse à vontade, ela iria rir apenas e ia deixar que ele falasse dela o quanto ele quisesse, mas ainda assim, não seria muito profissional da parte dela, pois alguns Youtubers são patrocinados. São pagos para fazer aqueles vídeos e os minutos em que ela poderia estar gastando com perguntas ao ator, ele desperdiça, inclusive, o próprio tempo, elogiando-a insistentemente? É chato.


2. Não confundam o que você faria com o que ela faria no vídeo. Já expliquei no ponto anterior que ela estava lá entrevistando-o como uma profissional e vi comentários no Youtube de meninas que teriam ficado com ele na hora. Hehehe! Mas além da questão profissional, que pesa muito (para mim, foi o que mais pesou), tem a questão de gosto. Ela pode não achar o Vin Diesel atraente e pode não estar interessada por ele. Qual o problema? Do mesmo jeito, nos comentários do Youtube, tem gente que acha ela feia... Tem gente que me acha feia... Tem gente que me acha bonita... Gosto é uma coisa que não dá para se discutir. No caso, ela não o quis.



3. O feminismo e os direitos das mulheres são muito mal compreendidos. Estou abismada em constatar isso na internet. As pessoas compreendem muito mal as coisas. Existem muitos estereótipos que estão sendo usados e, boa parte disso, é culpa dessa polarização política que o Brasil está passando e por isso, não conseguem enxergar algumas coisas com clareza. O feminismo luta pelos direitos das mulheres, o que não significa, necessariamente, ódio aos homens. Mais uma vez, utilizando o dicionário Houaiss, vamos definir o que é feminismo.


"feminismo     Datação: 1905

n substantivo masculino
1 doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade
2 Derivação: por metonímia.
movimento que milita neste sentido
3 Derivação: por extensão de sentido.
teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos

4 Derivação: por metonímia.
atividade organizada em favor dos direitos e interesses das mulheres
5 interesse do homem pela mulher; atração
6 Rubrica: medicina. Estatística: pouco usado.
presença de caracteres femininos no homem"

Com base nisso, vamos definir outro conceiro muito utilizado: o machismo.

"machismo     Datação: sXX

n substantivo masculino
1 qualidade, ação ou modos de macho ('ser humano', 'valentão'); macheza
2 Uso: informal.
exagerado senso de orgulho masculino; virilidade agressiva; macheza
3 comportamento que tende a negar à mulher a extensão de prerrogativas ou direitos do homem"

Reparem que, em nenhum momento, o machismo significa a proteção dos direitos ao homem, do mesmo jeito que o feminismo não significa "superioridade feminina à masculina" ou "ódio ao homem". O contrário do machismo não é feminismo e sim, femismo. Infelizmente, o femismo existe e deve ser combatido tanto quanto o machismo.



Vocês devem perguntar "e o que isso tem a ver com a entrevista?" Tem TUDO!

Alguns homens acham que a mulher tem que aceitá-los só porque eles as querem e eles não veem a mulher como outro ser, que também tem sentimentos e vontade e ela pode e tem todo direito de não querê-lo. Mesma coisa com os homens.

Ninguém gosta de ser rejeitado, seja homem ou mulher, mas nem todo homem aceita a rejeição. Muitos agridem a mulher com xingamentos ou até mesmo, fisicamente... Outra questão é que, da mesma forma, um homem não será menos homem se ele não der em cima de alguma mulher ou se ele disser "não" para uma mulher que ele não queira ou até sinta interesse sexual nela, mas queira ser fiel à companheira (caso não estiver 100% solteiro) ou não a quer porque não se sente bem no momento. Nesse sentido, o machismo é, até mesmo, prejudicial ao próprio homem.

O ponto-chave de eu ter tocado no feminismo é que, como expliquei, ele luta por esse direito da mulher ser compreendida enquanto um ser humano. É absurdo que as pessoas nem sequer dão a ela o direito de não se sentir à vontade com isso... A julgam como "mimizenta"... Vitimista... Gente,.. Ela não gostou de ser cantada por ele! Ponto! Ela tem esse direito de não gostar, mas gostar de outro cara cantando ela, do mesmo jeito que os homens têm direito de não gostar de uma mulher, que muitos acham linda e gostar de outras, que muitos considerariam "estranhas".

Percebem que comparando essa questão de direitos, os homens são muito mais compreensíveis com outros homens com "gostos estranhos" do que com uma mulher que, simplesmente, não gostou de ser cantada pelo Vin Diesel, como se ela não tivesse esse direito de não gostar?


4. Atores também são seres humanos e também fazem merda. Muita gente esquece isso. Daí, só porque são fãs do cara, negam toda e qualquer besteira que ele faça, mas gente... Um comportamento reprovável é um comportamento reprovável, mesmo que você seja o Papa! Eu adoro e era super-fã do Johnny Depp, mas ele agrediu a mulher dele... O Sean Penn agrediu a Madonna, uma das mulheres mais poderosas do mundo e que recebeu o prêmio de "Mulher do Ano" da Billboard um dia desses!!! Não é porque eles são incríveis em cena que eles são "santos incapazes de errar" não. Já teve vários artistas que foram presos por dirigirem alcoolizados (Nossa! É só o que tem nos EUA)... Que estiveram em clínicas de reabilitação para se livrarem das drogas... Elizabeth Taylor foi uma delas... O Charlie Sheen também e além de receber acusações de que batia na ex-mulher, ele bebe, usa drogas, teve várias relações com homens e mulheres e contraiu o vírus HIV... Com Vin Diesel não é diferente. Ele parecia estar meio bêbado/chapado, mas mesmo assim, isso não é desculpa para ele ter agido dessa forma.


Aliás... Esse tópico 4 é tão ridículo que dá até vergonha de relembrar o óbvio às pessoas.


5. Assédio sexual é algo sério. Guardou o significado se "assédio" lá em cima? Dentre os pontos mostrados no dicionário, o assédio está mais para o "sentido figurado, insistência impertinente, perseguição, sugestão ou pretensão constantes em relação a alguém". E bom... Ele a elogiou várias vezes... Ela tentou mudar de assunto várias vezes e tentar fazer seu trabalho... Ele foi insistente nesse assunto quando ela não se sentiu à vontade, então, pode ser considerado assédio sexual SIM.

Sei que muitos homens se revoltam com isso e pensam "ah! Mas não se pode mais nem elogiar a mulher agora?" Releiam o primeiro ponto e depois que voltarem, vamos falar de um assunto muito delicado: ser mulher.

Ser mulher é você estar, constantemente com medo de um cara não saber o limite do assédio pro elogio, insistir quando ela não quer e estuprá-la ou agredí-la fisicamente. O medo é constante e não adianta dizer que "não vai machucá-la". Para uma mulher mudar esse comportamento e deixar de ter esse medo, os homens devem mudar primeiro e mostrar que se importam com elas... Que aceitam que elas não os querem... Que aceitam que elas tenham uma opinião e que possa escolher, mesmo que ele não seja a escolha dela... Tratá-la tão bem como ele trata outro homem, respeitando tudo o que ele diz.


Não se trata de vitimismo. Se trata do mundo como ele está agora.

Esses dias, também foi possível ver um lamentável caso de uma delegada sendo agredida fisicamente pelo seu marido e uma policial tentou defendê-la e foi agredida também. Nem mesmo as mulheres em posição de liderança ou poder estão salvas desse ódio que alguns homens têm... E o desfecho dessa história não poderia ter sido pior: a delegada pagou a fiança e uma criatura dessas, que não tem a menor condição de conviver em sociedade está solta por aí.

Muitas mulheres são agredidas por homens conhecidos e, na maioria das vezes, são seus namorados... Maridos... Homens que elas amavam e confiavam, mas esse cara agrediu uma policial que ele nem sequer conhece! Do mesmo jeito que ele a feriu, ele pode ferir qualquer outra mulher (Veja vídeo da agressão clicando aqui)!


Agora olha o tamanho do Vin Diesel, a posição privilegiada em que ele se encontra, por ser endinheirado... Uma figura pública... Ele faz um monte de filmes de ação, o que confere a ele um certo estereótipo de "heroi brutamontes"... Algumas mulheres se sentem atraídas por tudo isso, mas outras podem sentir medo. Não podemos generalizar e acho ridículo quando tem gente que acha que "mulher só quer saber de dinheiro". A Carol é a maior prova de que isso é mentira, pois se ela tivesse interessada no dinheiro dele, ou ela sairia e ficaria com ele, ou ela deixaria o post dela no Twitter, tratando o assunto como assédio (pois foi assédio mesmo) e processaria ele por isso. Ela não fez nenhuma coisa, nem outra. Ela deletou o post pra tentar evitar a polêmica, mas acho que nem conseguiu e já tem um monte de gente (inclusive eu) opinando sobre o assunto. O que me espanta é que muitas pessoas de opinião contrária à minha sempre apresentam os mesmos discursos de que "é mimimi"... "Vitimismo"... Que ela "quis ficar famosa às custas dele"... Que "os fãs dela são baba-ovo"...

Se ela quisesse ficar famosa às custas dele, ela teria deixado o post dela do Twitter e levaria o assunto a conhecimento da comunidade internacional, inclusive.

Ah! E eu não sou fã dela.

Pode até ser lisonjeiro um ator famoso e reconhecido achá-la atraente, mas isso não significa que ela o quer e que ela ela goste de ser abordada da forma em que ele a abordou, durante o trabalho que ela estava fazendo.



Muitos ainda disseram que ela "poderia ter editado o vídeo". O vídeo só tem 12 minutos... Boa parte da entrevista, ele a interrompe e ele é um cara muito ocupado e de passagem pelo Brasil, então, era pra deixar o vídeo mais curto ainda? E quando eles teriam a oportunidade de realizar outra entrevista?

Sem contar que é bom e interessante dar visibilidade a essas questões... Além da questão do assédio sexual, tem a questão da visão da mulher brasileira no exterior, como a mulher linda, sexy e fogosa e que, provavelmente, "quer dormir com quem a queira". Precisamos desconstruir isso também, pois as pessoas de fora também devem nos respeitar. Se fosse um brasileiros que tratasse uma mulher do país dele da mesma forma, eles também não iriam gostar e também seria muito bom que os homens refletissem que a mulher assediada poderia ser sua irmã, mãe, tia, namorada, avó, etc.

Enfim... Mais algumas reflexões da madrugada.

No mais, não julguem!

Beijos!

Review de "Quem é essa mulher"?

quarta-feira, 23 de novembro de 2016


Nota de 1,0 a 5,0 = 4,5

Gênero = Comédia


Antes de mais nada, gostaria de dizer para as pessoas que traduzem os títulos de filmes para algo que tem nada a ver para POR FAVOR, NÃO FAZER ISSOOOOOO!

Sério... Parece falta de criatividade... O nome do filme original é "Florence Foster Jenkins" e como ela não foi uma pessoa muito conhecida, principalmente por quem não está acostumado a ouvir canto lírico, muitas pessoas não sabem quem ela é. Até parece que quando foram decidir o nome do filme, uma pessoa se perguntou para a outra "quem é essa mulher?" e responderam "não sei" e aí, pronto. Ficou "Florence, quem é essa mulher" mesmo.

Tirando esse detalhe, o filme é muito bom!

No elenco do filme, nada mais, nada menos que a "papa-Oscar" de Hollywood: Meryl Streep! Ela, como sempre, maravilhosa e tmb o charmoso Hugh Grant e o Simon Helberg, que também interpreta o Howard da série "The Big Bang Theory".

Florence Jenkins era uma ricaça que achou que já estava pronta para cantar ópera e como não havia ninguém que lhe dissesse o contrário, ela se apresentou várias vezes e, inclusive, apresentou no renomado teatro Carnegie Hall. 

De início, achei que as pessoas a mimavam porque ela era rica e sim... Alguns mimavam ela por esse motivo e outros, principalmente os que realmente se importavam com ela, não falavam a verdade por outros motivos que não vou contar, para não fazer spoiler.

A Florence real à esquerda e a Meryl Streep, à direita, encarnando-a


Apesar de ela ter tudo o que quer nas mãos (professores de canto e maestros de fazer inveja a qualquer estudante de canto lírico, excelentes instrumentistas para tocarem com ela, etc), ela não era uma mulher arrogante. Ela era mimada por todos, mas era muito generosa, fazia doações a instituições de caridade e ela incentivou o cenário da ópera, com o dinheiro e influência que possuía.

O que talvez algumas pessoas não saibam é que essa história é baseada em fatos reais. Essa mulher REALMENTE existiu e vocês podem conferir todo o... "talento" dela no vídeo do Youtube abaixo, onde ela canta a super-conhecida ária da Rainha da Noite "Der Hölle Rache" da ópera "A Flauta Mágica" de Mozart:


Às vezes, me pergunto se ela nunca ouviu suas próprias gravações para perceber que... "Tinha alguma coisa errada ali"... E é incrível perceber que essa história foi real. Claro que o cinema sempre romantiza um pouco, mas tudo aquilo aconteceu mesmo.

Interessante também ver que a Meryl se desafinou para parecer, o máximo possível, com a Florence cantando. Hehe! Mas os áudios do filme são a Meryl que canta, imitando e interpretando-a.

Mas enfim... A comédia traz uma belíssima mensagem no final que vale a pena conferir e que faz, principalmente, quem trabalha com a arte e o canto (não apenas o lírico) se emocionarem (ou eu, pelo menos, me emocionei)... Essa mensagem foi o que mais me tocou e me fez gostar ainda mais do filme e a valorizar ainda mais a minha profissão como cantora lírica.


Confiram pq o filme é bem legal sim!

Beijos e valeu!