Silêncio e liberdade

quarta-feira, 15 de julho de 2020


Pobre moça tão sofrida...
Tanto medo, tanto receio
Que há de explodir o seio
Tanta dor, tanta ferida..

Constrói espessas muralhas
Protegendo seu entorno
Qual será o seu transtorno?
Contra quem são as batalhas?

Sob ameaça suposta
Assustou-se com o invisível
E escolheu o indizível
Como amarga resposta

O silêncio outrora imposto
Começou como opressão
E tornou-se libertação...
Causou em ti o oposto

Me liberto ao me calar
E você, em sua censura
Se prende na postura
De não me deixar falar

Não preciso de mordaça
Pois você já está inerte
Na prisão que te converte
De caçadora a caça

É refém do próprio ego
Que te impede de agir
E ver o carinho ressurgir...
Essa culpa, eu não carrego

Meus amores, confesso
Os meus erros, redimo
Meus versos, eu rimo
De teu fardo, me despeço.


(Daliana Medeiros Cavalcanti - 16/07/2020)

Ser e estar

sábado, 20 de junho de 2020

Quadro: "A Visão de Hamlet" (1893) de Pedro Américo (1843-1905)

A forma como nossa língua é estruturada tmb molda nossa forma de pensar.

Nosso português e o espanhol diferenciam "ser" e "estar" - "ser" como algo mais permanente e "estar" como algo mais passageiro. Já as línguas como o inglês, francês e o alemão, "ser" e "estar" são a mesma coisa.

Isso me faz pensar que quando queremos nos reafirmar como alguma coisa, usamos o "ser": "eu sou assim", "eu sou bonita", "eu sou inteligente", "eu sou sempre assim" e isso pode fazer maravilhas para nossa auto-estima, quando fazemos afirmações positivas. Nós reafirmamos algo positivo e que é uma característica permanente nossa, mas nem sempre fazemos isso com nós mesmos... É muito comum afirmarmos "eu sou feia", "eu sou abestalhada", "eu sou infeliz"... E é bem ruim quando reafirmamos algo negativo e permanente...


Nas línguas em que ser e estar são a mesma coisa, acho interessante pq admitem que a pessoa vive fases... Está em permanente mudança e estado de alteração, então, "você está bonita", "você está inteligente", "você está assim agora". Isso já é ótimo para lidar com sentimentos negativos e até lembrei de um comentário maravilhoso de uma neurologista chamada Cláudia Feitosa-Santana que disse que esse pensamento é até legal para lidar com coisas sérias como as doenças mentais. "Você não é a doença, mas você está com ela agora". É até uma forma mais branda de lidar com a depressão, por exemplo, segundo a própria especialista.


Às vezes, é difícil admitir pra nós mesmos que não somos seres permanentes e vamos morrer um dia, seja num comportamento e atitude, seja o nosso próprio corpo... Então, estamos vivos agora e podemos escolher "ser vivos" perante a nossa "permanência impermanente" na Terra.


Talvez, seja mais difícil pra nós, que separamos o que é passageiro do que é permanente, lidarmos com isso...

Talvez por essa admissão do que é permanente crie tantas "certezas" como "homem é homem e mulher é mulher". Talvez, seja mais fácil acreditar nisso do que "o homem está homem HOJE, mas pode não estar amanhã e a mulher está mulher HOJE, mas pode não estar amanhã tmb". Todos nós mudamos e está tudo bem.


Trocamos de roupa... De amigos... De escola... De trabalho... Nós realmente precisamos ser? Por quê ou pra quê? Até que ponto as auto-afirmações e definições são necessárias?

Enfim... Mais algumas viagens "louca na droga", de madrugada. Hehe!

Beijos! 😘😘😘

Dia 24 de Maio: dia de Santa Sara Kali, Padroeira dos Ciganos

domingo, 24 de maio de 2020


Hoje é o Dia da Padroeira dos Ciganos, Santa Sara Kali e Dia Nacional dos Ciganos, e queria só partilhar uma experiência que tive...

Há muitos anos atrás (entre 2003/2004), eu estudava Sistemas de informação e estava estagiando na CODERN. Estava perto de concluir o curso e o estágio que consegui foi por ser aluna de 5º/6º período, mais ou menos.

E aí, tinha descido do ônibus e estava andando apressada, a caminho do estágio, para bater o ponto no horário correto, até que uma senhora negra, bem velhinha (lembrava a Coco de tão enrugada, mas com cabelos negros)... Parecia ter uns 60/70 anos ou até mais me parou e perguntou "moça, onde fica a SETURN?". E respondi:

- Ah! É só a senhora andar reto, em direção ao Banco do Brasil, atravessa a rua e fica lá em frente.
- É que eu não sei andar em nada por aqui...


E eu fiquei naquele dilema porque estava muito apressada para bater o ponto, mas apesar do medo de ter meu dinheirinho descontado pelo meu atraso, tenho um coração mole demais, então, falei "venha comigo. Meu estágio é mais ou menos no caminho, então, te acompanho até lá por perto."

E por ser uma idosa, os passinhos dela eram beeeem lentos e a voz dela tão baixinha e gasta de tão velhinha... Muitas vezes, eu sequer entendia o que ela dizia e ela tinha que repetir. Eu tinha pouco menos de 20 anos na época, então, meu ritmo era bem diferente do dela e tinha vezes que andava apressada, ainda com medo do atraso e quando percebia que deixava ela para trás, algumas vezes, parei com a pressa e andei beeeeem devagarinho para acompanhá-la, no tempo dela.

- Gosto muito de pessoas educadas como vc. - ela me disse, ao que sorri e continuei os passos lentos e conversei um pouco com ela.

Durante essa conversa, duas coisas me chamaram muito a atenção: quem me conhece, sabe que desde sempre, eu ando para cima e para baixo ou com mochilas pesadas e cheias de coisas ou com pastas ou livros na mão. Eu estava com uma bolsa ou livros num braço (não lembro mais), que estava próximo a ela e como fiquei com o braço cansado, passei para o outro braço e me surpreendi quando ela ficou nervosa e disse:

- Não! Não se preocupe! Eu não vou te roubar!
- Tá tudo bem... Eu só estava com o braço cansado e passei as coisas para o outro braço... - falei impressionada com a reação dela, mas calma, para que ela visse que eu sequer pensei isso dela.

Continuamos caminhando e conversando. Ela perguntou "vc já tem namorado?" e respondi que não e foi quando ela disse: "é porque seu amor está distante... Vem de longe..."

Então, chegamos em frente ao Banco do Brasil e apontei para o lugar: "está vendo? É ali. Consegue ver? Acha que consegue ir lá sozinha?" e estava disposta a ir com ela, caso ela precisasse e ficasse ruim dela ir, mas ela disse que já que ela já estava quase de frente para o lugar, que não me preocupasse pq ela conseguia ir sozinha. E então, ela me pergunta: "vc tem R$ 2,00? Eu poderia ler a sua mão" e foi só então que caiu a ficha - ela era uma cigana!


Fiquei muito, mas MUITO tentada a saber da leitura, mas acho que não tinha o dinheiro e tmb me lembrei que tinha que correr para o trabalho, então, disse que não podia agora por causa da hora, mas ah... Se arrependimento matasse... Hehe! 🤦‍♀️

Sei que ela apenas disse que tudo bem, ficou grata e seguiu o seu caminho ao SETURN. Quando ela foi embora, fui correndo à CODERN e fiquei feliz pq bati o ponto no horário e ainda tinha alguns minutos, então, talvez até tivesse dado para ela ler minha mão e fiquei irritada comigo mesma por causa disso (mas tmb não lembro se tinha o dinheiro).

Foi uma experiência que nunca mais esqueci pq não é sempre que vemos os ciganos, ainda mais, uma cigana de verdade (pq cartomantes e/ou pessoas que dizem que leem a sorte, mas não são ciganas, existem aos montes) e o que me chamou mais atenção nem foi ela ter pedido para ler minha mão e sim, o fato dela pensar que eu achei que ela ia me roubar, quando só mudei minhas coisas de braço, pq meu braço cansou e isso só me faz pensar o quanto o povo cigano sofre um preconceito ENORME e me lembrei tmb de um clássico Disney que amava, que era "O Corcunda de Notre Dame", que tmb falava sobre esse preconceito, mas quando vc vê algo no desenho quando é criança e vc VÊ a reação de uma pessoa, que sofreu esse preconceito na sua frente, é algo muito mais tocante e que mostra, não apenas que o preconceito é real, mas que ele, mesmo sendo antigo, ainda existe e é muito presente na nossa sociedade...


Enfim... Que esse dia seja lembrado para que o povo cigano tenha respeito e que não sejam tratados como ladrões, nem que tenham reações como essa que a senhorinha teve, por normalizarem essa visão deles...